Capítulo 1
Clara nunca imaginou que o relacionamento à distância que estava prestes a terminar teria um desfecho tão deplorável.
Afinal, o amor que Ricardo sentia por ela era inigualável.
Ele era o ocupado diretor de um hospital, mas os voos que pegou para o exterior somavam novecentas viagens, totalizando quase dez mil horas entre idas e vindas.
Mesmo que cada encontro fosse apenas uma breve visita, ele a envolvia em seus braços sob a primeira neve e dizia, com sua voz profunda, que faria tudo de novo com prazer.
Os presentes que ele lhe enviava eram inúmeros.
Desde pequenas cartas de amor manuscritas com mil palavras até colares bilionários arrematados em leilões exclusivos.
Qualquer coisa que ele acreditasse que pudesse arrancar um sorriso dela, ele se esforçaria ao máximo para conseguir, mesmo que fossem as estrelas do céu.
Um amor gravado na medula, constante por três anos, sem nunca mudar.
Por isso, quando Clara suportou um voo noturno para voltar ao país e ouviu seus amigos de infância expressarem inveja pelo amor inalterado de Ricardo, enquanto ele, com a voz rouca, negava tudo aquilo.
Ela teve que admitir que seu coração parecia estar sendo retalhado em mil pedaços; a dor era equivalente a uma tortura lenta.
A voz do homem não era alta, mas fez o camarote mergulhar em um silêncio mortal.
Depois de muito tempo, alguém quebrou o gelo: "Ricardo, você está brincando, certo?"
"Você e Clara são o casal de ouro dos tempos de faculdade. Quando você se despediu dela, chorou como uma criança pelas costas dela. Nestes três anos, voou para vê-la independentemente do clima..."
O amigo soltou uma risada sem graça e perguntou em tom exagerado: "Como seria possível não amar mais?"
"Eu não sei", respondeu Ricardo com a voz plana.
Ele, que sempre fora imperturbável, agora demonstrava certa confusão: "Apenas sinto que esses três anos foram exaustivos."
"Cada vez que eu tirava um tempo para vê-la, embora ficasse feliz, sentia muito mais a solidão e o cansaço das mais de dez horas de trajeto."
"Para dar presentes, eu tinha que inventar mil maneiras diferentes. Ficava pensando se ela gostaria, se ficaria feliz ao receber."
Ricardo, cujos dedos eram definidos pelo uso constante do bisturi, segurava um copo de vidro, observando o brilho refletido no líquido, e murmurou: "Eu ainda a amo, mas parece que esse amor está prestes a se esgotar."
Os amigos se entreolharam e mudaram de assunto de forma abrupta.
Enquanto isso, a mente de Clara estava em branco, com um zumbido ensurdecedor nos ouvidos.
Era para ser uma noite de surpresas, mas Clara não conseguia se lembrar de como conseguiu sair de fininho, escondida.
Ela chegou a pensar que, se não tivesse voltado antes do esperado, como seria bom.
Será que assim ela poderia encobrir a verdade, fingindo que o relacionamento deles ainda era perfeito como antes?
Mas não existem "e se" neste mundo.
Em meio ao torpor, o celular no silencioso começou a vibrar de repente.
Clara levantou a cabeça e viu que Ricardo, em algum momento, havia ido para um espaço aberto, olhando ao redor com o cenho franzido.
Seu coração apertou. Ela se moveu rapidamente para a sombra escura de uma árvore e hesitou diante da tela por um bom tempo antes de atender, com a garganta apertada.
A respiração de Ricardo estava um pouco apressada: "Meu amor, só vi sua mensagem agora. Você voltou mais cedo? Onde está? Veio me procurar no bar?"
A voz familiar do homem, misturada ao ruído da ligação, atingiu os tímpanos de Clara, fazendo seu nariz arder instantaneamente.
Ela queria perguntar tantas coisas, mas no fim, o que saiu foi apenas um soluço contido: "Mudei de ideia na última hora, fui direto para casa... Quando você volta?"
Ao ouvir isso, a ansiedade entre as sobrancelhas de Ricardo se dissipou, e ele disse suavemente: "Vou agora mesmo..."
Antes que terminasse a frase, uma garota com um cachecol vermelho correu e se jogou nos braços de Ricardo.
Clara viu com os próprios olhos Ricardo cobrir imediatamente o microfone do celular e, em seguida, um sorriso surgir em seus olhos enquanto ele acariciava carinhosamente o cabelo da garota.
Então, ele mudou drasticamente a resposta: "Estou ocupado com assuntos do trabalho agora, espere por mim."
O rubor nas bochechas claras da garota feriu os olhos de Clara.
De repente, o mundo girou, e ela sentiu como se tivesse caído em um abismo de gelo.
A garota se chamava Pérola, uma estagiária sob o comando de Ricardo.
