O sangue seco em sua pele era repuxado a cada movimento, causando uma dor que quase a fazia perder os sentidos.
Quando ela sentia que não aguentaria mais, ouviu a voz de Henrique do lado de fora da porta.
"Clarice, a cirurgia da Beatriz foi um sucesso. Ela já está fora de perigo."
Quase simultaneamente, a voz mecânica e fria do sistema ecoou novamente:
[Hospedeira Clarice, contagem regressiva de vida encerrada. Iniciando extração deste mundo.]
O corpo de Clarice teve um espasmo. Finalmente, ia acabar.
Do lado de fora, Henrique não entrou. Apenas continuou falando através da porta: "Clarice, pare de pirraça. Se você for obediente e me pedir desculpas, eu te solto e deixo você ver seus pais."
No porão, houve apenas um silêncio absoluto. Não houve resposta.
Capítulo 7
Henrique chamou por ela duas vezes através da porta do porão, mas o silêncio lá dentro era absoluto; não se ouvia sequer o som de uma respiração.
Um pânico inexplicável subiu por sua espinha. Ele estendeu a mão para abrir a porta, mas foi interrompido por um segurança que chegava apressado.
"Patrão, uma ligação urgente do hospital. A senhorita Beatriz teve uma reação anormal após a cirurgia, a frequência cardíaca está oscilando muito. O médico solicitou que o senhor vá para lá imediatamente."
A voz do segurança era urgente.
Henrique hesitou, com as sobrancelhas franzidas.
De um lado, a Clarice que não respondia; do outro, a Beatriz em estado crítico após a cirurgia. Na balança de suas prioridades, ele acabou pendendo para a segunda.
Com os dedos apertados e empalidecidos, ele deu ordens severas em direção à porta do porão: "Vigiem-na de perto. Prestem atenção ao estado físico dela, tragam água e comida regularmente. Qualquer alteração, entrem em contato comigo na hora."
"Sim, patrão."
O segurança curvou-se em concordância.
Henrique lançou um último olhar para a porta, mas deu meia-volta e partiu em alta velocidade rumo ao hospital.
No hospital, Henrique ficou de guarda do lado de fora da UTI de Beatriz, sem se afastar um passo sequer.
O médico repetia que a reação de rejeição pós-operatória era mais grave do que o previsto e que ela precisava de observação intensiva por setenta e duas horas.
Durante esses três dias, ele mal pregou o olho.
Ocasionalmente, pensava em Clarice no porão, mas sempre se confortava com a ideia de que "ela estava apenas fazendo birra". Afinal, por mais que ela brigasse no passado, nunca o havia deixado de verdade. Assim que Beatriz estivesse estável, ele explicaria tudo a ela.
Na manhã do terceiro dia, as luzes da UTI finalmente se apagaram. O médico saiu, retirou a máscara e disse: "Senhor Henrique, a senhorita Beatriz está fora de perigo. A cirurgia foi um sucesso."
Henrique suspirou de alívio instantaneamente, com uma alegria indisfarçável no olhar.
Nesse momento, seu assistente chegou correndo, com uma expressão de entusiasmo: "Patrão, boas notícias! O hospital no exterior enviou uma mensagem. Encontraram um coração compatível para a patroa. Todos os indicadores são perfeitos, e a cirurgia pode ser agendada para a próxima semana!"
"Sério?"
Henrique levantou-se num salto. A surpresa quase o deixou tonto; seu primeiro instinto foi querer contar a novidade para Clarice imediatamente.
Beatriz foi retirada da UTI e chamou por ele com voz fraca: "Henrique..."
Ela estendeu a mão, tentando segurá-lo, com um olhar de total dependência: "Henrique, não vá. Fique mais um pouco comigo."
"Beatriz, encontraram um coração para a Clarice. Preciso voltar e contar essa notícia para ela, ela esperou muito por esse dia."
Henrique falou com pressa e retirou sua mão. "Assim que você estiver mais estável, eu volto para te ver."
Sem esperar que Beatriz dissesse mais nada, ele saiu apressado do quarto e dirigiu em alta velocidade de volta para a mansão.
Durante todo o trajeto, ele imaginava a expressão de alegria de Clarice ao receber a notícia. Começou até a planejar uma viagem ao redor do mundo assim que ela se recuperasse, para compensar tudo o que ela sofreu nesses dias.
Ele diria a ela que, de agora em diante, nunca mais permitiria que ela se sentisse injustiçada.
A mansão estava estranhamente silenciosa. Ao vê-lo chegar, uma empregada aproximou-se: "Patrão, o senhor voltou."
"Onde está a patroa?" Henrique foi direto para a direção do porão.
"Ainda no porão, não houve movimento." A empregada hesitou. "Levamos comida duas vezes, mas ela não abriu a porta e não respondeu aos nossos chamados."
Ao ouvir isso, a inquietação de Henrique voltou a crescer. Ele caminhou rapidamente até a porta do porão e bateu com força: "Clarice! Tenho boas notícias para você! Encontramos um coração compatível, você está salva!"
