— Acordou?
Dimitri estava com os olhos injetados de sangue e uma barba por fazer, como se tivesse passado noites em vigília. Antigamente, se ela tivesse um simples resfriado, ele não sairia do seu lado.
"Você é a joia que eu conquistei; preciso te segurar, te vigiar e te proteger a cada segundo", ele dizia.
Mas, desde que Valentina chegara, ele se tornara cruel e a entregara sem hesitar para ser consumida pela outra. Agora, ver aquela encenação de cuidado só lhe causava asco.
Ele checou a temperatura da testa dela e suspirou aliviado.
— Finalmente a febre baixou. Você está fraca por causa do ciclo menstrual e dormiu por dias. Vou chamar o Dr. Lucas para te examinar de novo.
A garganta dela ardia; Estela não conseguia articular uma única palavra. Seus membros pareciam desconectados do corpo. Dimitri, como fazia antes, ajeitou as cobertas com cuidado.
— Já conversei com Valentina. Você não precisa estudar as regras por enquanto. Apenas descanse.
O médico fez o exame, deu algumas instruções e se preparava para sair quando foi barrado por Valentina. O olhar dela era afiado como uma lâmina, e o tom de voz carregava uma autoridade inquestionável.
— Senhor Dimitri, gerar herdeiros para a família é o dever de uma esposa. Mas, se ela tortura a si mesma secretamente para causar um aborto, isso não deveria ser punido?
— Aborto?
Tanto Dimitri quanto Estela ficaram estáticos. O médico imediatamente se defendeu:
— A senhora disse que não queria o bebê e me pediu para não contar ao Senhor Dimitri. Achei que fosse algo planejado por ela, por isso não mencionei.
— Não é verdade! — Estela lutou para se sentar na cama.
Eles haviam feito promessas, visitado santuários e tentado por anos. Ter um filho era o maior desejo dela e de Dimitri. Como ela poderia abortar de propósito? Além disso, nos exames mensais, o médico jamais mencionara uma gravidez.
Percebendo o ceticismo no ar, Valentina aproximou-se e estendeu um fragmento de tecido ensanguentado diante deles.
— Senhor Dimitri, posso entender que uma mulher jovem queira evitar as dores do parto para continuar se divertindo, mas ferir uma vida inocente é imperdoável. Sabemos que um castigo de ajoelhar não tiraria tanta energia, a menos que ela tenha provocado isso deliberadamente.
Estela paralisou. Aqueles coágulos que sentira escorrer entre os momentos de delírio eram, na verdade, seu filho.
Ao ver a palidez de Estela, Dimitri interpretou como culpa. Em um instante, as veias de sua testa saltaram e, com os nós dos dedos brancos de tanta força, ele chutou a mesa de centro.
— Você está satisfeita agora?
Ela nunca o vira com um olhar tão gélido. Mesmo sem forças para explicar, ela não aceitaria ser caluniada como a assassina do próprio filho.
— Eu não sabia que estava grávida... eu nunca faria isso, Dimitri...
As palavras foram interrompidas pela mão de Dimitri, que apertou seu pescoço, fechando-se centímetro a centímetro.
— Eu me preocupei com sua saúde, te dei apenas um castigo leve, e você usa nosso filho para se vingar de mim? Que coração perverso o seu!
O ar tornou-se escasso. Estela sentiu que morreria ali. Ao ver o estado dela, um lampejo de hesitação cruzou os olhos dele, e ele a soltou. Estela caiu para o lado da cama, arquejando e buscando o ar desesperadamente.
No entanto, o som da confiança se quebrando ecoou silencioso pelo quarto.
— Valentina, como uma mulher dessas deve ser punida?
— O corpo e o sangue recebemos de nossos pais. Se ela não ama o próprio filho, não merece o amor paterno. Ouvi dizer que o Pai Juca está enterrado aqui. Espalhar as cinzas dele ao vento fará com que ela sinta profundamente a dor da perda e nunca mais cometa tal erro.
Ela acabara de perder um filho, e agora queriam violar o descanso de seu pai!
— Não! Dimitri, você prometeu! Você disse que deixaria meu único parente por perto para me fazer companhia!
Ela tremia descontroladamente, as lágrimas encharcando sua roupa.
— Por favor, eu imploro! Eu errei, eu nunca mais farei nada, mas não toque nas cinzas do meu pai!
Ela chorava e implorava de joelhos, mas o homem no sofá permanecia imóvel. Com a ponta do sapato, ele ergueu o queixo dela e disse friamente:
— Valentina tem razão. Quero que você guarde essa lição e aprenda o seu dever como esposa.
— NÃO!
Sob uma chuva de inverno gelada, Estela arrastou seu corpo convalescente para tentar proteger o jazigo. Suas unhas quebraram na terra, mas ela foi arrastada impiedosamente vez após vez.
