Tapa!
O som do tapa estalou no ar. As lágrimas de Jade ameaçavam cair.
Henrique sabia perfeitamente que, na época, o casal que a criou trocou os bebês propositalmente para mudar o destino da própria filha.
Seus pais biológicos mimaram Yasmin porque acreditavam que ela era o sangue deles.
Enquanto isso, os pais adotivos descontavam nela toda a fúria da saudade que sentiam da filha verdadeira.
Naqueles anos na casa daquela família, ela viveu no inferno.
Ele sabia de tudo, e mesmo assim foi capaz de dizer aquilo.
Ao encarar os olhos vermelhos de Jade, ele pareceu perceber que tinha pego pesado. Sua garganta se moveu, tentando dizer algo.
Ah!
Um grito agudo o interrompeu.
Yasmin estava com os olhos arregalados e correu para a cozinha como se estivesse louca.
Ela avançou sobre Jade, agarrando seu cabelo com força, com a voz estridente:
"Sua vagabunda! Com que direito você bate no Henrique? Eu vou acabar com você!"
Jade sentiu como se seu couro cabeludo estivesse sendo arrancado e foi puxada violentamente.
Antes que pudesse se equilibrar, Yasmin a empurrou contra a parede. A nuca de Jade bateu com força no azulejo frio, produzindo um som abafado.
Sua visão começou a escurecer em flashes.
No meio da confusão, Yasmin deu um empurrão final. Jade cambaleou para trás e derrubou a panela com a sopa de costela.
O caldo fervente derramou-se completamente sobre o seu corpo.
"Dói muito!"
Uma sensação de queimadura intensa se espalhou pela pele.
Jade tremia de dor, e o suor frio encharcou suas costas instantaneamente.
Henrique viu Jade caída no chão e seu primeiro instinto foi correr para socorrê-la.
Mas antes de dar o primeiro passo, Yasmin agarrou o próprio tornozelo com o rosto pálido:
"Henrique, eu torci o pé... dói tanto..."
Ele olhou para Yasmin choramingando e houve um momento de hesitação em seus olhos.
Segundos depois, ele a pegou no colo:
"Jade, aguenta um pouco, eu venho te ver daqui a pouco."
Dito isso, ele saiu apressado.
Jade observou o vulto dele desaparecendo e seu coração afundou por completo.
Suportando a dor, ela despejou álcool sobre a ferida, soltando um gemido de agonia. Finalmente, as lágrimas caíram sem controle.
Após um curativo improvisado, uma mensagem apareceu na tela do celular:
"Preciso que assine alguns documentos."
Ao mesmo tempo, a campainha tocou.
Ela foi mancando abrir a porta, mas Henrique se antecipou.
Ele olhou para o envelope grosso nas mãos dela e perguntou:
"O que é isso?"
Capítulo 4
O coração de Jade subiu à garganta.
Por instinto, ela arrancou o envelope das mãos dele e o protegeu contra o peito, fingindo calma:
"São esboços dos meus desenhos. Preciso manter segredo antes da exposição, você não pode ver."
Ela amava desenhar desde criança.
O som do grafite deslizando no papel era sua única companhia de paz naquela vida conturbada.
Antigamente, Henrique guardava cada rascunho dela com cuidado e sempre pedia para que ela desenhasse fotos dos dois juntos.
"Quando ficarmos velhos, mostraremos para os nossos netos."
Logo que ela se formou, Henrique investiu em um estúdio exclusivo para ela, com o cavalete posicionado diante da sua janela panorâmica favorita.
Quando a luz do sol entrava, ele a abraçava por trás:
"Minha Jade, você só precisa fazer o que ama, para sempre."
Mas em algum momento, tudo mudou.
Ele ajudava a organizar as exposições, mas nunca se importava com o conteúdo da arte; estava ocupado demais bajulando pessoas influentes.
Chegou ao ponto de dar algumas de suas obras como presente para terceiros sem sequer consultá-la.
Parecia que, na mente dele, nada que vinha dela tinha importância.
Henrique não perguntou mais nada, mas seu olhar desceu lentamente para as pernas dela.
Ainda havia marcas vermelhas da queimadura da sopa. Mesmo com o remédio, a aparência era assustadora.
"Ainda dói?"
A voz dele suavizou um pouco e ele estendeu a mão para tocar a perna dela e examinar o ferimento.
Jade recuou bruscamente, como se tivesse levado um choque, evitando o toque.
A mão de Henrique ficou suspensa no ar e sua expressão esfriou imediatamente:
"Jade, até quando você vai continuar com esse drama?"
"A Yasmin só reagiu porque te viu me batendo. Ela entrou em crise por causa do transtorno. Não foi por querer, precisa mesmo guardar tanto rancor?"
"Se você tivesse aceitado cuidar dela desde o início e parasse de enfrentá-la, nada disso teria acontecido."
Jade sentiu como se seu sangue tivesse congelado.
Ela olhou para aquele homem, ao mesmo tempo tão familiar e tão estranho, e lembrou-se de quando ele dizia que "a protegeria para sempre".
