Ele não se conteve mais; como uma fera descontrolada, saiu subitamente de trás da árvore onde se escondia e correu trôpego em direção àquela cena serena.
"— Alice!"
Sua voz era rouca e quebrada, soando estranhamente abrupta à beira do lago silencioso.
A cadeira de rodas parou.
O homem que a empurrava — Gustavo Castro — franziu levemente a testa e ergueu o olhar para o intruso, com uma expressão calma, mas carregada de uma frieza que mantinha as pessoas à distância.
Ele deu meio passo à frente, protegendo Alice com o próprio corpo e movendo a cadeira sutilmente para trás.
Alice pareceu paralisar por um instante e, então, ergueu a cabeça lentamente.
A luz do pôr do sol caía sobre seu rosto, dando à sua pele pálida uma aura dourada. Ela olhou para Diego, mas em seus olhos não havia o ódio, a raiva ou a dor que Diego esperava encontrar.
Não havia nada.
Apenas uma calma absoluta. Uma calma como a superfície de um lago no outono profundo, sem uma única ondulação.
Aquela calma, mais do que qualquer emoção violenta, era o que mais aterrorizava Diego.
"— Alice..." Diego ficou estancado no lugar pelo olhar dela, com a voz tremendo, falando de forma desconexa. "Eu... eu descobri tudo... Três anos atrás, o que houve na escada, foi a Bianca quem te incriminou! Me perdoe! Me perdoe, Alice! Eu fui um cego! Eu fui um canalha! Eu não deveria ter duvidado de você! Eu falhei com você!"
Com os olhos vermelhos, ele tentou se aproximar, mas foi impedido discretamente pelos guarda-costas trazidos por Gustavo.
Alice olhou para ele fixamente por alguns segundos e, então, desviou o olhar calmamente, voltando-se para Gustavo.
Sua voz era muito baixa, com a rouquidão de quem não falava há muito tempo, mas estranhamente estável:
"— Leve-me de volta, por favor. O vento está ficando frio."
Gustavo assentiu levemente, sem dirigir um único olhar a Diego. Ajustou com delicadeza a manta sobre os joelhos dela e, em seguida, girou a cadeira de rodas, afastando-se lentamente pelo caminho de onde vieram.
"— Alice! Alice, me ouça! Eu sei que errei! Eu realmente sei que errei! Me dê uma chance! Eu imploro!" Diego tentou correr atrás deles, mas foi firmemente bloqueado pelos guarda-costas.
Ele só pôde observar, impotente, a cadeira de rodas distanciar-se cada vez mais, vendo a silhueta frágil de Alice fundir-se gradualmente ao brilho do entardecer, sem que ela olhasse para trás nem uma única vez.
"— ALICE!!!"
Diego caiu de joelhos no chão, em colapso, enterrando as mãos profundamente na terra fria, soltando um rugido de desespero como uma fera encurralada.
O vento do lago soprou, trazendo o aroma da primeira neve dos Alpes, gelado até os ossos.
Aquele chamado desesperado dispersou-se no vento, sem obter qualquer resposta.
Era como se ele, com todo o seu arrependimento e dor, tivesse se tornado para ela apenas um ruído de fundo sem importância, incapaz de gerar a menor ondulação em seu coração morto.
Gustavo empurrou Alice de volta para o quarto, pegando-a com cuidado da cadeira de rodas para acomodá-la no sofá forrado com uma manta de lã macia, adicionando outra manta fina sobre seus joelhos.
"— Sente frio?" ele perguntou baixo, com um timbre suave como o de uma nascente de água sobre pedras de jade.
Alice balançou a cabeça, com o olhar perdido nos pássaros que passavam do lado de fora da janela.
Sua mão direita continuava imobilizada no suporte, e os dedos da esquerda permaneciam rígidos e desajeitados; até mesmo segurar um copo d'água a fazia tremer levemente.
Gustavo sentou-se na poltrona ao lado dela, sem tentar puxar assunto, apenas acompanhando-a em silêncio.
Ele entendia que ela precisava dessa companhia silenciosa muito mais do que qualquer consolo vazio e fraco.
Ele era Gustavo Castro, herdeiro da família Castro na Europa, cujas famílias eram amigas de longa data dos Valente.
Aquele boato sobre um "compromisso de infância" não era sem fundamento, exceto que, com o desaparecimento da filha mais nova dos Valente na época, o compromisso fora suspenso.
Durante todos esses anos, ele nunca desistira de procurar pela menininha de olhos risonhos de sua memória, até que Arthur Valente trouxe notícias concretas.
Quando a encontrou, ela estava coberta de cicatrizes e com o coração em cinzas.
Ele assumiu todo o tratamento e a reabilitação dela.
Capítulo 18
No início, Alice Valente era como uma boneca de vidro, requintada, porém sem vida. Não chorava, não reclamava e não falava; cooperava com todos os tratamentos de forma extrema, mas com uma apatia absoluta.
