— Tudo bem. — Disse Nancy. — Ter mais um padrinho para amá-lo é algo bom.
Xavier paralisou por um segundo e então abriu um grande sorriso.
Sorriu como um bobo, estendendo a mão para tocar o rosto do Neno, mas recuou no meio do caminho, temendo acordá-lo.
— Vou comprar um amuleto de vida longa para ele um dia desses. — Disse Xavier, com a voz muito mais leve. — De ouro.
Arthur olhou para ele, não disse nada e voltou para a cozinha.
Nancy também levou a criança para o quarto interno.
Xavier ficou na sala, esfregando as mãos, incapaz de conter o sorriso que surgia em seus lábios.
Padrinho.
Serve.
É melhor do que não ter nada.
Aquele ano passou de forma mais tranquila do que Xavier imaginara.
Além das missões, sua rotina diária consistia em fazer compras no mercado e ajudar a cuidar da criança; Neno estava cada vez mais apegado a ele.
Quando Nancy cozinhava, ele ajudava na preparação: cortava legumes, descascava alho, cuidava do fogo.
Arthur era de poucas palavras, mas tornou-se muito mais cordial com ele.
Ocasionalmente, os dois sentavam-se no quintal para fumar e conversar um pouco.
O assunto principal ainda eram as missões.
Passando os dias dessa forma, Xavier às vezes sentia-se confuso, como se aquele fosse o seu próprio lar.
Mas sempre que via Nancy servindo a comida para Arthur ou ajustando o colarinho dele, ele voltava à realidade — aquilo não lhe pertencia.
Ele era apenas o padrinho, um parente que morava ali para ajudar.
Mas ele estava satisfeito.
Pelo menos podia vê-la todos os dias.
Pelo menos ela não fugia mais dele.
Pelo menos o Neno gostava dele.
Aquele ano passou rápido, tão rápido que antes mesmo de Xavier ter tempo de valorizá-lo, ele terminou.
Certa tarde, Arthur voltou da rua com uma expressão preocupada.
Ele fechou bem a porta, correu as cortinas e disse em voz baixa: — Nossas identidades foram expostas.
Nancy estava alimentando o Neno e sua mão hesitou por um momento.
— Alguém da estação de inteligência foi seguido. — Disse Arthur. — No mais tardar amanhã de manhã, este lugar não será mais seguro.
Ele olhou para Nancy e depois para Xavier.
— O carro de resgate chegará em breve, mas só há lugar para duas pessoas. Vocês levam o Neno e partem primeiro; eu fico para destruir os documentos.
Nancy pousou a tigela e levantou-se: — Eu fico, você leva o Neno.
— Não. — O tom de Arthur era firme. — O Neno não pode ficar sem a mãe.
— E ele pode ficar sem o pai? — A voz de Nancy estava tensa.
Os dois se encararam, nenhum cedendo.
Xavier, que estava ao lado, subitamente falou: — Eu fico.
Nancy virou-se para ele.
Xavier olhou para Arthur, com um tom de voz calmo e sem emoções.
— Leve a mãe e o filho. Sou solteiro, não tenho laços que me prendam. Deixe os documentos comigo, garanto que serão eliminados.
Arthur franziu a testa: — Esta é a minha missão—
— É a minha missão também. — Xavier o interrompeu. — Não discutam. Que horas chega o carro?
Arthur olhou para ele, silenciou por alguns segundos e finalmente disse: — Em dez minutos, na porta dos fundos.
Xavier assentiu e os apressou para sair.
Ao chegar à porta, Nancy subitamente o chamou: — Xavier.
Ele parou, mas não olhou para trás.
— Tome cuidado. — Disse ela.
A garganta de Xavier moveu-se, mas ele não respondeu; apenas fechou a porta suavemente.
Dez minutos depois, um carro preto parou silenciosamente na porta dos fundos.
Arthur carregando Neno e segurando a mão de Nancy entrou no veículo.
Quando o carro partiu, Nancy olhou pelo vidro traseiro.
Xavier estava à janela do segundo andar, com a cortina levemente afastada, parecendo observá-los partir.
O carro dobrou a esquina e a janela desapareceu de vista.
Na manhã seguinte, antes do amanhecer, na estação de trem.
Nancy segurava Neno no colo, parada na entrada da sala de espera, olhando ao redor.
