Xavier cerrou os punhos e apressou o passo.
O que ele tinha feito desta vida?
Casou-se com Wanessa, engravidou-a e quase permitiu que elas destruíssem Nancy novamente.
Com que direito ele esperaria o perdão dela?
Baseado naquele pensamento de que "ela esperou cinquenta e três anos na outra vida, então nesta vida bastaria um agrado"?
Ele sentia desprezo por si mesmo.
Quanto mais pensava, mais se odiava. Ele quase corria pelo quartel.
Ele precisava encontrá-la.
Precisava dizer que agora enxergava a verdade.
Que não queria mais Wanessa, nem o bebê, nem nada.
Que, do início ao fim, só havia ela em seu coração.
O casamento com Wanessa fora fruto de um orgulho momentâneo, da sensação de que Nancy o havia envergonhado ao partir; fora uma tentativa torta de forçá-la a voltar.
Ele errara. Errou amargamente.
Ele queria se redimir, queria compensá-la, queria passar o resto da vida pagando essa dívida.
Mesmo que ela não o perdoasse, não importava, ele tentaria aos poucos.
Chegou ao prédio administrativo.
Subiu as escadas de dois em dois degraus. Alguns oficiais no corredor ficaram surpresos ao vê-lo naquele estado.
Sem tempo para cumprimentos, ele foi direto para a sala de Nancy.
A porta não estava totalmente fechada.
Ele ia empurrá-la, mas sua mão parou ao ouvir vozes lá dentro.
Era a voz de Nancy.
— Então que seja neste sábado. Pode ser algo simples, não precisamos de muitos convidados.
A mão de Xavier congelou no ar.
Em seguida, veio a voz de Arthur, carregada de afeto: — Você quem decide. Mas o banquete precisa ter pelo menos quatro mesas. Temos que convidar alguns anciãos da sua vila para serem testemunhas.
Nancy riu: — Tudo bem, faremos como você quiser.
Xavier, parado no corredor, sentiu o corpo paralisar.
Arthur continuou: — A propósito, sua condição atual exige cuidados. Não beba nada no dia, eu beberei por você.
Nancy respondeu: — São apenas dois meses, não precisa se preocupar tanto.
A cabeça de Xavier deu um estalo.
Dois meses.
Ele empurrou a porta com violência.
No escritório, Nancy e Arthur estavam sentados lado a lado no sofá, com o rascunho de um convite de casamento à frente.
Nancy vestia o uniforme, e seu ventre ainda parecia plano.
Mas sua mão repousava sobre a de Arthur, e a proximidade entre os dois deixava claro que não eram apenas colegas.
Arthur reagiu primeiro, levantando-se e colocando-se à frente de Nancy: — Capitão Rocha, deseja algo?
Xavier não olhou para ele. Seus olhos estavam fixos em Nancy.
— Nancy... vocês...
Nancy levantou-se lentamente, com um olhar sereno.
— Xavier, este é meu marido, o Major Arthur. Registramos nossa união há um ano e faremos o banquete de celebração neste sábado.
Os lábios de Xavier tremeram, e sua voz saiu rouca: — Com ele... você transformou o fingimento em realidade?
Nancy olhou para ele e, subitamente, deu um sorriso leve.
Era um sorriso sutil, tingido de ironia.
— Sim. No dia da festa, faça questão de comparecer.
15
Xavier permaneceu parado à porta, como se tivessem drenado todas as suas forças.
Ele abriu a boca, querendo dizer algo, mas sua mente estava em branco e nenhuma palavra saía.
Nancy aproximou-se e fechou a porta.
A folha da porta se fechou diante dele com um som suave.
O corredor estava em silêncio.
Xavier ficou onde estava, imóvel.
Lentamente, baixou a cabeça e viu que ainda apertava na mão aquela chave com o cordão vermelho.
O cordão já havia desbotado e estava desfiado.
Ele apertava a chave com tanta força que a palma da mão doía.
Mas ela jamais aceitaria aquela chave novamente.
Três dias depois, na hospedaria do Comando Militar.
Havia quatro mesas postas, um evento pequeno, mas animado.
Nancy usava um vestido vermelho, o cabelo estava preso em um coque e ela levava uma pequena flor vermelha junto à orelha.
Não usava maquiagem, mas suas bochechas estavam coradas e seus olhos se curvavam em um sorriso.
Arthur estava ao lado dela, impecável em seu uniforme, com uma postura revigorada; raramente não estava sério, mantendo um sorriso constante no rosto.
Os convidados chegavam aos poucos.
A maioria era formada por colegas e superiores do Comando, além de alguns companheiros de armas de Nancy na missão do Norte.
Todos conversavam e riam em uma atmosfera excelente.
Quando Xavier chegou, o salão silenciou por um instante.
Ele vestia um uniforme novo e carregava uma sacola de presente vermelha.
Sem olhar para ninguém, caminhou direto para um canto e sentou-se.
