Capítulo 23: Não é algo glamoroso
— Não se mexa.
A mão grande de Yago desceu pelo braço dela, como se estivesse tentando acalmá-la.
Os olhos de Janaína estavam marejados, sentindo-se humilhada e injustiçada ao mesmo tempo.
Ela não ousou se mover mais, mas as lágrimas escorriam silenciosamente.
— Está com fome? — Yago limpou as lágrimas dela com as costas da mão e respondeu por si mesmo: — Vou te alimentar primeiro.
Janaína comia sem sentir o sabor, aceitando entorpecida a comida que ele levava à sua boca.
Essa "tortura" durou muito tempo antes de terminar.
Janaína saiu do colo dele, suportando a náusea e todo o desconforto. Com calma, pegou um pacote de absorventes da sacola e entrou no banheiro.
Assim que a porta se fechou e a torneira foi aberta, seu estômago revirou violentamente. Tudo o que acabara de comer foi colocado para fora.
Quando saiu do banheiro, Yago já tinha ido embora.
Até o momento em que ela se encolheu no canto do sofá e adormeceu, ninguém mais apareceu no quarto do hospital.
E, claro, o Hugo não voltou.
Lucas realmente quebrou a promessa, exatamente como Yago previra.
Acordando cedo no dia seguinte, Janaína, inconformada, ligou para Lucas.
Ainda estava desligado.
A pequena chama de esperança foi instantaneamente apagada por um balde de água fria.
Yago logo chegou para buscá-la após a alta hospitalar.
Ele trocou de carro; o espaço traseiro era amplo, e o motorista dirigia na frente com uma divisória levantada, garantindo privacidade para eles.
Janaína abraçava uma bolsa de água quente, com uma aparência de quem estava prestes a morrer.
Em meio ao torpor, viu Yago tirar uma seringa e despertou instantaneamente.
— O que você quer fazer?
Yago não lhe deu ouvidos, imobilizando-a contra seu corpo por conta própria.
— Eu não quero, não... Ah!
Não importava o quanto ela resistisse ou gritasse, ele conseguiu o que queria.
Pouco tempo depois, Janaína sentiu que a dor na barriga sumira completamente e sua respiração ficara mais leve.
Ela se lembrou novamente daquele sonho, o sonho em que ela o chamava de Doutor Zhao!
— O que foi exatamente que você me injetou?
Yago guardou o material, encostou-se no banco e disse preguiçosamente:
— Uma injeção analgésica. Fique tranquila, eu ainda não quero que você morra.
Janaína respirava fundo, com o rosto apavorado:
— É sério?
— É sério. — Yago olhou para ela de soslaio e disse suavemente: — Durma um pouco.
Janaína não ousava dormir, estimando que logo chegariam ao aeroporto.
Mas, para sua total surpresa, ele a levou a uma grande mansão em Suzhou.
— O que viemos fazer aqui?
— Não tínhamos combinado de ir para Macau?
Yago passou o braço pelos ombros dela, cruzando o portal juntos para entrar no jardim:
— Recupere sua saúde primeiro antes de irmos.
— Ah...
— Você não vai me fazer fazer nada de errado, vai?
Yago deu um sorriso cínico:
— Se envolveu comigo, com certeza não virá nada de bom.
Janaína estava sem palavras.
Ela realmente se arrependia de ter provocado ele por um impulso momentâneo!
Yago, vendo que ela estava visivelmente irritada, acariciou a cabeça dela como um consolo:
— Vou te levar ao quarto. Descanse bem nestes dias. Quando estiver melhor, eu venho te buscar.
— Como assim? — Janaína agarrou o pulso dele. — Vou ficar aqui sozinha? E você?
A arquitetura ali era clássica e os quartos tinham um ar antigo. Só de imaginar que, à noite, lanternas vermelhas estariam penduradas por dentro e por fora, ela sentia um frio da cabeça aos pés.
Yago arqueou a sobrancelha:
— Você é tão carente assim?
