Ele se inclinou para perto, com cada palavra destilando gelo:
“Caso contrário, eu faria você descobrir o que é desejar a morte.”
Beatriz estremeceu e instintivamente soltou a mão dele.
Ela nunca vira Ricardo daquela forma; o medo era como água gelada percorrendo cada centímetro de seu corpo.
Porém, ela sabia que, se o deixasse partir hoje, ela se tornaria o motivo de riso de toda a cidade.
“Me escuta, eu posso explicar...” Ela forçou-se a continuar. “Aquelas coisas não são verdade...”
“Se é verdade ou mentira, eu vou descobrir.”
Ricardo endireitou o corpo, olhando para ela como se visse algo morto:
“Bia, é melhor você começar a rezar agora mesmo. Rezar para que tudo aquilo seja falso.”
“Porque se não for...”
Ele não terminou a frase, deixando apenas um sorriso frio que era mais aterrador do que qualquer ameaça direta.
As pernas de Beatriz cederam e ela ficou caída no chão, vendo-o partir com determinação.
Dentro do carro, a pressão estava baixíssima.
Ricardo encostou-se no banco traseiro, massageando as têmporas com os olhos fechados, quando perguntou de repente:
“E a Clara? Já a encontraram?”
O secretário no banco da frente virou-se apressado: “Apenas descobrimos que a Senhorita Clara deixou o hotel antes do início do jantar... para onde ela foi exatamente, ainda estamos investigando.”
“Continuem procurando!”
Ricardo abriu os olhos bruscamente, com uma tempestade de emoções neles.
Diante de seus olhos, surgiu a imagem de Clara desejando felicidades com calma e o sorriso de alívio que ela dera antes de partir.
Seu coração apertou de repente com uma dor sorda que se espalhou.
Seria essa a vingança dela?
O quão profundamente ele a machucara para que ela usasse um método tão drástico para reduzir tudo a cinzas?
Três anos de convivência; ele claramente entrara no coração dela, mas ele mesmo a expulsara com as próprias mãos.
Ele pressionou o peito com a ponta dos dedos, e todas as suas reações anormais finalmente tiveram uma resposta —
Ele prestava atenção nela inconscientemente porque se importava.
Ele sentia irritação e ciúme ao ouvi-la desejar felicidades com tanta naturalidade.
Ele não queria ver ódio nos olhos dela e não aceitava que ela partisse... tudo porque, há muito tempo, ele se apaixonara por ela.
Mas fora cegado pela suposta “dívida de gratidão”, confundindo até a pessoa que realmente deveria valorizar.
Do início ao fim, quem ele realmente quis foi sempre Clara.
Felizmente... ainda não era tarde demais.
Quando ele a encontrasse, pediria perdão, compensaria tudo e diria claramente o que sentia.
Desta vez, ele jamais a deixaria ir.
Capítulo 12
O avião decolou e pousou; em apenas duas horas de voo, Clara sentiu um peso sair de seus ombros.
Era como se as correntes que a aprisionaram por anos tivessem finalmente se quebrado.
Ela saiu pelo portão de desembarque e, ao abaixar a cabeça para chamar um carro para a mansão dos Silva, um sedã preto parou lentamente diante dela.
Clara pensou que o motorista estivesse ali para buscar outra pessoa e deu um passo para o lado.
Nesse momento, a janela do carro baixou.
Uma voz suave ecoou: “Senhorita Clara.”
Ela parou e ergueu o olhar.
Dentro do carro, viu um rosto frio e atraente, com traços profundos, observando-a calmamente.
Clara hesitou e apontou para si mesma, incerta: “Está falando comigo?”
O homem assentiu.
Ela buscou rapidamente em sua memória, confirmando que não conhecia aquele rosto, e perguntou cautelosamente: “Com licença, quem é o senhor...?”
O homem pegou o celular e mostrou-o levemente para ela.
Na tela, estava a conversa do WhatsApp entre os dois.
“Seu noivo.” Ele deu um leve sorriso. “Thiago Silva.”
Clara ficou completamente estática.
Era a primeira vez que via esse “noivo” pessoalmente; ela se sentiu um pouco perdida, chegando a gaguejar:
“V-você... por que veio...?”
“Você disse que voaria para o Rio hoje. Eu estava livre e decidi vir buscá-la.”
Thiago agia com naturalidade, inclinando-se para abrir a porta traseira. “Entre, vamos primeiro para a casa dos Silva.”
Já que ele viera buscá-la, Clara não recusou.
Ao abrir a porta do carro, seu olhar passou involuntariamente pelas pernas dele, desviando-se no segundo seguinte.
Mas, mesmo através da calça social, o contorno daquelas pernas... não parecia em nada com o de alguém deficiente.
Ela suprimiu a dúvida e sentou-se no carro.
Estar num espaço fechado com um noivo que acabara de conhecer criava um clima inevitavelmente sutil.
Clara apertou os lábios e, depois de um tempo, conseguiu dizer: “Obrigada pelo incômodo.”
Thiago sorriu gentilmente: “É o mínimo que eu poderia fazer.”