Os convidados nas mesas próximas começaram a cochichar.
— Aquele não é o Capitão Rocha? O que ele está fazendo aqui? Ele não acabou de se divorciar da irmã dela? Que cara de pau vir até aqui.
— Pois é. A esposa tinha acabado de sofrer um aborto e ele forçou o divórcio, é um homem sem coração.
— Mas não foi bem assim, não é? Ouvi dizer que ele descobriu que a esposa e a sogra queriam prejudicar a Nancy, por isso se separou.
— Sério?
— Sério. A mãe biológica da Nancy foi morta por aquela madrasta; ontem o caso foi reaberto e já prenderam a mulher.
— Bom, então o Xavier pelo menos fez algo que preste...
Alguém olhou para a expressão de Xavier e baixou a voz: — Olhe para ele, em poucos dias emagreceu horrores. Não se sabe se é pela perda do filho ou porque ainda sente algo pela Nancy.
Xavier, sentado no canto, ouvia cada uma daquelas palavras.
Ele não se moveu, nem contestou.
Seus olhos estavam fixos em Nancy.
Ela e Arthur estavam juntos, brindando com os convidados.
Ela parecia sorrir com muita felicidade.
Xavier observou aquele sorriso, sentindo o nó na garganta.
Ele lembrou subitamente que, na vida passada, enquanto cumpria missões, imaginara essa cena inúmeras vezes.
Após a missão, ele voltaria para a Base, e Nancy estaria à porta esperando por ele, vestida de noiva.
Ele a levaria pela mão, brindaria de mesa em mesa e diria a todos: "Esta é minha esposa".
Mas o que aconteceu depois?
A missão terminou, ele e Wanessa transformaram o fingimento em realidade, casaram-se e tiveram filhos.
Ele pensou em se divorciar, mas Wanessa estava grávida e ele não teve coragem.
Pensou em confessar a verdade, mas Nancy já cuidava dos pais dele há mais de dez anos; ele temia o que aconteceria se ela soubesse a verdade.
Assim, arrastou a situação ano após ano, até os filhos crescerem, até os cabelos ficarem brancos, até contrair um câncer e finalmente ter coragem de procurá-la.
Ela o esperou por cinquenta e três anos, até cuspir sangue e dar o último suspiro.
Ele nem teve tempo de pedir perdão.
Xavier apertou o copo de chá em sua mão.
Via-a sorrir, via-a conversar com Arthur, via-a ocasionalmente baixar a mão para tocar o ventre ainda plano.
Ele quis se levantar.
Quis caminhar até ela e dizer: "Nancy, venha comigo".
Mas não se moveu.
Sentado naquele canto, olhando para o rosto sorridente dela, percebeu que aquele sorriso já lhe era estranho.
Não era o sorriso de antes.
Antigamente, quando Nancy olhava para ele, seus olhos brilhavam.
Agora, ela só tinha aquele brilho quando olhava para Arthur.
Xavier soltou o copo lentamente.
Por que ele haveria de arruinar aquele casamento que ela tanto esperara?
Ele já tinha arruinado a vida dela uma vez.
Não deveria arruiná-la pela segunda vez.
Nesse momento, Nancy e Arthur aproximaram-se com seus copos de chá.
— Xavier. — Nancy parou diante dele, com um tom muito calmo. — Este brinde de chá é para você.
Xavier levantou-se, com as mãos tremendo levemente.
— Obrigada por ter investigado a causa da morte da minha mãe e por ter feito justiça por mim. A Dona Luciana já foi condenada. O que era devido foi pago.
Ela hesitou, olhou para Arthur ao seu lado e voltou a encará-lo.
— De agora em diante, o passado está enterrado e as contas estão quitadas.
Dito isso, ela ergueu o copo e bebeu tudo de uma vez.
16
Xavier observou Nancy beber o chá e sentiu um aperto na garganta.
Ele também ergueu seu copo e entornou o líquido.
O chá estava morno, mas ao descer parecia uma lâmina, cortando sua garganta.
Ele queria dizer algo.
Queria pedir perdão, dar os parabéns, desejar felicidade.
Mas as palavras morriam na garganta, sem que nenhum som saísse.
Nancy pousou o copo, assentiu para ele e virou-se, segurando o braço de Arthur, seguindo para a próxima mesa.
Xavier acompanhou suas costas com o olhar, sentindo um vazio no peito.
Antes mesmo do banquete terminar, ele se levantou, deixou a sacola vermelha sobre a mesa e partiu apressadamente.
Dentro da sacola havia um cachecol vermelho; ele passara dias escolhendo, pensando que no dia do casamento dela, fosse ele o noivo ou não, deveria dar um presente decente.
Não teve tempo de falar, nem coragem.
Ao voltar para o dormitório, Xavier fechou a porta e sentou-se na beira da cama, imóvel.
Lá fora, a festa continuava, e as risadas chegavam em ondas.