Janaína implorou fervorosamente:
— Todos esses anos eu me acostumei a ter alguém por perto. Por que você não fica aqui comigo?
Independência era uma coisa, mas ela não suportava a solidão, especialmente em um lugar estranho.
Yago riu:
— Quem você acha que eu sou?
— Meu namorado. — Janaína abraçou a cintura dele e disse com voz doce: — Você não é meu namorado?
Essa atitude fez o gelo no olhar de Yago derreter silenciosamente, mas ele permaneceu impassível por fora:
— Comporte-se e fique bem.
Ele retirou os braços dela de sua cintura e entregou-lhe a mala.
Então, virou-se friamente.
Após dar alguns passos, olhou para trás e avisou:
— Não tente fugir, nem tente ligar para ele. Estou te dando uma última chance.
Janaína disse a contragosto:
— E quando você vem?
— Depende do meu humor.
Com essa frase seca, ele partiu de verdade.
Janaína olhou para as pessoas que vigiavam o local; a postura deles era ereta como a de militares.
Parecia que, se tentasse fugir, provavelmente não conseguiria.
Ela empurrou a mala para o quarto e se trancou.
Não sabia quanto tempo dormiu, mas começou a chover lá fora, e o som constante a tirou do sonho.
Ao se virar, colidiu com um corpo quente.
Ela arregalou os olhos de pavor.
O hálito familiar do homem já estava encostado em seus lábios. A língua dele invadiu sem cerimônia, ocupando toda a sua razão instantaneamente.
Nervosa e sem saber o que fazer, Janaína empurrou o peito dele, mas ele envolveu as mãos dela com as dele.
A respiração de Yago ficava cada vez mais pesada.
Ele perguntou com voz rouca:
— Você sabe como se faz?
Janaína hesitou, e em sua mente passaram cenas de séries que vira no exterior.
Ela respirou fundo e perguntou com certa calma:
— O que você disse?
Sua aparência era inocente e confusa, especialmente com aqueles olhos lindos bem abertos, tornando difícil para qualquer um querer destruir aquela pureza.
Yago se conteve à força, levantou-se e começou a trocar de roupa de costas.
Janaína sentou-se na cama e, após um momento, perguntou:
— Por que você voltou?
— O trabalho acabou, então voltei.
Ele falava com indiferença, mas ao olhar para ela — não sabia se era impressão — ele parecia tão gentil naquele momento.
Até mais gentil do que na primeira vez deles.
Janaína deu de ombros timidamente e, antes que pudesse falar, Yago já estava pronto:
— Se arrume e venha jantar.
Ele saiu primeiro, deixando espaço para ela.
Janaína pensava: o que ele queria que ela fizesse em Macau?
Não conseguia imaginar por mais que tentasse.
Ao chegar à sala de jantar, olhou para a mesa farta:
— Comida de Yangzhou... parece quase a mesma de ontem à noite.
A diferença era que, nesta noite, Janaína tinha apetite.
Yago também não parecia tão sombrio e assustador; ele até lhe servia comida com dedicação, alegando:
— Muito magra, a pegada não é boa.
Janaína fez um biquinho, mas não foi cerimoniosa. Ao dar a primeira mordida em uma almôndega de siri, lembrou-se de repente:
— Você não me envenenou, né?
Yago soltou um riso frio:
— Eu precisaria de todo esse esforço para te matar?
— Ah...
Essa frase era arrogante, mas combinava estranhamente com a imagem de rebelde que ele passava.
Janaína ainda não se adaptara totalmente; afinal, quando ele fora à casa dela para seduzi-la no início, ele parecia um "oppa" cheio de energia solar.
No entanto, ela caiu na dele não por causa das roupas.
Uma semana se passou num piscar de olhos.
Janaína viveu muito bem ali; pelo menos sua saúde melhorou bastante.
Assim que Yago viu que o semblante dela melhorara, levou-a imediatamente para o aeroporto.
Duas horas depois, pousaram em Macau.
Primeiro, foram para o hotel descansar.