Eles haviam combinado com Xavier de se encontrarem ali naquela manhã para cruzarem a fronteira do Norte juntos.
Havia um vaivém de pessoas na plataforma, e a luz da manhã filtrava-se pelo teto de vidro, iluminando o chão com sombras e luzes.
Nancy, com o filho nos braços, ficava na ponta dos pés procurando incessantemente.
Ao longe, ela viu um homem de casaco cinza caminhando pela plataforma.
Alto, passos rápidos, cabeça baixa e a aba do chapéu bem caída.
Era Xavier.
19
Nancy sentiu um alívio no peito e ia chamá-lo.
Mas naquele exato momento, Xavier parou subitamente.
O olhar dele passou por onde ela estava, e o canto de sua boca moveu-se, como se fosse sorrir.
Então, ele viu algo, e sua expressão mudou drasticamente.
Nancy seguiu o olhar dele e viu, logo atrás dela:
Dois homens de jaqueta preta entravam na sala de espera, com os olhos vasculhando tudo.
Xavier baixou a cabeça, puxou ainda mais a aba do chapéu e virou-se, misturando-se à multidão.
Seus passos não eram apressados nem lentos, e ele não olhou para Nancy nem mais uma vez.
Nancy abriu a boca, mas não emitiu som algum.
Ela ficou ali, parada com o Neno no colo, observando aquele vulto cinza distanciar-se cada vez mais, até desaparecer no fim da plataforma.
Arthur voltou após comprar as passagens e, vendo-a paralisada, perguntou: — O que houve?
Nancy desviou o olhar e balançou a cabeça: — Nada, vamos.
Quando o trem partiu, ela encostou-se à janela observando a paisagem.
As árvores ao lado dos trilhos passavam rapidamente, a plataforma ficava cada vez menor até tornar-se um ponto e desaparecer completamente.
Ela baixou a cabeça, olhando para o Neno adormecido; o pequeno estava com a boca entreaberta e a mãozinha apertando o colarinho dela.
Nancy deu tapinhas leves nas costas do filho, mas sua mente estava tomada pelo último olhar de Xavier.
Ele a vira.
Com certeza a vira.
Mas ele virou as costas e partiu sem olhar para trás.
Ele temia envolvê-los.
Nancy fechou os olhos e enterrou o rosto nos cabelos do Neno.
Três meses depois.
Na vila militar, Nancy ouviu a notícia primeiro através de um companheiro de armas.
Naquela tarde, logo após o treino, ela voltou ao escritório e um soldado que acabara de retornar do Norte bateu à porta e entrou.
O soldado não parecia bem; hesitou à porta antes de falar.
— Nancy... sobre o que aconteceu no Norte... você soube?
Nancy estava limpando sua arma; o movimento parou.
Ela levantou a cabeça: — O que aconteceu?
O soldado silenciou por dois segundos e sua voz baixou: — O Xavier... ele se foi.
Os dedos de Nancy travaram sobre o cano da arma, imóvel.
Ela encarou o rosto do soldado por dois segundos, seus lábios moveram-se e ela perguntou: — Como aconteceu?
O soldado disse: — O Capitão Xavier foi capturado após sua identidade ser exposta e ficou preso por três meses. O inimigo usou todos os métodos possíveis, mas ele não revelou nenhuma informação até o fim.
O soldado fez uma pausa e sua voz tornou-se ainda mais baixa.
— Há três dias, ele foi executado. Até a morte, não traiu nenhum companheiro.
O escritório mergulhou em um longo silêncio.
Nancy permaneceu sentada na cadeira, imóvel, ainda segurando a arma com os nós dos dedos brancos.
Ela não chorou, não tremeu; seu rosto não demonstrava nenhuma expressão.
O soldado, vendo-a daquele jeito, sentiu um aperto no peito; tentou dizer algo para consolar, mas sentiu que nada seria adequado.
Por fim, apenas disse suavemente: — O corpo dele... dizem que foi cremado e as cinzas espalhadas ao vento. Não sobrou nada.
Nancy assentiu.
Ela colocou a arma sobre a mesa e levantou-se lentamente.
Os movimentos eram vagarosos, como se cada articulação do corpo estivesse falhando.
Ao chegar à porta, ela parou subitamente.
