Alguns anos depois, ela conheceu um homem gentil e atencioso, chamado Leonardo. Ele não era obsessivo ou cego como Henrique; ele sabia valorizar e respeitar. Fazia-a rir quando estava triste, cuidava dela quando adoecia e lembrava-se de cada pequena preferência dela, dando-lhe total segurança.
Clarice hesitou por muito tempo, mas acabou aceitando o sentimento dele. Sabia que não podia fechar seu coração por causa das feridas do passado. Ela merecia ser amada e deveria ter coragem de amar.
Em um dia ensolarado, os dois realizaram um casamento simples e acolhedor. No altar, vestida de branco, Clarice olhou para o marido e sorriu de verdade. Finalmente entendera que a verdadeira felicidade não é o sacrifício unilateral, mas sim o cuidado e a valorização mútua.
A vida de casada era doce, e o nascimento de uma filha trouxe ainda mais alegria ao lar. Os pais de Clarice estavam saudáveis, brincando todos os dias com a neta, e a carreira dela prosperava. Ela se tornara a mulher que sempre quis ser.
Ocasionalmente, em noites silenciosas, ela se lembrava daquele mundo e de Henrique. Mas não sentia mais ódio ou rancor; parecia apenas um sonho muito distante.
O tempo passou com serenidade, e as memórias tornaram-se como fumaça. Aquela era a vida que ela sempre desejara e a felicidade que ela merecia.
Capítulo 16
Epílogo de Henrique
A sensação de asfixia desapareceu subitamente. Henrique abriu os olhos bruscamente e deparou-se com o teto magnífico de um salão de festas; aos seus ouvidos, chegavam os sons de uma valsa melodiosa e as risadas dos convidados.
Ele olhou para baixo, confuso, e viu-se vestindo um terno preto um tanto juvenil; em seu pulso, estava o relógio antigo deixado por sua mãe antes de falecer.
Aquela era a sua aparência aos dezoito anos, e o cenário à sua frente era, claramente, a festa de debutante de Clarice.
"Henrique, por que está paralisado?"
Seu amigo de infância deu um tapinha em seu ombro, em tom de brincadeira. "A senhorita Silveira está prestes a chegar. O presidente Silveira organizou este banquete especialmente para ela. Muita gente daria tudo para falar com ela e não consegue; você precisa aproveitar a chance!"
Senhorita Silveira? Festa de quinze anos?
Henrique estremeceu como se tivesse sido atingido por um raio. Ele renascera! Voltara para o dia em que ele e Clarice se conheceram pela primeira vez!
Na vida passada, Clarice o escolhera à primeira vista nesta festa, declarando arrogantemente diante de todos: "Este homem é meu, quem se atrever a tocá-lo, eu acabo com a pessoa!"
Depois, ela usou toda a fortuna da família para ajudá-lo a chegar ao topo, protegendo-o de forma possessiva. Todos riam dele por ser dominado pela esposa, mas ele se sentia grato.
No entanto, ele acabou cegado pelo disfarce de Beatriz, entregando o coração que salvaria a vida de Clarice para outra pessoa, vendo-a ser mal compreendida e mantida em cárcere até que o corpo gélido dela estivesse no porão.
Só então ele despertou. No fim, para proteger a versão renascida dela, foi esfaqueado no coração por Lucas e fechou os olhos em arrependimento.
Desta vez, ele jamais cometeria os mesmos erros!
Henrique procurou freneticamente na multidão e logo localizou aquela figura familiar.
Clarice usava um vestido rosa de princesa, com um rabo de cavalo alto e uma doçura ingênua no rosto, cercada por outras herdeiras enquanto conversava e ria. Seu olhar era límpido e brilhante.
Na vida anterior, foi ela quem o escolheu ativamente. Nesta vida, seria ele a tomar a iniciativa, a protegê-la e a compensar toda a dívida.
Henrique respirou fundo, ajustou a gola do terno e caminhou rapidamente em direção a ela. Seu coração batia forte, misturando nervosismo e a euforia de recuperar o que fora perdido.
"Senhorita, olá."
Ele parou diante dela, curvando-se levemente, com uma ternura e nervosismo que ele próprio não percebia. "Meu nome é Henrique. É um prazer participar da sua festa de aniversário. Você está linda hoje."
Clarice, interrompida subitamente, hesitou e o avaliou de cima a baixo. O rapaz à sua frente era de fato atraente e tinha um olhar sincero, mas ela não o conhecia. Criada como o centro das atenções, com pretendentes que faziam fila até a rua, ela já estava acostumada com abordagens de estranhos.
"Obrigada."
Ela sorriu educadamente, com um tom de distanciamento, e virou-se para continuar conversando com as amigas, claramente sem interesse nele.
A mão de Henrique, estendida no ar, paralisou. Seu coração afundou. Ele não entendia por que, nesta vida, ela não se apaixonara por ele à primeira vista. Mas não importava; ele tinha todo o tempo e paciência do mundo.
