O vídeo continuava passando diante de todos; não era difícil imaginar quem era a autora.
Com razão, ele sentira um mau pressentimento antes do jantar.
Uma fúria avassaladora subiu à cabeça de Ricardo. Ele olhou instintivamente para onde Clara estava sentada —
Mas havia apenas uma cadeira vazia.
Ela tinha ido embora.
Os sussurros dos convidados começaram a inundar seus ouvidos como uma maré:
“Meu Deus! Então a Clara é a verdadeira herdeira dos Antunes? A Beatriz é só uma filha ilegítima?”
“Nunca imaginei que o Ricardo usaria métodos tão baixos para enganar uma garota...”
“Cruzando com esse casal de loucos, a Clara deu um azar danado!”
As mãos de Ricardo, ao lado do corpo, cerraram-se com força, as veias saltando. Sua voz era assustadoramente fria ao dar ordens ao secretário que subia ao palco:
“Vá atrás da Clara! Procure por toda São Paulo e traga-a para a minha frente!”
“E avise a toda a imprensa presente. Quem ousar vazar qualquer detalhe do que aconteceu hoje, não esperte complacência da minha parte!”
O peito dele arfava violentamente quando uma mão macia segurou a sua.
Ricardo parou por um instante e viu o rosto pálido, mas forçadamente calmo, de Beatriz.
Ela tentou sorrir: “Ricardo, a Clara certamente não fez por mal...”
Ela respirou fundo, posando de compreensiva: “Não podemos perder o controle agora. Vamos terminar o cerimonial para não virarmos piada.”
Ao vê-la tentando consolá-lo mesmo em meio à humilhação, o coração de Ricardo amoleceu. Ele ia puxá-la para um abraço.
No entanto, um grito de surpresa ecoou no salão.
Ele percebeu que o vídeo anterior havia parado. Ao olhar para o telão, seu sangue congelou instantaneamente —
Fotos de Beatriz beijando outros homens surgiam nítidas diante de todos.
Beatriz, vendo-o paralisado, virou-se sem entender.
No segundo seguinte, toda a cor sumiu de seu rosto e ela soltou um grito histérico:
“Desliguem! Desliguem isso agora!”
Ela tentou correr para fora do palco como uma louca, mas Ricardo a segurou com força.
Incapaz de se soltar, ela começou a balbuciar explicações desconexas: “É mentira... são montagens que a Clara fez para me prejudicar! Ricardo, não olhe—”
Antes que terminasse de falar, as fotos pararam e um vídeo começou a rodar logo em seguida.
Nas imagens, Beatriz usava roupas curtas e colocava uma uva na boca, dando-a de forma audaciosa na boca de um homem desconhecido. As pessoas ao redor riam e incentivavam, em um clima totalmente sugestivo.
Ricardo nunca a vira daquela forma.
Ele sempre pensara que ela era pura e tímida, do tipo que corava ao segurar as mãos.
No vídeo, alguém perguntava rindo: “Bia, não tem medo que aquele cara da família Xie descubra?”
“Medo de quê?” O tom de Beatriz era puro deboche. “Vocês não têm ideia do quanto ele é louco por mim.”
“O Ricardo é um idiota, ele conseguiu confundir até quem salvou a vida dele.”
“Ele acha que fui eu quem o salvou, mas na verdade, quem o tirou da água naquele dia foi a Clara!”
Ela soltou uma risada boba, com uma voz doce porém venenosa:
“Ele é tão fácil de enganar... mesmo que descubra, eu invento qualquer desculpa e ele acredita... ele jamais ousaria desconfiar de mim.”
Capítulo 10
Beatriz sentiu as pernas fraquejarem e desabou no chão.
Ela agarrou a barra da calça de Ricardo, balançando a cabeça em pânico:
“Não, não é nada disso... Ricardo, me escuta, eu posso explicar...”
Ricardo virou a cabeça lentamente, e o olhar que dirigiu a ela era de um frio aterrador:
“A pessoa que me salvou... foi a Clara?”
“Você mentiu para mim?”
“Eu não menti!” Beatriz rebateu com um grito agudo, mas começou a gaguejar sem conseguir continuar. “Eu só... eu apenas...”
“Senhor Ricardo!”
O Senhor Antunes, vendo que a situação fugia ao controle, subiu apressadamente ao palco, colocando-se entre os dois.
Com o rosto lívido, ele tentava manter a compostura: “Vamos conversar sobre isso em particular!”
“Há muitas pessoas presentes hoje, o mais importante é estabilizar a situação!”
“É verdade!” Dona Helena também se aproximou, lançando um olhar de puro ódio para Beatriz.
Por mais que detestasse aquela filha ilegítima, ela entendia que o prestígio da família era a prioridade no momento.
“O que aconteceu hoje é um escândalo para as duas famílias! É melhor terminarmos a cerimônia e depois emitirmos um comunicado dizendo que as fotos foram editadas e que são calúnias de concorrentes. Precisamos abafar esse caos!”
Mas Ricardo não ouvia mais nada.
Sua mente estava fixa naquela frase: “Ele provavelmente não sabe até agora que quem o tirou da água, na verdade, foi a Clara!”
