Capítulo 35: O que estava no cofre
Na noite passada, Janaína sonhou novamente com Yago.
Desta vez, ele não disse palavras descompromissadas como costumava fazer em seus sonhos; em vez disso, com o rosto inexpressivo, ele a açoitou severamente com um cinto a noite inteira.
No sonho, ela implorava por misericórdia entre prantos, mas ele permanecia indiferente, com movimentos sempre precisos e cruéis.
Quanto mais ela chorava, mais força ele aplicava nos golpes.
Janaína acordou assustada logo cedo, com as mãos e os pés gelados e o corpo tremendo de pavor; só conseguiu se recuperar minimamente após um banho quente.
Ao ligar o celular, ela sentiu um novo calafrio.
Enquanto ela saía com Lucas na noite anterior, Hugo não ficou parado: ele entrou na casa de Yago e vasculhou seu cofre.
O resultado? O cofre estava repleto de fotos dela.
Eram registros dos últimos cinco anos de Janaína e cada detalhe de seu retorno ao país no ano passado.
Seus momentos de alegria e de desespero haviam sido meticulosamente registrados por alguém.
Pelo visto, Yago já a vigiava há muito tempo.
Hugo ligou para ela e soltou um suspiro profundo: — Minha pequena, parece que você tem muitas facetas que eu desconhecia. Sinto-me até inferior agora.
Janaína sentiu um constrangimento tão grande que teve vontade de se esconder.
Na maioria das vezes em que estava de mau humor, ela inventava desculpas para se isolar; não era de estranhar que Hugo não soubesse de tudo.
— Esse Yago é algum tipo de pervertido? O que ele pretende enviando pessoas para te seguir todos os dias?
— Eu não sei... — Agora, Janaína só podia tentar ver o lado positivo. — Talvez ele esteja tentando nos ajudar, mas não pode agir abertamente por causa de sua posição na família Zhao... Afinal, ele me salvou há cinco anos.
Como alguém que arriscou a vida para salvá-la poderia querer seu mal?
Ela já havia considerado essa hipótese, mas o comportamento de Yago não condizia com essa ideia.
Se fosse o caso, Yago não a teria recusado, nem a teria ameaçado, e muito menos tentaria usá-la como isca para seduzir o primo e atingir seus objetivos.
Janaína não encontrava, no momento, nenhum motivo para que ele a ajudasse.
E sobre o fato de ele ter surgido do nada para ajudá-la a fugir cinco anos atrás, ela também não conseguia encontrar uma explicação plausível.
Ela teria que perguntar pessoalmente a Yago quando ele voltasse de viagem.
Hugo disse seriamente: — Espero que sim. De qualquer forma, ao menor sinal de perigo, voltamos imediatamente para a Inglaterra. Seu irmão mencionou em cartas anteriores que aquelas pessoas são extremamente perversas, e isso certamente inclui quem está ao seu lado agora...
Antes que terminasse a frase, a voz da pessoa sobre quem estavam prestes a fofocar soou do lado de fora da porta: — Nana, hora de acordar.
Janaína gritou apressadamente para fora: — Já acordei, já estou descendo.
Ela se arrumou meticulosamente antes de descer.
Lucas lhe entregou uma chave de Porsche: — Carro novo, veja se gosta depois.
Janaína lembrou-se subitamente da Ferrari que Yago lhe dera ontem. Hesitou por um segundo e aceitou sem demonstrar nada: — É apenas um meio de transporte, servindo para andar está ótimo, não sou exigente.
Lucas perguntou: — Gostou do quarto decorado daquele jeito?
— Gostei. — respondeu Janaína sem hesitar.
— Estou perguntando se você gosta daquele esquema de cores.
Janaína paralisou e lançou um olhar discreto para ele; ele parecia casual, mas dava a impressão de estar atento à resposta.
Ela manteve a resposta: — Gostei.
Lucas olhou para ela com um brilho enigmático nos olhos, onde um escrutínio agudo se escondia sob uma camada de gentileza; ele equilibrava isso tão bem que não era fácil de perceber.
Até mesmo Janaína, que era muito sensível, sentiu-se relaxar um pouco sem notar.
— Estamos juntos há tanto tempo e eu nunca perguntei do que você gosta. Acostumei-me a decidir tudo por você, e cada vez que te via aceitar meus presentes com alegria, presumi que você gostasse de tudo.
— Então, Nana, você gosta de verdade?
Janaína manteve a expressão impassível: — Sou como a maioria das garotas, estou na idade de sonhar.