Apenas o silêncio sepulcral respondeu.
"Clarice? Clarice?" O coração dele começou a disparar. Ele gritou para o segurança: "Abra a porta! Rápido!"
O segurança pegou a chave às pressas e girou a fechadura.
Com um clique, a porta se abriu.
A luz amarelada derramou-se para dentro e Henrique entrou correndo, deparando-se imediatamente com o corpo no chão.
Clarice estava coberta de feridas. Suas roupas finas estavam endurecidas pelo sangue seco; seus pulsos e tornozelos tinham marcas profundas causadas pelas cordas. Sua cabeça estava caída para o lado e seu rosto estava pálido como papel, sem qualquer sinal de vida.
"Clarice!"
Henrique correu desesperado, tentando sentir o pulso e a respiração com as mãos trêmulas. O toque revelou apenas uma pele fria como gelo.
Sua mente explodiu em um branco total.
"Clarice? Clarice Silveira!"
Ele a tomou nos braços. O corpo dela estava rígido e gélido; a cabeça pendia sem forças em seu braço. As manchas de sangue seco no canto da boca dela causaram uma dor lancinante em seu peito.
"Clarice! Acorde! Eu encontrei o coração! Não morra!"
Ele a abraçava, com a voz falhando em meio a soluços e lágrimas. "Eu errei! Eu não deveria ter te trancado aqui. Por favor, acorde! Vamos fazer a cirurgia!"
Ele balançava o corpo dela freneticamente, em um súplica desesperada.
"Olhe para mim! Sou eu, o Henrique! Você não odiava que eu não te desse atenção? Eu estou aqui agora, trouxe boas notícias, por favor, acorde!"
A mulher em seus braços não respondia. Apenas o toque frio confirmava que ela estava morta.
Ele a trancou ali com as próprias mãos para que ela refletisse, mas ela acabou assim.
"Quem foi? Quem bateu nela?"
Henrique ergueu a cabeça bruscamente, com os olhos injetados de sangue em direção ao segurança na porta. "Eu não disse para não tocarem nela? O que são essas feridas no corpo dela?"
O segurança, pálido de pavor, ajoelhou-se imediatamente: "Patrão, não fui eu! Eu não ousei tocar na patroa. Eu... eu não sei o que aconteceu. Quando trazia comida ela não respondia, eu achei que ela ainda estava brava..."
"Não sabe?"
Henrique rugiu. "Ela está nesse estado e você me diz que não sabe?"
Pouco depois, passos apressados soaram na entrada da mansão. O Sr. e a Sra. Silveira chegaram acompanhados pela polícia.
Ao ver a cena no porão, a Sra. Silveira entrou em colapso, gritando: "Minha filha! Minha querida filha!"
O Sr. Silveira, com o rosto lívido, apontou para Henrique enquanto tremia de fúria: "Henrique! Seu monstro! O que minha filha te fez para você tratá-la assim?"
A polícia aproximou-se e afastou o desorientado Henrique do corpo de Clarice, colocando as algemas frias em seus pulsos: "Senhor Henrique, recebemos uma denúncia de cárcere privado seguido de morte. Por favor, acompanhe-nos até a delegacia."
Henrique lutava, com o olhar fixo no corpo de Clarice: "Não! Eu não queria matá-la! Eu encontrei o coração, ela estava salva! Me soltem! Eu quero ficar com ela!"
Ele gritava como um louco, mas foi levado à força pelos policiais.
O Sr. e a Sra. Silveira olhavam para o corpo ferido da filha em um sofrimento absoluto.
Eles receberam uma ligação de uma empregada no hospital e correram sem parar, apenas para encontrar a filha já sem vida.
Mesmo em meio à dor, eles decidiram pessoalmente cuidar dos preparativos do funeral.
Eles contataram o hospital para cumprir o desejo de Clarice de doar seus órgãos, mas receberam uma resposta desoladora do médico: "Sinto muito, senhor e senhora. O corpo da senhorita Clarice já está sem vida há mais de setenta e duas horas. Os órgãos perderam a viabilidade para transplante. Não é mais possível realizar a doação."
"O quê?"
A Sra. Silveira, ao pensar que a filha sofreu tanto antes de morrer e que nem seu último desejo pôde ser realizado, sentiu a vista escurecer e quase desmaiou. "Minha pequena... no fim, ela não conseguiu realizar nem seu único desejo..."
O Sr. Silveira segurou a esposa com firmeza, com os olhos cheios de mágoa e ódio.
Eles não imaginavam que até o último valor que a filha tentou deixar para o mundo acabaria sendo destruído por Henrique.
Capítulo 8
Três dias depois, o funeral de Clarice foi realizado no cemitério municipal.
Uma chuva fina caía, lavando a foto na lápide. Na imagem, Clarice sorria radiante, um contraste doloroso com a solenidade do momento.
Henrique, libertado sob fiança com a ajuda de advogados, chegou ao cemitério cambaleando, com o cabelo bagunçado e o olhar vazio, vestindo roupas pretas.