Ela assistiu, impotente, enquanto Valentina misturava as cinzas de seu pai à comida de cães vira-latas, que devoraram tudo. Não sobrou nada.
— Painho! Meu pai...
Ela tentou recolher o que podia com as mãos, mas só encontrou lama e água. Um trovão cortou o céu, ecoando seu grito de desespero.
"Eu amei o homem errado. Pai, meu filho... eu juro que vou vingar vocês..."
Capítulo 5
Após aquele dia, Estela tornou-se submissa e silenciosa. Dimitri, satisfeito com a "evolução" dela, presenteou Valentina com um par de brincos de esmeralda valiosíssimos.
— Você fez um excelente trabalho. Estela progrediu muito. No aniversário da minha mãe, ela certamente será aceita.
A visão daqueles brincos queimou a alma de Estela. No casamento deles, ela desejara aquele par, mas o vendedor se recusara a entregar por qualquer preço, tornando-se o grande lamento da cerimônia. Agora que ele os conseguira, o primeiro impulso foi dá-los a Valentina. Ele esquecera completamente a promessa feita à esposa.
Valentina aceitou o presente com uma elegância estudada.
— Senhor Dimitri, fiz apenas o meu dever.
Dimitri, animado, acariciou a palma da mão de Estela.
— Você deve estar entediada em casa. Vou te levar para sair. Vá trocar de roupa.
Quando ela voltou, ele ficou hipnotizado.
— Estela, você nunca gostou de usar vestidos ajustados, mas fica maravilhosa neles.
Ele lembrava que ela não gostava, mas esquecera o porquê: Estela odiava a sensação de ser prisioneira e contida. Antes, ele respeitava isso; agora, ele apenas ignorava.
No restaurante, a postura impecável de Estela rendeu elogios dos amigos de Dimitri.
— Ela está ótima. Mas ainda há uma diferença para a "outra senhora". Valentina vem de uma linhagem centenária, é o par ideal para o Dimitri.
— A Valentina prefere roupas mais tradicionais quando saímos, mas você nesse vestido também tem seu charme. O Dimitri tem sorte com vocês duas!
Linhagem centenária? Outra senhora?
Estela percebeu que o motivo de Dimitri nunca a apresentar aos amigos não era para protegê-la, mas sim vergonha. Ele já levava Valentina para os eventos sociais como se ela fosse a verdadeira dona da casa. Todas as desculpas de "você não vai gostar do ambiente" eram mentiras. No fundo, ele nunca a considerou digna.
Os homens, já embriagados, começaram a zombar:
— Ei, a nova beldade do Dimitri, venha servir nosso vinho!
Como Estela não se moveu, eles começaram a puxá-la, encostando em seu corpo. Com nojo, ela desferiu um tapa no homem que a tocava. O sujeito, furioso, revidou com dois tapas violentos.
— Você não passa de uma acompanhante de luxo! Como ousa me bater? Quanto o Dimitri paga para te manter na gaiola? Eu pago o dobro, agora sorria!
— Saia! Não me toque!
O rosto pálido de Estela ficou marcado por bofetadas vermelhas. Dimitri, ao retornar, ignorou o estado dela e focou apenas na reclamação do amigo.
— Dimitri, de onde você trouxe essa mulher mal-educada? Não sabe nem servir um vinho! Estragou a noite!
O canto da boca de Estela estava partido, o sangue escorrendo, mas ele não viu. Ele apenas massageou as têmporas, impaciente:
— Finalmente te trago para sair e você me faz passar essa vergonha?
Somente quando Valentina chegou é que o humor dele melhorou.
— Senhor Dimitri, já que ela está aqui, deixe que ela aprenda comigo. Uma aula prática é uma oportunidade rara.
— Eu não quero ver — recusou Estela.
Dimitri não ouviu. Para garantir que ela "aprendesse", ele ordenou que a amarrassem em uma cadeira no quarto ao lado e forçou suas pálpebras abertas para que visse tudo por um monitor.
Estela foi obrigada a ver Valentina "entreter" os amigos dele, circulando entre os homens com malícia, e viu Dimitri se envolver com a outra sem qualquer pudor.
Nojento! Absurdo!
As unhas de Estela cravaram na palma da mão. Ela mordeu o lábio até sentir o gosto metálico do sangue.
Dimitri, daqui a três dias, quando esses vídeos de luxúria forem o presente no aniversário de sua mãe, veremos o que os convidados acham das "regras" da família!
Capítulo 6
Após a festa, Valentina exigiu que Estela cuidasse sozinha de Dimitri, que estava bêbado. Enquanto ela limpava o vômito e o acomodava na cama, ele segurou seu pulso. Sob a luz fraca, ele murmurava:
— Me desculpe...
Ela era direta; ele, introspectivo. Antigamente, após as brigas, ele fingia embriaguez para pedir perdão até que ela cedesse. "Você veio sozinha para este lugar por minha causa, não suporto ver você triste", ele dizia.