— Nana...
Lucas estendeu a mão, afastando com as pontas dos dedos quentes uma mecha de cabelo de sua testa.
Havia ali uma cicatriz recém-cicatrizada; ele fixou o olhar nela por alguns segundos antes de voltar para o rosto radiante da jovem.
— A pessoa nos seus sonhos sou eu?
Janaína desviou propositalmente do olhar ardente dele e baixou a cabeça com falsa timidez: — O Sr. Lucas parece muito ansioso nesses últimos dias.
Lucas retirou a mão e soltou um riso sem motivo aparente: — Muitas coisas acontecendo ultimamente, realmente há muitos motivos para ansiedade.
— Que tal me contar?
Janaína já havia adivinhado que, se ele estava tão apressado em trazê-la de volta, era porque precisava de algo dela.
Nesse meio ano de casamento, Janaína não foi apenas uma esposa exemplar, foi excelente.
Sempre que o marido precisava dela para eventos sociais, ela se saía muito bem, chegando a conquistar grandes projetos que dificilmente cairiam nas mãos de Lucas de outra forma.
Havia uma razão para ele valorizá-la tanto.
Ela tinha seu valor de mercado; na noite em que se conheceram, ela também resolveu um problema que o afligia há tempos.
Lucas foi direto: — Lembra-se daquele Sr. Roberto da última vez? A esposa dele formou-se na mesma área que você, e vi que vocês se deram bem.
Janaína lembrou-se imediatamente: — Eles estarão no coquetel de depois de amanhã?
— É um coquetel particular com leilão beneficente. É a oportunidade perfeita para estreitarem laços e, quem sabe, marcarem uma partida de golfe.
Janaína endireitou a postura com elegância.
Lucas sorriu e entregou um cartão: — Desta vez não vou decidir por você. Compre o que quiser.
— Obrigada, Sr. Lucas.
Após o café da manhã, Janaína dirigiu o carro novo até sua empresa. Fazia quase um mês que não aparecia, e os documentos em sua mesa formavam uma pequena montanha.
A assistente relatou o trabalho de forma organizada e aproveitou para reclamar: — Chefe, quase fiquei louca de tanto trabalho enquanto você estava fora.
Janaína assinou um documento sem erguer a cabeça: — Bônus em dobro este mês.
A tática foi direta e eficaz; a assistente quase deu pulos de alegria: — A chefe é a melhor! A bolsa que eu estava de olho finalmente vai sair.
Janaína sorriu: — Que bolsa? Mande o link que eu compro para você.
— Ah, imagina, não precisa...
— Deixe de frescura, mande logo. — Janaína pegou o celular e viu uma chamada perdida de Yago, feita há meia hora.
Ela soltou um suspiro, fez a compra da bolsa para a assistente e tratou de mandá-la sair da sala.
Enquanto hesitava se deveria retornar a ligação, o primo de Yago, o primogênito da família Zhao, ligou para ela.
Janaína recostou-se na cadeira e, após hesitar um pouco, atendeu calmamente: — O que fez o grande herdeiro se lembrar de mim?
— Voltei para Xangai e gostaria de convidar a Srta. Janaína para almoçar. Teria essa honra?
— Almoçar? Quando? — Por quê?
Será que ele realmente caiu na rede?
— Pode ser hoje ao meio-dia? Se for conveniente...
Antes que Janaína respondesse, ele continuou: — Também gostaria de lhe apresentar um renomado urbanista. Por coincidência, conheci o Sr. André no aeroporto e nos demos muito bem.
Janaína arqueou a sobrancelha: — Sobre o que conversaram?
— Sobre o seu projeto de revitalização na zona sul. É uma obra grandiosa. Gostaria de saber se a Srta. Janaína já encontrou a equipe de urbanismo ideal.
Janaína fez uma pausa: — Mande-me o endereço, estarei lá pontualmente.
Ele não apenas descobriu que ela era a responsável pelo projeto.
Mas também estava sendo tão solícito em ajudá-la; devia haver algum plano por trás disso, mas o contato que ele oferecia era justamente quem ela procurava.
O almoço estendeu-se até a tarde e, após o término, ele a levou ao seu clube de entretenimento particular, o Ninho da Elite.
Hoje ele vestia roupas discretas, um terno cinza escuro sob medida com um corte mais casual, combinado com tênis brancos. Parecia acessível, mas exalava uma aura de autoridade e a elegância típica de um herdeiro de berço.