A partir daquele dia, Henrique iniciou uma busca desajeitada, porém determinada. Ele aparecia pontualmente na porta da escola de elite da família Silveira com o bolo de morango favorito dela.
Quando ela tinha aulas de equitação, ele ficava de vigia do lado de fora, afastando pretendentes mal-intencionados.
Quando ela ia mal em uma prova e ficava triste, ele economizava um mês de mesada para comprar a boneca de edição limitada que ela tanto queria.
Quando ela era criticada pelo pai e chorava, ele entregava um lenço desajeitadamente e dizia, corando: "Você não está errada, seu pai é que é muito rigoroso".
Aos poucos, Clarice foi tocada pela sinceridade e persistência dele.
Aquele rapaz não parecia interessado apenas no status da família dela; ele lembrava de suas preferências, aparecia quando ela precisava e o valor que ele dava a ela no olhar não podia ser fingido.
Seis meses depois, em um final de tarde sob uma garoa fina, Henrique criou coragem para se declarar. Clarice, com o rosto corado, assentiu, e os dois tornaram-se oficialmente um casal.
Como namorado, Henrique mimava Clarice como se fosse uma princesa.
Ele lembrava de todas as suas restrições alimentares, preparava costelinhas agridoces com as próprias mãos, esforçava-se para aprender sobre negócios para poder protegê-la no futuro e recusava qualquer aproximação de outras mulheres.
As pessoas ao redor riam dele por continuar sendo "dominado", mas Henrique estava radiante. Ele sabia que devia demais a ela na vida passada e, nesta, compensaria com todo o amor do mundo.
Após a formatura, o pai de Clarice sugeriu que Henrique entrasse no Grupo Silveira e até lhe entregasse projetos essenciais.
Mas Henrique recusou.
Na vida anterior, ele dependeu dos recursos dela para subir na vida, mas acabou perdendo sua essência e achando que tudo era um direito garantido.
Nesta vida, ele queria dar felicidade a ela por meio de suas próprias habilidades, sem viver sob a sombra da família dela.
"Pai, agradeço a sua gentileza," disse Henrique seriamente. "Quero empreender por conta própria. Quando eu tiver sucesso, casarei com ela com toda a pompa que ela merece."
O Sr. Silveira viu a determinação em seus olhos e o apoio no rosto da filha, e finalmente concordou.
O caminho do empreendedorismo foi extremamente árduo. Sem o apoio dos Silveira, Henrique enfrentou obstáculos em todos os lugares.
Falta de capital, clientes difíceis, pressão de concorrentes e traição de parceiros. Em inúmeras madrugadas, ele se preocupava com planos de negócios em seu quarto alugado, caindo de sono de tanto cansaço.
Clarice sofria por ele e tentou ajudá-lo com recursos da família várias vezes, mas Henrique recusou.
"Clarice, confie em mim. Eu vou conseguir dar uma vida boa para você com o meu próprio esforço."
Ele a abraçava, com a voz cansada, mas firme.
Clarice, embora preocupada, escolheu acreditar nele e apoiá-lo silenciosamente.
Ela cozinhava para ele, encorajava-o em momentos de derrota e usava secretamente suas economias para ajudá-lo no fluxo de caixa.
Com o esforço mútuo, a pequena empresa de Henrique começou a dar resultados.
Embora não fosse grande, crescia de forma estável. Henrique olhava para a Clarice gentil e atenciosa ao seu lado, sentindo-se profundamente grato.
Ele sentia que, nesta vida, finalmente escapara do destino e poderia viver para sempre com sua amada.
Porém, ele não percebeu que as engrenagens do destino já estavam girando nas sombras.
Justo quando a empresa começava a prosperar, ele encontrou Beatriz. Naquele dia, ele foi ao hospital visitar um funcionário doente e, no corredor, Beatriz, pálida e segurando o peito, colidiu contra ele.
"Desculpe, desculpe, não foi por querer."
Ela se desculpava em pânico, com um olhar frágil e desamparado, como um pequeno cervo assustado.
O coração de Henrique parou por um instante.
Aquela cena era idêntica à da vida passada! Seu instinto foi empurrá-la, mas ao ver o rosto pálido e o olhar indefeso, um sentimento de compaixão surgiu inexplicavelmente.
Ele a ajudou a se sentar e deu-lhe um copo de água: "Você está bem? Quer que eu te leve à emergência?"
"Não precisa, obrigada," Beatriz olhou para ele com gratidão, com lágrimas nos olhos. "É só uma queda de pressão, vou descansar e ficarei bem. Meu nome é Beatriz, espero poder te retribuir um dia."
A partir daquele dia, Beatriz começou a aparecer frequentemente na vida de Henrique, como se fossem "coincidências". Ela o encontrava "por acaso" na porta da empresa, ia "por acaso" ao mesmo restaurante, ou tinha dificuldades "por acaso" que precisavam da ajuda dele. Ela contava sobre sua origem solitária, a morte prematura dos pais e como era maltratada por parentes. Seus olhos eram tão inocentes, tão dignos de pena.