No fim, apenas ela, a ouvinte, tinha levado aquelas promessas a sério.
O envelope que ela protegia no peito parecia pesar toneladas agora, esmagando seu coração.
Sem dizer mais uma palavra, ela se virou e foi para o quarto.
Ao fechar a porta, encostou-se nela e fechou os olhos.
Quando os abriu novamente, só restava determinação.
Sem hesitar, assinou o nome "Jade" em cada um dos contratos de transferência de ativos.
A tinta atravessou o papel, deixando marcas no verso, assim como as cicatrizes incuráveis em sua alma.
Só precisava aguentar mais alguns dias, e então poderia levar a avó e ir embora para sempre.
Após se acalmar, colocou um pendrive junto com os documentos e os enviou de volta por correio.
Ao fechar a porta após a entrega, ouviu uma voz familiar:
"Menina!"
Os pelos do seu corpo se arrepiaram instantaneamente.
Ela se virou lentamente e viu uma mulher gorda parada à porta.
Tinha o cabelo permanentado, usava uma camisa floral desbotada e exibia um sorriso hipócrita.
Era sua mãe adotiva, a mãe biológica de Yasmin.
Jade abraçou os próprios braços por instinto, com a voz tremendo levemente:
"O que você está fazendo aqui?"
"Jade, como pode falar assim com os mais velhos?"
A voz de Henrique ecoou.
Ele pegou gentilmente a bolsa das mãos da mulher, em tom de reprovação:
"Quando uma visita dessas chega, não se deixa a pessoa parada na porta. Que falta de educação."
"Henrique!"
Lágrimas nublaram a visão de Jade. "O que você pretende trazendo ela aqui? Você sabe muito bem o que ela fazia no passado..."
Antes que terminasse, Yasmin saiu correndo do quarto.
Ela se jogou nos braços da mulher, com os olhos vermelhos: "Mãe, obrigada por vir cuidar de mim."
"Minha querida, você é minha filha, cuidar de você é minha obrigação."
A mulher afagou as costas de Yasmin, mas lançou um olhar "carinhoso" para Jade: "Menina, eu também te criei por tantos anos, a mamãe sempre vai te amar."
Ao ouvir aquilo, Jade sentiu o estômago revirar.
Aos três anos de idade, essa mulher a obrigava a subir em um banco para aprender a cozinhar.
Quando o óleo quente espirrava em suas mãos e ela chorava de dor, recebia um tapa no rosto em troca:
"Inútil! Não serve nem para fazer comida!"
No inverno, era obrigada a lavar as roupas de toda a família com água gelada. Se demorasse um pouco, a mulher batia em suas costas com a tábua de lavar.
Mais tarde, quando ela se tornou uma bela jovem, o pai adotivo passou a olhá-la com segundas intenções.
Quando a mulher descobriu, arrastou Jade para um canto e cravou as unhas em sua carne:
"Sua sedutora barata! Já nasceu sabendo como provocar os homens!"
...
E aquele chamado de "menina".
Não era um apelido carinhoso; era apenas o termo que a mulher usava para tratá-la como uma empregada.
Jade olhava para aquela cena de "amor materno" sentindo um sarcasmo profundo.
Prestes a explodir, seu celular tocou.
Capítulo 5
"Senhorita Jade, sua avó acordou! Venha depressa ao hospital!"
A voz da cuidadora veio pelo telefone como um trovão, dissipando o nevoeiro mental de Jade.
Ignorando a encenação daquela mãe e filha, ela correu imediatamente para o hospital.
Ao abrir a porta do quarto, Jade paralisou por um instante.
A cuidadora segurava um cotonete, umedecendo com cuidado os lábios ressecados da idosa.
A vovó estava com os olhos entreabertos, seu olhar turvo percorria o quarto como se procurasse por alguém.
Quando sua visão encontrou Jade na porta, seus olhos brilharam subitamente. Ela levantou a mão esguia e seca com dificuldade, emitindo sons fracos pela garganta, mas as palavras não saíam.
Jade sentiu os olhos arderem e correu até ela, segurando sua mão com força:
"Vovó, você finalmente acordou! Eu tive tanto medo..."
Só Deus sabia o pavor que ela sentiu ao receber o chamado sobre o acidente. A vovó já tinha uma idade avançada e seu corpo não suportaria tamanha violência.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Jade e pingaram nas mãos da idosa, deixando marcas úmidas.
A vovó retribuiu o aperto de mão suavemente, enquanto lágrimas escorriam pelas rugas de seus olhos até o travesseiro.
No segundo seguinte, porém, o olhar da vovó mudou drasticamente.
Seus olhos se arregalaram em puro terror, fixos em algo atrás de Jade, e suas mãos começaram a tremer violentamente.
"Vovó, o que houve? Está sentindo alguma dor?"
O coração de Jade apertou. Ela ia se levantar para apertar o botão de emergência, mas foi empurrada bruscamente para o lado.