Henrique sentiu um aperto no peito diante da frieza dela e explicou em voz baixa: "Eu não tive a intenção. É que a Beatriz teve febre baixa depois de ser agredida e os médicos disseram que isso poderia afetar a cirurgia. Eu me desesperei e acabei..."
"Além disso, você passou dos limites desta vez. Não importa o que aconteça, uma vida está em jogo. Você não pode ser tão egoísta."
Ao dizer isso, seu tom voltou a carregar um ar de censura; no fundo, ele ainda acreditava que a raiz do erro era dela.
Clarice finalmente reagiu. Ela virou a cabeça para encará-lo e, com a voz rouca, mas pronunciando cada palavra com clareza, interrompeu-o: "Não fui eu."
"Henrique, estamos juntos há mais de dez anos. Como você ainda pode duvidar de mim? Você conhece o meu temperamento; eu sempre resolvo minhas contas na hora e faço tudo abertamente. Eu não me rebaixaria a joguinhos sujos pelas costas de ninguém."
Antigamente, quando ela se irritava, não importava o tamanho do escândalo que causasse, ela nunca fazia nada às escondidas.
Ele era quem melhor deveria conhecer sua personalidade, mas agora, por causa de Beatriz, não era capaz de lhe conceder o mínimo de confiança.
Henrique abriu a boca, querendo dizer algo mais, mas a porta do quarto foi aberta bruscamente. O Sr. e a Sra. Silveira entraram apressados, ainda segurando as malas, evidenciando que haviam vindo direto do aeroporto para o hospital.
Ao ver a filha pálida e definhada na cama, a Sra. Silveira começou a chorar instantaneamente. Ela correu para segurar a mão de Clarice, com a voz embargada: "Minha querida, como você deixou chegar a esse ponto? Por que não contou para nós que algo tão sério estava acontecendo?"
O Sr. Silveira permanecia ao lado, com o rosto rígido. Seu olhar para Henrique transbordava fúria e a aura ao seu redor era assustadora.
A joia preciosa da família Silveira, que casou com Henrique, havia sido reduzida àquele estado deplorável, e até uma doença de vida ou morte havia sido escondida deles.
"Henrique," a voz do Sr. Silveira era fria como gelo. "Você não nos contou que a Clarice estava doente há tanto tempo, e até aí não dissemos nada. Mas o coração que salvaria a vida dela... com que direito você o entregou para outra mulher? Você ainda tem algum respeito pela família Silveira ou pela Clarice, sua esposa?"
A sequência de questionamentos fez Henrique baixar a cabeça, envergonhado: "Sogro, sogra, as coisas não são como vocês pensam. A Beatriz ela..."
"Pai, mãe, não briguem com ele."
Clarice deu tapinhas leves na mão de sua mãe, interrompendo Henrique. "Fui eu que cedi para ela. O estado da Beatriz era mais grave que o meu, ela precisava mais daquele coração."
Ela não queria que seus pais brigassem por causa dela, muito menos queria passar seus últimos dias em meio a conflitos familiares.
Dito isso, ela olhou para Henrique e disse calmamente: "Saia um pouco, por favor. Quero conversar sozinha com meus pais."
Henrique observou o olhar distante dela após tê-lo defendido. Ele sentiu um nó na garganta, mas apenas lançou um longo olhar para ela antes de sair do quarto, fechando a porta suavemente.
Em silêncio, ele jurou a si mesmo que encontraria um doador compatível o mais rápido possível.
No quarto, restando apenas os três, a Sra. Silveira não aguentou mais e abraçou Clarice chorando: "Minha filha, por que você foi tão boba? Era o coração que salvaria a sua vida, como pôde entregar para outra pessoa?"
Clarice encostou-se no peito da mãe, sentindo o nariz arder, mas conteve as lágrimas.
O Sr. Silveira disse com voz grave: "Só ficamos sabendo quando recebemos os documentos de doação de órgãos do hospital. Viemos imediatamente. Se algo acontecer com você, como nós vamos continuar vivendo?"
Um sentimento de culpa invadiu o coração de Clarice. Ela ergueu a mão para limpar as lágrimas da mãe.
"Pai, mãe, não pensem bobagens. Eu assinei aquilo apenas por precaução. O médico disse que meu caso pode ser tratado com repouso, não é tão grave."
Ela não queria que seus pais soubessem que lhe restavam apenas poucos dias; não queria que passassem o tempo final de convivência mergulhados em tristeza profunda.
O Sr. Silveira não se convenceu e segurou a mão dela com força. "Não se preocupe, minha querida. Já pedi que contatassem os melhores cardiologistas do mundo. Mesmo que tenhamos que revirar a terra, encontraremos um coração para você. Você vai ficar bem."
O amor incondicional de seus pais foi como uma corrente de calor que desmoronou toda a fortaleza que Clarice vinha sustentando.
