— Moça, por favor, me ajude a convencer minha esposa. Ela está agindo por impulso, falando com raiva. Eu não me importo comigo, mas tenho medo que ela guarde esse rancor e acabe sofrendo.
Se não tivessem visto as feridas de Estela, todos seriam enganados por esse ar de retidão de Dimitri. Lucas, sem paciência, expulsou o homem para perto do carro.
— Você não é bem-vindo aqui. Estela finalmente está se curando da dor, não vou deixar que você a machuque de novo.
— Estela?
O uso de um apelido tão íntimo fez o ciúme de Dimitri transbordar. Ele sacou um punhal que levava consigo, em tom de ameaça.
— Ela é minha mulher. Alguém como você não está à altura dela, nem pense em se aproveitar da situação!
O brilho da lâmina ofuscou Lucas por um segundo, mas ele reagiu com um golpe de cotovelo que fez Dimitri cair de joelhos, uivando de dor. Lucas lamentava profundamente ter desistido dela cinco anos atrás. Se ele tivesse sido corajoso e declarado seu amor, se não tivesse tentado priorizar a felicidade dela acima de tudo, se o homem que ela amasse fosse ele... ela ainda seria a borboleta mais linda da pradaria.
— Estela não pertence a ninguém. Ela pertence a si mesma.
Capítulo 17
O tempo nas pradarias é instável; o céu limpo do dia transformou-se em uma tempestade violenta à noite. O acampamento era temporário e a chuva começou a invadir tudo. Lucas e o outro homem tentavam reforçar as estacas, enquanto Estela e Mariana usavam bacias para tirar a água. Com a perna ferida, Estela acabou sofrendo uma queda feia no chão.
Lucas estava agoniado, mas precisava vê-la se levantar sozinha enquanto lutava contra o vento.
— Estela! Pare com isso e entre no carro para se proteger!
Uma lufada de vento quase arrancou o teto da tenda, e a corda cortou profundamente a mão do marido de Mariana.
— Não dá para ficar aqui, vamos para o carro e decidimos o que fazer no caminho — sugeriu o homem.
Lucas olhou para a perna de Estela e decidiu não arriscar mais. Pegou-a no colo e a colocou no carro, mas assim que entraram, Mariana notou o problema.
— O pneu está furado! Estava perfeito durante o dia, não podemos sair assim.
A chuva castigava as janelas e, no meio da escuridão, faróis ofuscantes surgiram. Dimitri não tinha ido embora e apareceu no momento exato. Ele desceu do carro sem pressa e bateu no vidro deles.
— Meu carro está bom. Subam e saiam daqui comigo.
Todos entenderam o que aquilo significava.
— Usar uma tática dessas numa hora dessas... você é desprezível! — exclamou Lucas.
Antigamente, Dimitri desprezaria tal oportunismo, mas agora, para ter Estela de volta, ele era capaz de qualquer coisa. Vendo a hesitação de todos, ele fingiu dar um bom conselho:
— A vida é o que importa agora. Eu só peço uma chance de conversar com minha esposa. Podemos resolver o resto depois que estivermos em segurança.
Sem opção, Mariana e o marido aceitaram e mudaram para o carro de Dimitri. Quando Lucas ia colocar Estela com cuidado no banco traseiro, Dimitri fechou a porta abruptamente, deixando Lucas do lado de fora.
Estela entrou em pânico, tentando abrir a maçaneta travada.
— Dimitri, o que você está fazendo? O Lucas ainda não subiu!
Ele segurou o volante e olhou pelo retrovisor para o homem sob a tempestade, sentindo um prazer sombrio.
— Sinto muito, meu carro só leva quatro pessoas. Além disso, ele vive aqui desde criança, já viu climas piores. Um pouco de chuva não será nada para ele.
— Ei! Como você pode ser assim? Tem espaço para apertar! Você é um mesquinho, vai acabar matando o homem! — gritou Mariana. O marido dela a calou: — Não diga nada agora, precisamos salvar nossas vidas primeiro.
Estela sabia que Dimitri estava deixando Lucas para trás de propósito por puro ciúme; ele sempre fora assim, intolerante e possessivo. Mas a tempestade piorava; se Lucas não achasse um abrigo, estaria em perigo real. Ela parou de olhar para Dimitri e disse friamente:
— É essa a educação e etiqueta de gerações da família Dimitri? Dimitri, você não tem o básico de humanidade.
Para ele, a fúria e o sarcasmo de Estela eram apenas provas de que ela se importava com Lucas. As veias saltaram em seu pulso no volante enquanto ele reprimia a raiva.
— Diga o que quiser. Não vou salvá-lo, muito menos salvar o meu rival.