Se aquilo fosse verdade...
O que significavam o favoritismo que ele demonstrou por Beatriz e todas as armações contra Clara nestes últimos três anos?
Ele reconhecera a pessoa errada e pisara na lama aquela que era sua verdadeira salvadora.
E pensar que... ele tivera uma chance.
Ricardo estava prestes a recusar o pedido de silêncio quando as portas do salão foram escancaradas.
Dois policiais entraram acompanhados por um homem jovem e subiram direto ao palco.
O policial à frente exibiu o distintivo com uma voz solene:
“Recebemos uma denúncia de envolvimento em um caso criminal de dois anos atrás. Por favor, colaborem com a investigação.”
Ao lado dele, o jovem tinha os olhos injetados; o ódio parecia querer saltar de seu peito:
“Senhor Antunes, o senhor ainda se lembra das pessoas que morreram por culpa de vocês três anos atrás?”
“Eu quero que vocês — paguem essa dívida de sangue!”
O Senhor Antunes franziu o cenho, ignorando o rapaz e voltando-se para o policial:
“Oficial, deve haver algum mal-entendido...”
“Creio que não há mal-entendido algum.”
O policial o interrompeu.
Em seguida, a própria voz do Senhor Antunes ecoou nitidamente pelos alto-falantes do salão:
【Eu abafei o caso. Mas, Senhor Ricardo, isso foi uma falha no projeto de parceria das duas famílias... o melhor é selarmos o casamento.】
【Com as duas famílias formando um bloco de interesses, todos ficam tranquilos.】
Após um breve silêncio, veio a resposta fria de Ricardo: 【Fechado.】
O rosto do Senhor Antunes mudou de cor drasticamente. Dona Helena tentou intervir rapidamente para amenizar a situação:
“Isso... isso é apenas um áudio, não prova nada!”
“As famílias Antunes e Silva são alvos grandes; quantos concorrentes não gostariam de nos derrubar? Se aceitarmos qualquer áudio forjado como prova, onde vai parar a reputação das nossas empresas?”
Ela virou-se para o jovem furioso, mantendo a postura:
“Senhor, é preciso ter provas antes de falar! Se qualquer um puder fazer acusações vazias como essa, o que será da credibilidade dos negócios?”
O jovem riu com desdém: “Se eu tive coragem de vir aqui, é claro que tenho provas concretas!”
O policial não disse mais nada, apenas declarou: “Peço que os senhores nos acompanhem até a delegacia.”
“Senhor Ricardo, peço que também não se ausente da cidade nos próximos dias para colaborar com futuras convocações.”
O Senhor Antunes cerrou os dentes, sabendo que não havia escapatória. Antes de ser levado, sussurrou para Dona Helena:
“Não deixe vazar uma única palavra sobre hoje! Você cuida do resto!”
Dona Helena assentiu apressadamente.
O Senhor Antunes ia soltar um suspiro de alívio quando seu secretário se aproximou, pálido, e relatou em voz baixa:
“Senhor... deu problema!”
“O jantar de noivado foi transmitido ao vivo por streaming. Já é o assunto número um nas redes sociais; o país inteiro já sabe!”
Capítulo 11
“O quê!”
O sangue subiu à cabeça do Senhor Antunes, que quase desmaiou.
Ricardo também voltou a si bruscamente, questionando seus subordinados com severidade:
“Eu não mandei silenciar toda a imprensa? Como pode haver alguém transmitindo ao vivo!”
O secretário estava branco como papel, com a voz trêmula: “Quem está transmitindo... não é a imprensa de São Paulo.”
“Nós... não temos controle sobre eles.”
“Mas a lista de convidados foi verificada, só deveria haver—” Ricardo interrompeu a própria frase.
No meio da fala, ele travou. “Foi a Clara!”
A essa altura, como ele poderia não entender?
Tudo aquilo fora uma vingança meticulosamente planejada por Clara.
Mas como ela conseguira fazer aquilo?
Seu olhar escureceu enquanto ele dava ordens:
“Mande toda a mídia de São Paulo calar a boca agora! Reduzam o impacto ao mínimo possível!”
“Não... não dá mais para segurar...”
O secretário mal ousava levantar a cabeça. “Já se espalhou por toda a internet...”
“Tentar silenciar agora seria o mesmo que confirmar o conteúdo da transmissão...”
O Senhor Antunes já havia sido levado pela polícia, e Dona Helena estava encolhida num canto, fazendo ligações desesperadas para assessores de crise.
Os olhares dos convidados eram como agulhas, fazendo Ricardo sentir um formigamento por todo o corpo.
O jantar de noivado havia se tornado uma farsa completa.
Ele respirou fundo e virou-se para sair.
Ao dar o primeiro passo, seu pulso foi agarrado com força.
“Ricardo...” A voz de Beatriz tremia de forma irreconhecível. “Aonde você vai? O que será do nosso noivado?”
“Noivado?”
Ricardo virou-se, esboçando um sorriso gélido. “Você ainda tem coragem de mencionar o noivado? Beatriz, você deveria dar graças a Deus por eu não ter tempo agora de acertar as contas com você!”