Ela não aguentou mais, escondeu o rosto no colo da mãe e começou a chorar baixinho, deixando sair toda a injustiça, o cansaço e o desespero acumulados.
Foi a primeira vez, desde que entrou na história, que ela se permitiu chorar daquela forma.
Após dois dias de internação, Clarice insistiu em voltar para casa. O Sr. e a Sra. Silveira não conseguiram convencê-la do contrário e acabaram cedendo.
Porém, ao abrir a porta de casa, Clarice estancou.
Beatriz estava sentada no sofá da sala, coberta com o paletó de Henrique, bebendo a água morna que uma empregada acabara de trazer.
Capítulo 5
Henrique, ao ouvir o barulho, aproximou-se rapidamente e explicou para Clarice: "Clarice, a Beatriz vai operar em dois dias e precisa de repouso absoluto. O hospital está muito barulhento. Além disso, ela estava com medo de que você ainda estivesse brava e mandasse alguém para ameaçá-la no hospital. Ela não se sentia segura lá sozinha, então a trouxe para ficar aqui por dois dias para que eu possa cuidar dela. Assim que a cirurgia terminar, ela irá embora."
Beatriz também se levantou rapidamente, com o rosto pálido e uma expressão assustada. Ela caminhou até Clarice, baixou a cabeça e disse com voz fraca: "Senhorita Clarice, sinto muito por incomodá-la. Vou ficar apenas dois dias e, assim que a cirurgia acabar, irei embora imediatamente."
Clarice não tinha mais forças para discutir com eles. Apenas lançou um olhar indiferente. "Fique se quiser."
Eram apenas alguns dias; ela não se daria ao trabalho de se estressar por causa disso.
Henrique ficou surpreso. Ele esperava que Clarice causasse uma cena ou, no mínimo, dissesse palavras cruéis, mas ela aceitou com uma facilidade inesperada.
Ele virou-se para consolar Beatriz: "Beatriz, fique tranquila. Comigo aqui, ninguém ousará encostar em você."
Clarice sentiu uma opressão no peito e quis subir para o quarto para descansar. Assim que se virou para a escada, ouviu passos suaves atrás de si.
Beatriz a seguiu, diminuindo o passo propositalmente para manter uma pequena distância.
Ao chegarem no topo da escada, Beatriz aproximou-se e sussurrou de forma sombria, para que apenas as duas ouvissem: "Senhorita Clarice, não importa o quanto você lute, o Henrique sempre escolherá a mim."
Clarice já estava sufocada pela raiva contida, e a provocação deliberada de Beatriz foi o estopim. Ela virou-se bruscamente para responder à altura.
No entanto, a outra arregalou os olhos e jogou o corpo para trás, caindo da escada sem qualquer aviso prévio.
"Ah——"
Um grito estridente quebrou o silêncio da mansão. Beatriz caiu ao pé da escada, encolhida no chão e segurando o abdômen. Seu rosto ficou instantaneamente lívido e as lágrimas começaram a rolar.
Henrique correu como um louco e pegou Beatriz nos braços, com a voz tremendo de pavor: "Beatriz! Você está bem? Onde dói?"
Beatriz, nos braços dele, olhou para Clarice com os olhos cheios de lágrimas e apontou com o dedo trêmulo: "Henrique... foi a senhorita Clarice... ela me empurrou... ela disse que me odiava por ter tirado tudo dela e que não me deixaria fazer a cirurgia..."
Clarice permanecia no topo da escada, assistindo àquela cena patética e repugnante. Ela pressionava o peito com as mãos; a dor em seu coração tornava-se cada vez mais intensa, quase impedindo-a de ficar de pé.
Mesmo assim, ela tentou se defender: "Eu não a empurrei, ela se jogou..."
Antes que pudesse terminar, foi interrompida pelo rugido furioso de Henrique.
"Clarice, você não se cansa?"
Com os olhos injetados, ele fixou o olhar nela. Qualquer vestígio de amor ou culpa havia desaparecido, dando lugar a uma fúria e decepção avassaladoras. Cada palavra parecia sair por entre seus dentes cerrados.
"Ela já está nesse estado e você ainda não a deixa em paz. Como seu coração pode ser tão perverso?"
A voz de Henrique era ensurdecedora. Ele apertou Beatriz em seus braços, como se Clarice fosse uma criminosa imperdoável. "Como eu nunca percebi que você era uma mulher tão cruel? Só porque sua família te mima, você acha que pode fazer o que quiser? Agora você se acha no direito de matar?"
Clarice olhou para o ódio nos olhos dele e para a forma como ele protegia Beatriz. Tudo parecia absurdamente surreal e amargo.
Ela não queria dizer mais nada e tentou se retirar, mas foi impedida pelo grito autoritário de Henrique: "Pare agora mesmo!"
"Já que você não aprende, hoje eu farei questão de que você nunca mais se esqueça!"