O carro acelerava e tudo lá fora passava rápido, como quando ela deixou a pradaria com ele anos atrás, como se ele a estivesse levando para outro abismo. Mas, desta vez, ela não pretendia repetir o erro nem ser manipulada. Se Dimitri não a ouvia, ela o obrigaria.
Ignorando a dor na perna, ela aproveitou um movimento do volante e, num impulso, avançou para puxar o braço dele. O carro perdeu o controle por um instante, jogando todos para os lados. Ela se agarrou à alça de segurança, apertou o botão de destravar e saltou do carro em movimento sem hesitar.
— Estela!
Quando Dimitri reagiu, ela já tinha caído. Ele pisou no freio bruscamente e saltou antes mesmo de o carro parar totalmente para socorrê-la. Ele rolou várias vezes no cascalho antes de parar e, mesmo tonto, correu até ela.
Ela estava inconsciente, com um corte na testa. O rosto estava coberto por uma mistura de chuva e sangue. Ele a abraçou com força, sentindo uma dor insuportável ao vê-la assim.
— Estela? Estela? Acorde, por favor...
O som do motor do outro carro partindo ecoou, mas ele não o seguiu. Ele tentou transmitir o calor do seu corpo para ela, que estava ensopada, tentando despertá-la. Momentos depois, ela abriu os olhos, e sua primeira reação foi de rejeição:
— Me solte!
Ele permitiu que ela lutasse em seus braços, mas apenas a apertou mais.
— Não vou te soltar. Nem que eu morra. Como você pôde arriscar sua vida por causa dele?
A consciência de Estela começou a falhar novamente. No passado, ela não pôde proteger seu pai e permitiu que suas cinzas sumissem no vento. Mesmo que Dimitri desse a vida agora, o que foi perdido não voltaria jamais. Agora, ela queria viver, mas não aceitaria abandonar quem a apoiava para viver sob o jugo de Dimitri.
A chuva começou a diminuir, e ela pareceu ouvir a voz serena de seu pai:
— Tudo bem, Estela. Eu estou sempre com você. Eu nunca culpei nossa pequena Estela.
Capítulo 18
Quando Estela acordou novamente, a tempestade tinha passado. Ela olhou ao redor e percebeu que estava em uma caverna.
— Estela!
— Estela!
Dimitri e Lucas falaram ao mesmo tempo, emocionados ao vê-la acordar. Conforme recuperava a lucidez, a dor aguda em seus membros começou a se manifestar.
— Você saltou do carro e deve ter se machucado na queda. Felizmente, Mariana e o marido conseguiram chegar à cidade e a equipe de resgate está a caminho. Aguente só mais um pouco — disse Lucas.
Ele falava mantendo o corpo de lado, o que despertou a suspeita de Estela. Notando que Dimitri também evitava seu olhar, ela insistiu para que Lucas se virasse, revelando um ferimento profundo e assustador em seu braço.
— Dimitri, a pessoa que menos tem o direito de estar aqui é você. Se não fosse pela sua emboscada covarde ontem, o Lucas não estaria ferido.
Dimitri passara a noite em claro, quase louco de preocupação, mas as primeiras palavras dela foram para outro homem! O ressentimento escapou de sua boca:
— Lucas! Lucas! Lucas! Você pode parar de falar o nome dele na minha frente? Você é minha esposa, deveria respeitar os meus sentimentos!
Ele se arrependeu imediatamente.
— Me desculpe... eu... eu só estava preocupado demais com você...
Quão pequeno deve ser o coração de alguém para ferir os outros em nome do ciúme? Estela sentiu que fora cega por ter amado um lixo assim.
— Você diz que é por ciúme, mas o que você faz é crime! Ontem, o Lucas poderia ter morrido por sua causa! Pare de usar o amor como desculpa para o seu egoísmo. É nojento.
Ela tinha razão. O egoísmo dele quase a matara. Dimitri estendeu a mão no ar, mas a recolheu, envergonhado.
A equipe de resgate chegou logo depois. Lucas ajudou Estela a subir na ambulância e Dimitri tentou segui-los. Quando ia subir, percebeu que o colar com as cinzas do osso tinha sumido de seu bolso. Ele voltou correndo para a caverna.
— Senhor, não atrase o resgate, suba agora! — gritou o paramédico.
Dimitri procurou desesperadamente na caverna, mas não achou sinal do colar. Ele tinha certeza de que o sentira no bolso antes.
— Como não está aqui? Como...
Ele virou cada pedra, mas não encontrou nada, sendo finalmente forçado pelos socorristas a entrar no veículo. No entanto, após o carro percorrer certa distância, a luz do sol iluminou algo sobre uma pedra: era o colar.