Janaína puxou a manga dele, com uma ansiedade latente:
— Você não está me enganando, né? Na verdade, se o Hugo sai ou não, não é algo que você controla, certo?
Yago segurava uma taça de vinho tinto. Antes de beber, soltou uma gargalhada.
— Perguntar isso só agora não seria um pouco tarde, Senhorita Huan?
Aquele "Senhorita Huan" soou carregado de deboche.
Janaína ignorou o apelido e repetiu:
— Você realmente me enganou?
A taça de vinho foi batida na mesa, e o corpo robusto de Yago avançou sobre ela.
Ele prendeu as mãos dela contra o encosto do sofá com agilidade; o aroma masculino avassalador tomou conta de tudo.
— Hum...
Yago a beijou até deixá-la tonta e com os membros dormentes, só parando para deixá-la respirar.
Ele roçou o dedo na bochecha vermelha dela e riu:
— Pretende morrer sufocada?
Janaína ainda recuperava o fôlego:
— Por que o Lucas não atende minhas ligações?
— Você deveria perguntar pessoalmente a ele. Quer apostar? Aposte que não menti. Assim que você fizer o que eu pedi, trarei o Hugo para a sua frente imediatamente.
Sob a coação e a tentação dele, Janaína perguntou ansiosa:
— O que é que eu tenho que fazer?
Ela tinha um mau pressentimento; sentia que não seria algo glamoroso.
E, de fato, ele disse:
— Vá se aproximar do meu irmão mais velho, o Heitor.
Capítulo 24: Esposa do primo
Janaína começou a tossir violentamente.
Ela não tinha certeza:
— Por que eu tenho que me aproximar do seu irmão?
Nas pupilas profundas de Yago, ela via claramente o quão chocada sua expressão estava.
Yago olhou para ela:
— Você se aproximou da Helena, será que não tinha nenhuma intenção em relação a ele?
Janaína ficou momentaneamente sem palavras:
— ...
Como ela poderia ter intenções em relação ao Heitor?
— Me aproximar dele para quê?
— O que você quer que eu consiga dele para você?
Yago disse pausadamente e com desdém:
— Tornar-se uma boa amiga.
Janaína: — ...
— Por que eu?
Ela pensou em algo e se assustou novamente:
— Ele tem noiva. Você não quer que eu separe ele da Beatriz para você tomar o lugar dele, quer? Não seria tão fácil assim, você está sonhando alto demais.
— Então, você não quer?
Ele continuou: — Se não quer, então volte para o buraco de onde saiu.
Janaína usou toda a sua força para empurrá-lo e se levantou.
Yago inclinou levemente a cabeça, o contorno de seus olhos transmitindo desleixo. Após um instante, um leve sorriso surgiu em seus lábios:
— Isso é tão simples para você. A prática leva à perfeição, assim como quando você me seduziu.
Janaína deu um sorriso forçado e então chorou de raiva.
...
Nove da noite, as luzes do restaurante francês estavam baixas.
Após o jantar, Janaína estava retocando o batom no espelho de mão.
Yago não esqueceu de avisar:
— O Heitor frequenta lugares de diversão há anos. Mulheres muito maquiadas não despertam necessariamente um interesse especial nele.
Janaína parou por um momento. Ela olhou para o vestido longo de cintura marcada vermelho-tijolo que estava usando, de estilo clássico e elegante.
Foi o próprio Yago quem escolheu para ela.
Era bonito, mas era a primeira vez que ela se vestia assim para ir a uma casa noturna.
— O que você quer dizer? — Ela não entendia. — Seu irmão não gosta de qualquer mulher bonita?
Yago riu impiedosamente:
— Não faltam mulheres perto do meu irmão. Apenas homens desesperados aceitam qualquer uma. O que você acha?
Janaína soltou um "humph" de desprezo:
— É claro que eu sei que você e seu irmão são diferentes.
Isso era uma ironia sugerindo que Yago era o desesperado.
O irritante era que essa frase não o abalou. Yago disse sem mudar a expressão:
— Depois que comecei a namorar a Senhorita Janaína, as outras mulheres parecem não ter sabor nenhum para mim.