No início, quando Ricardo mencionava Pérola para Clara, era com desdém, dizendo que a garota era boba e medrosa, e que frequentemente errava a medicação dos pacientes.
Mais tarde, Ricardo viajou para o exterior para passar o aniversário de Clara, mas naquela noite ele passou o tempo todo discutindo casos clínicos com Pérola.
Até o fim da ligação, Ricardo elogiou, sorrindo, como a garota era dedicada e esforçada, e como sua personalidade era adorável e interessante.
Clara, observando a vela que se apagava, perguntou suavemente se ele poderia parar de falar dela.
Ricardo fechou o sorriso na hora, silenciou por um instante e disse secamente que tudo bem.
Depois disso, quando Clara perguntava ocasionalmente, Ricardo dizia que não tinha mais contato com Pérola.
Mas era óbvio que ele havia mentido.
Nevava levemente lá fora. Quando Clara chegou em casa, suas roupas estavam úmidas e coladas ao corpo.
Ela digitou a senha que conhecia de cor, a data em que ela e Ricardo começaram a namorar.
Ricardo não a tinha alterado; a porta se abriu.
O aquecimento central deixava o ambiente quente, e Clara olhou para a vitrine de vidro no centro da sala.
Ela encarou o objeto por muito tempo, o coração encolhido em um nó, e de repente as lágrimas começaram a cair como chuva.
Dentro da vitrine, uma luz amarela suave iluminava uma pilha espessa de passagens aéreas.
Cada uma estava numerada; havia novecentas e oitenta e oito passagens ao todo.
Ricardo já havia tirado fotos orgulhosamente para registrar, dizendo que aquilo era a prova do seu amor por ela.
Disse também que, quando completasse mil passagens, ela certamente já teria voltado ao país. Ele a pediria em casamento imediatamente, para que pudessem ficar juntos a vida inteira e nunca mais se separarem.
As batidas do coração ficavam cada vez mais pesadas. Clara lembrou-se dolorosamente de cada dia e noite que passou em terras estrangeiras.
Para terminar os estudos antecipadamente, ela passava cada minuto mergulhada na biblioteca.
Não tinha tempo para fazer amigos, e seus colegas de classe chegavam a zombar de como ela era sem graça. Ela nunca se importou, pensando apenas em voltar o mais rápido possível para o lado de Ricardo.
Durante a elaboração de sua tese de graduação, ela chegou a ter febre por causa do cansaço, mas escondeu isso dele. Apenas tomava antitérmicos como se fosse comida e sorria como se nada estivesse acontecendo, dizendo a Ricardo que também sentia saudades, muita saudade.
Mas quando finalmente conseguiu o que desejava e retornou à sua terra natal, a realidade lhe disse que já era tarde demais.
O amor de Ricardo, afinal, havia apodrecido.
...
Quando Ricardo chegou em casa, encontrou Clara ajoelhada no chão, tremendo de tanto chorar.
Ele imediatamente franziu a testa, aproximou-se para abraçá-la e perguntou ansioso o que havia acontecido.
Mas foi afastado por Clara.
Clara fechou os olhos, as unhas cravando na palma das mãos, esforçando-se para manter a lucidez, e disse: "Acho que ouvi a voz da Pérola no telefone agora pouco."
Aquelas poucas palavras pareciam ter consumido todas as forças de Clara, que respirou fundo várias vezes antes de conseguir continuar: "Por que você e ela ainda estavam se encontrando tão tarde?"
Dito isso, ela olhou nos olhos escuros de Ricardo.
Lá, encontrou uma frieza e um gelo que nunca vira antes, além de um cansaço profundo.
"Você tem que falar sobre isso logo agora?"
Ricardo se endireitou, mantendo uma distância nem tão perto nem tão longe de Clara, e sua voz soou fria: "Foi um encontro casual. Eu e ela somos apenas colegas comuns, não é essa relação suja que você está imaginando."
Se eram apenas colegas, por que o abraço era tão íntimo?!
Mas antes que Clara pudesse falar, Ricardo se virou, revelando uma caixa de joias e um bolo requintado em uma embalagem de veludo.
Ele enfrentou a neve e o gelo para buscá-los especialmente para ela.
Clara emudeceu instantaneamente, o coração parecia ser golpeado repetidamente, uma mistura de amargura e alegria explodindo ao mesmo tempo.
Até que a voz do homem soou novamente, fria e dura.
"Pérola é uma boa menina, você não deveria ter pensamentos tão maldosos sobre ela."
"Ela é muito independente, passa o dia inteiro no laboratório. Diferente de você, que quando se cansa dos estudos, tem que vir reclamar comigo."
"Ela é muito sensata, nunca mistura emoções pessoais. Diferente de você, que já abre a boca com questionamentos cheios de desconfiança."
"Eu e ela temos muita sintonia. Na mesa de cirurgia, ela consegue me entender e me acompanhar perfeitamente."