Janaína segurava um taco de sinuca de lado, observando-o com a cabeça inclinada enquanto ele se curvava para uma tacada.
Capítulo 36: A segurança de quem é preferido
— Por que tanta gentileza em me ajudar?
Ele pegou a taça de vinho ao lado e brindou com a mão dela, dizendo em tom leve: — Naturalmente, espero obter algumas vantagens de você.
Janaína pensou que ele falaria sobre benefícios no projeto.
No entanto, ele perguntou: — Ouvi dizer que você e o Yago têm estado muito próximos ultimamente?
Janaína deu de ombros: — É mesmo?
Ele deu um gole no vinho e riu: — A Srta. Janaína não dividiu uma suíte com ele em Macau? Ou será que estou imaginando coisas?
Janaína arqueou levemente as sobrancelhas: — Nada escapa de você. Pelo visto, você tem olhos em toda parte em Macau. O grande herdeiro é realmente tão capaz quanto eu imaginava.
— Você me lisonjeia. Por coincidência, eu também sou acionista do hotel onde vocês ficaram.
Ele olhou para ela de lado, com seus olhos de fênix parecendo libertinos e sedutores: — Não quis dizer nada com isso, apenas curiosidade sobre qual é a sua situação com meu primo.
Qual seria a situação? Estava na cara, ele estava perguntando o que já sabia.
Janaína encontrou o olhar dele e deu um sorriso radiante: — Assunto particular, não me sinto à vontade para revelar.
Aquele sorriso dela era muito feminino, sensual mas sem ser artificial.
— Entendo... — Como ela não queria falar, ele não insistiu, apenas disse: — Se você realmente tem uma boa relação com o Yago, eu gostaria de lhe pedir um favor, como retribuição por hoje.
Janaína: — Minha relação com seu primo é comum, não diria que é boa, mas pode falar o que deseja.
Ele cruzou os braços, observou-a por um tempo e, de repente, aproximou-se de seu ouvido: — Ajude-me a encontrar um documento com ele.
Janaína soltou uma pequena tosse de surpresa: — Você quer que eu aja como espiã para roubar documentos confidenciais dele?
— Exatamente, Srta. Janaína.
Janaína soltou uma risada incrédula.
— E se eu não ajudar? Você vai contar fofocas sobre mim para o Lucas?
O tom dele continuou leve: — Não chegaria a esse ponto. Não gosto de ameaças, prefiro parcerias. Creio que a Srta. Janaína seja uma pessoa inteligente.
Enquanto esperava pela consideração dela, ele se curvou e encaçapou uma bola com precisão.
Janaína ficou impressionada com a habilidade dele na sinuca. Sem hesitar muito, disse: — Posso tentar ajudar, mas não garanto cem por cento de sucesso.
Ele sorriu: — Se a Srta. Janaína se empenhar, nada no mundo é impossível.
Outra bola encaçapada.
...
À noite, assim que voltou à mansão, recebeu uma mensagem de Yago ao descer do carro: [Amanhã, às seis da tarde, estarei em Xangai.]
Tão rápido assim?
Justo amanhã à noite ela teria o coquetel; ele realmente escolheu um péssimo momento para voltar.
Janaína teve uma ideia rápida: [Vou preparar um jantar maravilhoso para receber você, mas amanhã à noite tenho um compromisso de trabalho. Quando você chegar, pode comer primeiro, não precisa me esperar.]
Yago: [Que obediente.]
Janaína, sentindo-se como se estivesse caminhando sobre gelo fino, digitou: [Claro, senti tanto a sua falta nesses dias, maridinho~]
Yago: [Quer mesmo se casar?]
Janaína mordeu a ponta da língua e escreveu: [Não vou atrapalhar seu compromisso com a segunda senhorita da família Bianca.]
Yago pareceu ignorar a mensagem: [Então escolheremos um dia para o registro.]
Enquanto Janaína se desesperava, Hugo lhe enviou o que o primo de Yago queria.
Era sobre um grande projeto nas mãos de Yago, envolvendo documentos confidenciais de alguns parceiros.
Se fossem usados com má intenção, a parceria não apenas terminaria, como Yago poderia enfrentar problemas criminais.
Esses dois primos... nenhum poupava o outro.
Os métodos do herdeiro pareciam ainda mais cruéis e decididos.
Assim que Janaína chegou ao quarto, Hugo ligou.
— Ele acha que você odeia o Yago?
— Provavelmente. — Ela não teve coragem de mencionar o ferimento na testa causado por Yago.
