Ele era o oposto absoluto de Ricardo.
Ele sabia respeitar e, mesmo quando surgia algum mal-entendido, era o primeiro a se comunicar com honestidade.
Ele dizia: “Se eu te deixei triste, certamente foi erro meu.”
“Clara, me diga o que foi, e eu vou melhorar.”
Ao lado de Thiago, Clara sentia uma leveza que não experimentava há muito tempo.
Ela não precisava mais usar uma armadura rígida, nem fingir ser forte o tempo todo.
Ela podia ser frágil, sabendo que alguém estaria ali para acolher todas as suas inseguranças.
“Clara, os resultados dos testes saíram e não há problemas graves.”
Thiago entregou o relatório a ela, com uma voz leve e alegre:
“Após o último teste de amanhã, poderemos discutir o lançamento com a minha irmã.”
Eles vinham se preparando para este projeto há muito tempo. Assim que a IA estivesse finalizada, seria lançada rapidamente no mercado.
A tensão acumulada finalmente cedeu um pouco, e Clara não pôde evitar um sorriso:
“Que ótimo... estou realmente ansiosa.”
Este era o fruto gerado pela sua própria patente e o primeiro marco que ela construía com as próprias mãos após deixar São Paulo.
Thiago olhou para o brilho nos olhos dela e, incapaz de se conter, ergueu a mão e afagou levemente o topo da cabeça dela.
“Hoje finalmente poderemos voltar cedo para descansar, sem precisar dormir no laboratório.”
O toque macio e quente de seu cabelo fez o coração dele amolecer.
Essa proximidade repentina deixou Clara estática por um instante.
Desde que se conheceram, nunca haviam tido um gesto tão íntimo.
O estranho era que ela não sentia repulsa.
Suas orelhas ficaram levemente avermelhadas e seu coração falhou algumas batidas. Ela recuou meio passo, apressada, abaixando a cabeça para sair:
“Eu... eu vou indo primeiro. Volto amanhã cedo para o teste final!”
“Clara.”
A voz de Thiago veio de trás dela, suave mas clara.
Ela parou.
Ele observou as costas dela e disse calmamente: “Posso te chamar de ‘Clarinha’?”
“Ficar chamando de ‘Senhorita Clara’ o tempo todo parece... um pouco distante.”
Clara apertou a alça da bolsa com força.
Ela respirou fundo, virou-se e encontrou o olhar dele:
“Pode.”
Ela hesitou por um segundo e sorriu levemente:
“Então eu vou fazer como a veterana e te chamar de ‘Thiago’.”
“Combinado.”
Thiago caminhou até ela, olhou para o caminho à frente e disse com naturalidade:
“Então... vamos para casa juntos?”
“Já está tarde, não é seguro você ir sozinha.”
Ele segurou a mão dela, brincando:
“Se acontecer algo com você, minha irmã me mata.”
Graças a esse comentário, o clima sutil de timidez dissipou-se instantaneamente.
Clara retribuiu o aperto de mão, com os olhos brilhando:
“Certo.”
“Vamos para casa.”
Capítulo 18
O teste final da inteligência artificial foi aprovado com sucesso.
Como membro central da equipe de pesquisa e desenvolvimento, Clara participou da reunião de decisão antes do lançamento do projeto.
Helena, com sua presença marcante no mundo dos negócios, havia gerido a família Silva com grande sucesso ao longo dos anos, estabelecendo uma autoridade absoluta.
Foi a primeira vez que Clara a viu dessa forma, e ela não pôde evitar sentir admiração.
Após a reunião, ela se aproximou de Helena e a elogiou sinceramente: "Veterana, você é realmente incrível."
Helena sorriu e balançou a cabeça: "Clara, você é a peça-chave. Sem a sua patente, não sei por quanto tempo este projeto continuaria estagnado."
Ela fez uma pausa e disse com sinceridade: "Obrigada por aceitar colaborar com a família Silva."
Clara sentiu as orelhas esquentarem levemente: "Com as condições que a veterana ofereceu, seria difícil recusar."
As duas sorriram uma para a outra.
A conferência de lançamento foi marcada para o fim de semana.
Como núcleo da equipe, Clara precisava subir ao palco para dar as explicações técnicas.
Desde o turbilhão de três anos atrás, ela não aparecia em público há muito tempo.
A ideia de enfrentar câmeras e multidões a deixava inevitavelmente nervosa.
Thiago, sentado em sua cadeira de rodas, segurou suavemente a mão dela.
"Clara, confie em si mesma. Ninguém conhece este projeto melhor do que você."
Sua voz era firme e decidida.
Clara respirou fundo e, sob o olhar sereno de Thiago, caminhou pausadamente até o palco.
No momento em que os holofotes caíram sobre ela, seu instinto foi recuar por um instante.
Mas, no momento seguinte, ela viu o olhar encorajador de Helena no palco e ouviu o "não tenha medo" vindo de Thiago, baixo mas claro, abaixo do palco.
Sua coluna se ergueu silenciosamente.