O trajeto seguiu em silêncio.
Por sorte, o aeroporto não era longe da mansão dos Silva, e o carro logo entrou em um pátio gramado.
Clara desceu primeiro e ia dar a volta para abrir a porta para Thiago, quando o viu descer do carro com desenvoltura.
As pernas longas tocaram o chão com firmeza, e ele se manteve em pé de forma ereta e ágil.
A mente de Clara ficou em branco e ela deixou escapar: “Suas pernas... estão bem?”
Thiago soltou uma risada leve.
O rosto de Clara ficou vermelho instantaneamente, e ela tentou explicar: “Não foi isso que eu quis dizer...”
“Tudo bem.” Thiago ajudou a dissipar o constrangimento com um sorriso. “Para o mundo exterior, eu sou de fato o segundo filho ‘deficiente’ da família Silva. É normal você se surpreender ao me ver assim pela primeira vez.”
Clara sentiu as orelhas queimarem e não sabia onde colocar as mãos. Ela soltou uma risadinha sem graça para mudar de assunto:
“E por que você faz isso...?”
“Ah, isso.” Thiago não se importou, pelo contrário, começou a explicar seriamente. “Realmente sofri um acidente ao atingir a maioridade e quase perdi as pernas na época.”
“Quando a notícia se espalhou, o boato passou de ‘possível deficiência’ para ‘deficiência total’.”
“Fiquei desanimado por um longo tempo, e as empresas da família que deveriam ser minhas ficaram sob os cuidados temporários da minha irmã.”
“Depois, minhas pernas se recuperaram totalmente com a fisioterapia, mas percebi que não tenho o menor interesse em gerir empresas.”
“Minha irmã faz um excelente trabalho, mas os velhos conselheiros da diretoria são machistas e sempre tentam tirá-la do cargo.”
Ele deu um leve sorriso, com um brilho de astúcia nos olhos:
“Decidi continuar ‘deficiente’. Assim, posso fazer o que gosto, e minha irmã pode exercer seu talento e ambições.”
“É o melhor dos dois mundos.”
Clara ouviu aquilo atônita.
Ela já vira muitas famílias ricas lutando por poder até a morte; ver uma família como a Silva, onde os irmãos se apoiavam dessa forma, era a primeira vez.
Além da surpresa, sentiu uma ponta de inveja.
Desde pequena, ela nunca tivera laços familiares fortes; nunca soubera o que era ser cuidada por alguém, muito menos o que era amor entre irmãos.
Antigamente, ela lutara desesperadamente para se segurar em algo, mas agora entendia que o que é dado pelos outros nunca pertence realmente a nós.
“Thiago.”
Uma voz feminina clara veio de não muito longe.
Thiago ergueu o olhar e um sorriso surgiu em seu rosto: “Mana.”
Clara seguiu o olhar dele e virou-se, mas parou estática no lugar no mesmo segundo —
“Veterana...?”
Capítulo 13
“Clara.”
Helena parou diante dela, com um sorriso suave. “Quanto tempo.”
“Veterana... você é da família Silva?!”
Clara não conseguiu esconder o choque.
Ela jamais imaginaria que, ao vir para o Rio de Janeiro, encontraria uma antiga conhecida.
Anos atrás, enquanto estudava no exterior, ela conheceu Helena, que era três anos mais velha, após um incidente fortuito.
Depois da formatura, Clara voltou ao país e caiu imediatamente na rede meticulosamente tecida por Ricardo, perdendo quase todo o contato com o passado.
Além de Júlia, Helena era uma das poucas amigas daquele período cinzento de que ela ainda se lembrava.
“Sim”, assentiu Helena.
“Então, este compromisso de casamento...”
“Desde o início, foi preparado para você”, disse Helena com franqueza.
Os dedos de Clara apertaram inconscientemente a barra da blusa: “Por quê?”
Por que ela?
“Na verdade, inicialmente, eu não pretendia usar um casamento como moeda de troca.”
Helena deu um passo à frente, com tom gentil. “Clara, você se lembra que, quando estava no exterior, detinha a patente de um chip de inteligência artificial?”
“A família Silva sempre quis expandir para a área de IA e desenvolver tecnologia própria, mas sempre fomos barrados em etapas cruciais. Até que me lembrei da sua patente.”
“Mas se a veterana quisesse colaborar, bastava me procurar diretamente.”
Clara ainda não entendia. “Pela nossa amizade, eu não teria recusado.”
“Eu sei que não”, suspirou Helena. “Por isso, minha primeira intenção foi procurá-la diretamente para uma parceria.”
“Mas, após investigar, descobri que você tinha acabado de ser expulsa pela família Antunes como a herdeira falsa e sido ‘acolhida’ pelo Ricardo.”
O olhar de Helena escureceu levemente: “Talvez para evitar que você descobrisse a verdade, Ricardo a mantinha sob vigilância cerrada.”
“Provavelmente nem você percebia, mas cada passo seu estava sob o olhar dele.”
“Não ousamos entrar em contato precipitadamente. Primeiro, por medo de que a notícia sobre a patente vazasse para mãos erradas; segundo...”