— Então vamos ajudar o herdeiro? É realmente uma boa oportunidade para se aproximar dele.
Janaína hesitou um pouco: — Que tal criarmos uma versão falsa? Se formos descobertos, diremos que o Yago é um homem muito vigilante.
Ela estava preocupada que o segredo que haviam obtido já fosse falso; sentia que entrar na casa de Yago daquela forma fora fácil demais.
Se o território dele fosse tão fácil de invadir, ele provavelmente já teria sido estraçalhado no meio dos lobos.
A razão pela qual ela conseguiu entrar em seu território foi porque ele permitiu.
Talvez fosse um teste de Yago para com ela.
Pensar nisso deu um calafrio na espinha de Janaína.
Hugo: — Fechado, faço o que você decidir. Deixe esse detalhe comigo.
Após desligar, Janaína foi tomar banho e, ao sair, Yago ligou imediatamente.
Janaína sentiu-se exausta: — Trabalhei o dia todo, você não está cansado?
— Pensar em você tira o meu cansaço. — A voz de Yago era grave e soava carinhosa. — Quer que eu te conte uma história antes de dormir?
— Quero. — Janaína enfiou-se sob as cobertas e colocou o viva-voz. — Pode falar.
— Vou começar. — Yago iniciou calmamente. — Eu tenho um amigo que se apaixonou por uma garota. Ele queria vê-la todos os dias, então colocou pessoas ao lado dela. Cada passo dela estava sob o olhar dele...
Ao ouvir isso, Janaína interrompeu abruptamente: — Você está dizendo que seu amigo vigiava a garota só porque se interessou por ela?
Yago ficou em silêncio por um momento antes de dizer: — No início não era isso, ele passou a gostar depois.
— E... por que ele começou a espiar a vida dela no início?
Ao fazer essa pergunta, o coração de Janaína saltou à garganta.
A verdade estava prestes a vir à tona, e isso causava uma ansiedade terrível.
Yago soltou um riso profundo. — Estou um pouco cansado, quero dormir. Amanhã à noite eu continuo a história do meu amigo. Seja boa, vou desligar.
— Ei! Yago!
O sinal de chamada encerrada soou.
Janaína rangeu os dentes; quem interrompe uma história logo no início? Nem Sherazade era tão cruel!
Naquela noite, ela teve insônia, virando-se de um lado para o outro até as três da manhã antes de conseguir dormir um pouco.
Na tarde seguinte, assim que terminou o trabalho, Janaína correu para o supermercado.
Yago gostava de frutos do mar; ela até comprou um caranguejo grande, planejando preparar um jantar ocidental farto para ele.
Na fila do caixa, o telefone tocou: era o primo de Yago.
— O meu assunto, já resolveu?
— O seu assunto? — Janaína usou um tom exagerado. — Você deu a ordem ontem à noite; nem um agente de elite seria tão rápido.
Ele tentou negociar: — Não quero te apressar, mas eles vão assinar o contrato amanhã cedo. Veja se consegue hoje à noite...
— Vou me esforçar. Já que você tem sido tão atencioso comigo, saberei retribuir. O Yago volta hoje à noite, não se apresse; quem tem pressa come cru. Espere por boas notícias.
Janaína desligou rápido, pagou, e dirigiu até o condomínio.
Hugo subiu para ajudar.
— Será que ele vai acreditar no que você entregar?
Janaína limpava as patas do caranguejo e soltou um som de desdém.
— Ele provavelmente não teve outra opção a não ser me procurar. O tempo é curto; quando eu enviar os documentos amanhã cedo, ele certamente arriscará tudo diante do patriarca. Se perder, haverá muita gente para segurar a queda dele. Como é mesmo que dizem?
Hugo completou casualmente: — A segurança de quem é preferido. Ele, o herdeiro, tem toda a família Zhao a seu favor. Se ele quiser destruir o Yago, o patriarca apenas cuidará da limpeza.
Janaína suspirou: — Eu disse que o Yago era digno de pena, e não estava errada.
— É, a senhorita nunca erra. — Hugo revirou os olhos. — Ele é realmente um coitado, vai ter que comer o jantar que você fez.
Janaína ignorou o sarcasmo dele, sentindo-se secretamente orgulhosa: — Ouvi ele dizer que gosta de mim ontem à noite.
E foi uma declaração bem sutil.
Yago é realmente muito infantil.
Hugo soltou um fungado frio: — Você não é a única dele.
Foi como um balde de água gelada, acabando instantaneamente com toda a alegria de Janaína.