Uma mão apoiou-se no batente; ficou ali por alguns segundos e então abriu a porta e saiu.
O corredor estava silencioso, o sol entrava pelas janelas tornando o chão de cimento brancacento.
Ela caminhou passo a passo de volta ao dormitório, com os pés pesados, como se pisasse em algodão.
Ao abrir a porta, Neno estava sentado no tapete brincando com blocos de montar, e ao lado dele estava Arthur.
— Mamãe! — O pequeno a viu e sorriu, estendendo os braços pedindo colo.
Arthur levantou a cabeça e olhou para ela; sua expressão mudou levemente.
Ele sabia onde ela estivera e imaginava o que ela ouvira.
Nancy aproximou-se, agachou-se e abraçou o filho.
Apertou-o com força.
Neno sentiu-se um pouco desconfortável com o aperto e resmungou com sua voz infantil: — Mamãe, dói.
Nancy não o soltou.
Ela enterrou o rosto no ombrinho do filho, e seus ombros tremeram levemente.
Arthur, sentado ao lado, não disse nada nem se moveu.
Ele apenas estendeu a mão e pressionou suavemente as costas de Nancy.
Depois de um longo tempo, Nancy soltou o filho e olhou para o rostinho dele.
O pequeno estendeu a mão para limpar uma lágrima no rosto dela e disse, inclinando a cabeça: — Mamãe chorou.
Nancy sorriu, mas outra lágrima caiu.
— Mamãe não chorou. — Disse ela. — É que... entrou areia nos olhos da mamãe.
20
Dois dias depois, no salão nobre do Comando Militar, realizou-se o funeral simbólico de Xavier.
O salão estava lotado, uma massa escura de pessoas.
Havia companheiros que lutaram ao lado dele, líderes de vários escalões e parentes que vieram de longe.
Os pais de Xavier também compareceram.
Os dois idosos estavam com os cabelos completamente brancos, apoiando-se um no outro na primeira fila.
Nancy estava na ala reservada aos familiares e amigos próximos, vestindo o uniforme com a aba do quepe bem baixa.
Arthur estava ao lado dela, com uma mão amparando seu braço.
Neno estava no colo dele; o pequeno ainda não entendia o que estava acontecendo e olhava ao redor com curiosidade.
A cerimônia seguiu passo a passo.
O orador no palco falava com voz grave e solene.
— ... O Capitão Xavier Rocha, nascido em 1958... em sua última missão, entregou sua vida à pátria, preferindo a morte à rendição... faleceu aos vinte e sete anos...
Vinte e sete anos.
Nancy ouviu aquele número e sentiu como se algo tivesse golpeado seu peito com força.
Ele tinha apenas vinte e sete anos.
Na vida passada, ele vivera até os setenta e três; embora debilitado pelo câncer, morrera de velhice em sua cama.
Nesta vida, ele morrera no Norte, aos vinte e sete anos.
Sem deixar sequer os restos mortais.
Nancy baixou os olhos e apertou a mão de Arthur.
A cerimônia prosseguiu.
Minuto de silêncio, salva de tiros e, por fim, a oferta de flores.
Neno ainda não entendia bem, mas levava no colo de Nancy um crisântemo branco, observando as pessoas ao redor.
Nancy carregou-o até o retrato fúnebre.
Aquela foto fora tirada por Xavier anos atrás; ele vestia o uniforme, sorria com vivacidade e seus olhos tinham brilho.
Neno, ao ver a foto, subitamente estendeu a mão e chamou com sua vozinha doce: — Padrinho.
Ele colocou a flor sobre o altar; ficou torta, então ele estendeu a mão para ajustá-la.
Nancy olhou para a foto, seus lábios moveram-se, mas nenhuma palavra saiu.
Ela curvou-se, guiando Neno em uma reverência.
O vento soprou, fazendo as pétalas do crisântemo balançarem levemente.
Ela lembrou-se daquela noite em que Xavier estava à janela do segundo andar, com a cortina entreaberta.
Aquele último olhar dele fora profundo e terno.
Arthur aproximou-se, pegou Neno nos braços novamente e, com a outra mão, envolveu o ombro de Nancy.
— Vamos. — Disse ele.
Nancy assentiu, lançando um último olhar para a fotografia.
Depois, virou-se e continuou sua caminhada em frente.
FIM