Ela caminhou até o centro do palco e levou o microfone aos lábios:
"Este é o mais novo lançamento do Grupo Silva..."
"BANG—!"
As portas do salão foram abertas violentamente.
Uma silhueta entrou contra a luz, atraindo instantaneamente todos os olhares.
"Clara!"
A voz familiar cortou o ar. O corpo de Clara ficou rígido, e ela olhou para a porta sem acreditar no que via—
A luz e a sombra se dissiparam, revelando o rosto marcado e ansioso de Ricardo.
Os nós dos dedos dela ficaram brancos de tanto apertar o microfone, que tremeu levemente em sua palma.
Após um longo silêncio, ela ouviu sua própria voz tensa ecoar por todo o salão através dos alto-falantes:
"O que você veio fazer aqui?"
Helena aproximou-se rapidamente e perguntou em voz baixa: "Você está bem?"
Clara assentiu rigidamente e depois balançou a cabeça.
"Clara!" Ricardo caminhou a passos largos até a frente do palco, olhando para ela com uma luz quase obsessiva nos olhos. "Volte comigo."
"Eu me enganei de pessoa... quem eu sempre amei foi você!"
O suor frio molhou a palma da mão de Clara.
Ela achou aquilo de um absurdo extremo, como se uma peça de teatro de baixa qualidade tivesse invadido subitamente a realidade.
De repente, uma mão quente segurou seus dedos gelados.
Thiago, sem que ela percebesse quando, havia subido ao palco; sua cadeira de rodas parou silenciosamente ao lado dela.
"Se não quiser enfrentar isso, deixe comigo."
Ele disse baixinho e, protegendo levemente Clara atrás de si, ergueu o olhar para encarar Ricardo.
"Senhor, a Clara é minha noiva. Você está pedindo para ela voltar para onde, exatamente?"
Seu tom era pacífico, mas cada palavra era nítida:
"Você está causando um tumulto público aqui. Por acaso não tem consideração pela família Silva?"
O olhar de Ricardo cravou-se em Thiago, com um frio cortante:
"Eu e a Clara estivemos juntos por três anos, ela está apenas chateada comigo. Hoje, vim buscá-la para casa."
Ele enfatizou deliberadamente a expressão "três anos", com um olhar provocador:
"Senhor Thiago, há quanto tempo você a conhece? Como ela se tornou sua noiva?"
A expressão de Thiago não mudou, mas o rosto de Clara empalideceu subitamente.
Ser lembrada do passado em uma ocasião como aquela era uma humilhação.
Aqueles três anos que um dia julgou belos, após a revelação da verdade, tornaram-se apenas sórdidos.
"E o que importam três anos?"
Thiago falou com voz grave, mantendo a calma:
"As pessoas precisam olhar para frente. Senhor Ricardo, ninguém fica parado no mesmo lugar para sempre."
Ele apertou a mão de Clara e, ao erguer o olhar, seus olhos eram como águas profundas e silenciosas:
"Agora, a Clara é minha noiva — isso é um fato."
O rosto de Ricardo escureceu bruscamente. Ele olhou para a cadeira de rodas de Thiago e soltou um riso de deboche:
"Você, um aleijado, acha que tem o que..."
"Chega!"
Clara interrompeu com voz severa.
Thiago apertou suavemente a mão dela, o calor de sua palma trazendo um conforto silencioso.
No segundo seguinte, ele apoiou as mãos nos braços da cadeira de rodas e levantou-se lentamente.
Sua figura esguia manteve-se firme, e ele olhou calmamente para Ricardo:
"Se tenho ou não o direito de estar ao lado da Clara, talvez não caiba a você julgar."
Ele fez uma pausa, e sua voz soou clara:
"Mas de uma coisa eu tenho certeza. Você, com certeza, não tem."
Capítulo 19
Ricardo observou a figura firme de Thiago em pé, e sua respiração travou:
"Suas pernas... estão bem?"
"Naturalmente, não há problema algum."
Thiago agia com naturalidade, ainda protegendo Clara atrás de si. "Eu respeito a escolha da Clara."
"Mas este seu comportamento de assédio, peço perdão, não posso aceitar."
Ricardo cerrou os dentes, com o olhar fixo em Clara: "Clara, volte comigo!"
Clara fechou os olhos por um instante.
Ela tocou levemente o braço de Thiago, sinalizando para que ele ficasse tranquilo, e deu um passo à frente.
Thiago sussurrou: "Não se force."
"Está tudo bem."
Ela balançou a cabeça e olhou para Ricardo, com a voz tão calma que não demonstrava a menor emoção:
"Eu já tenho um noivo e me casarei com ele no futuro. Ricardo, vá embora e não volte mais."
"Clara!"
Ricardo aumentou o tom de voz repentinamente. "Eu sei que errei — mas houve um motivo!"
Ele falava depressa, como se tivesse medo de ser interrompido:
"A Beatriz me enganou! Ela fingiu ser a pessoa que me salvou... mas essa pessoa era você!"
"Eu me enganei de pessoa..."