Gustavo Castro não se apressou; ele possuía uma paciência que transcendia sua idade.
Ele supervisionava pessoalmente o cardápio de cada uma de suas refeições, lia coleções de poesias suaves para ela e permanecia em silêncio ao seu lado durante as monótonas e dolorosas sessões de fisioterapia manual. Quando ela suava frio de dor e estava prestes a desistir, ele segurava seu pulso com firmeza e dizia, com voz estável: "Mais uma vez, Alice. Você consegue."
Ele até aprendeu a massagear os dedos rígidos dela, com uma pressão suave e precisa, tentando aliviar a dor neuropática que penetrava até os ossos.
O médico-chefe chegou a balançar a cabeça e suspirar para Arthur Valente em particular: "A constituição física da Srta. Valente sofreu danos severos, especialmente as mãos... as lesões nos nervos e ossos são irreversíveis. Fizemos o nosso melhor, mas temo que movimentos finos no futuro... tocar violino é absolutamente impossível."
O rosto de Arthur ficou lívido, e seus punhos estalaram com a força do aperto.
Ao lado, Gustavo ouviu tudo em silêncio, sem dizer uma palavra.
No dia seguinte, uma equipe médica especial composta pelos melhores especialistas mundiais em cirurgia da mão, neurologia e reabilitação chegou discretamente ao centro de repouso.
Foi Gustavo quem mobilizou todos os contatos da família Castro para trazê-los com a máxima urgência.
Ele não prometeu a Alice que ela ficaria boa; apenas colocou os novos planos de tratamento e as apresentações dos especialistas diante dela, dizendo calmamente: "Vamos tentar isto, está bem?"
Alice ergueu os olhos, olhou para ele e depois para os complexos documentos em inglês. Seus longos cílios tremeram e ela soltou um "sim" quase inaudível.
Aquela resposta baixíssima fez com que a expressão gélida de Gustavo se suavizasse por um instante.
Ele passou a acompanhá-la com ainda mais frequência.
Na sala de reabilitação, era comum ver esta cena: Alice cerrando os dentes, suportando a dor aguda enquanto movia, milímetro a milímetro, os dedos rígidos e deformados nos aparelhos, com o suor encharcando os cabelos em sua testa. Gustavo permanecia ao lado, entregando água morna ou um lenço limpo no momento certo. Ocasionalmente, quando ela não aguentava mais, ele dizia em um tom gentil, porém firme: "Descanse cinco minutos, e então continuaremos."
Ele nunca mencionava o passado, a família Rocha, Diego, ou o incêndio e as mãos que a levaram ao abismo. Ele apenas mostrava, através de ações, que o passado já tinha ido, e que o futuro talvez ainda valesse a pena ser reconstruído, peça por peça.
O mundo de Alice parecia resumir-se àquele centro de repouso tranquilo, às montanhas nevadas e lagos do lado de fora, à dor diária da reabilitação e à presença silenciosa, porém onipresente, de Gustavo.
Até que um pedido de chamada de vídeo entrou na linha criptografada de Gustavo.
Na tela estava o rosto severo de Arthur Valente, com o que parecia ser seu escritório ao fundo. Havia um cansaço imperceptível em sua fisionomia, mas seu olhar suavizou-se imediatamente ao ver Alice.
"— Alice, como se sente hoje?" perguntou Arthur. Mesmo através das ondas eletromagnéticas, sua voz não escondia a preocupação.
"— Bem", respondeu Alice baixinho. Após uma pausa, acrescentou: "Irmão, você não parece bem. As coisas no país... estão muito difíceis?"
Ela sabia que seu irmão estava agindo contra os Rocha e os Diego. Mesmo naquele centro isolado do mundo, ela conseguia vislumbrar a severidade das medidas através de fragmentos de conversas telefônicas de Gustavo e notícias financeiras.
O olhar de Arthur aqueceu-se: "Apenas assuntos menores, logo estarão resolvidos. Apenas foque em sua recuperação e não se preocupe com isso."
Ele hesitou por um momento, mas decidiu contar: "Bianca está em estado crítico. O período ideal para o transplante é de menos de uma semana agora. A família Rocha está começando a ficar desesperada."
Os dedos de Alice apertaram o copo de água de forma quase imperceptível, relaxando em seguida.
Ela baixou os olhos, observando a superfície da água oscilar levemente, sem qualquer expressão no rosto, apenas soltando um "ah".
Era uma indiferença total, como se tivesse acabado de ouvir notícias sobre um estranho qualquer.
Arthur observou cuidadosamente a reação dela. Ao ver que realmente não houve grande impacto, continuou: "Bernardo Rocha veio me procurar hoje."
Alice ergueu os olhos.
"— Ele se ajoelhou na porta do edifício Valente", disse Arthur num tom plano, como se falasse do clima. "Muitos veículos de imprensa filmaram."
Os cílios de Alice tremeram, mas ela permaneceu em silêncio.
"— Quer ouvir o que ele tem a dizer?" perguntou Arthur.