Além de não conseguir irritá-lo, ela ainda foi flertada.
Janaína prendeu a respiração e então deu um sorriso gélido:
— Você realmente se esforça muito para subir na vida, hein?
Ela baixou a cabeça para continuar a maquiagem, parando de olhar para aqueles olhos frios e desleixados.
Saindo do restaurante, Janaína caminhou sozinha de salto alto até a casa noturna que ficava a apenas cem metros.
Alguém a parou na porta.
— Com licença, senhorita, tem reserva?
Janaína perguntou timidamente:
— Posso entrar sem reserva?
O garçom disse sem jeito:
— Desculpe, esta noite não estamos abertos ao público.
Janaína olhou para trás, para Yago, que fumava encostado na mureta da calçada. A luz amarelada do poste tornava sua figura alta ainda mais despojada.
A brasa vermelha brilhava em seus dedos, delineando vagamente o perfil de um homem naturalmente insensível.
Ele era realmente podre até a alma.
Sem receber resposta dele pelo fone de ouvido após um tempo, Janaína franziu a testa e lançou-lhe um olhar furioso.
Assim que ela se virou de volta, um estrondo de motores de carros esportivos surgiu atrás dela.
Antes que pudesse reagir, o garçom que falava com ela já tinha passado por ela para recepcionar os recém-chegados com subserviência.
Janaína se virou e, instintivamente, deu um passo para o lado.
Vários carros superesportivos de cores chamativas pararam na porta, cada placa ostentando um status inquestionável.
Em seguida, o homem vestindo um terno azul-claro foi cercado ao descer do carro.
Os playboys que desciam dos outros carros se aproximaram entusiasticamente. Antes mesmo de entrarem na casa, já havia gente ansiosa para lhe oferecer mulheres.
Uma mulher alta, vestindo um vestido longo tom de pêssego, foi empurrada para os braços de Heitor.
— Aceite este presente, Heitor.
A mulher em seus braços, com um olhar sedutor, chamou-o de forma dengosa e respeitosa:
— Heitor...
Isso arrancou uma risada dele:
— Que voz linda.
Janaína observava essa cena decadente, trocando olhares distantes com o homem que fumava sozinho encostado na mureta. Parecia que, no mesmo espaço, existiam três mundos diferentes.
O pior era que ele e Heitor tinham semelhanças físicas, especialmente aquele ar de libertino, o que era realmente irritante.
Janaína tomou coragem e, no momento em que eles atravessavam a porta, correu e colidiu exatamente com Heitor.
Com apenas um toque, ela caiu.
Nesse momento, o barulho cessou por um instante.
Quem falou primeiro, repreendendo-a, foi o amigo que oferecera a mulher a Heitor:
— De onde veio esse cachorro sem olhos?
Heitor parecia um pouco confuso; geralmente, nessas horas, ele não precisava falar para resolver obstáculos.
Bastava ele franzir a testa para que alguém limpasse o caminho.
Janaína estava meio prostrada no chão. Ao erguer o olhar, seus olhos suplicantes encontraram perfeitamente o olhar de Heitor que a observava de cima.
Ele visivelmente parou.
O amigo falou de novo:
— Expulsem ela logo daqui. Se estragar o humor do Heitor, nenhum de vocês vai aguentar as consequências...
Vendo os guarda-costas se aproximando, Heitor, que costuma esquecer rostos de mulheres, finalmente se lembrou:
— Esperem um pouco.
O coração do amigo apertou. Ele viera ali para agradar Heitor com mulheres e conseguir fechar um projeto.
Ele sentia uma hostilidade enorme em relação àquela mulher que aparecera do nada.
— Heitor, essa vagabunda apareceu do nada, deve ter segundas intenções...
Antes que terminasse, um tapa foi desferido em seu rosto publicamente.
Ele ficou aterrorizado: — Heitor, o que é isso...
Heitor nem olhou para ele. Soltou a mulher que abraçava, deu dois passos à frente e se agachou:
— Esposa do primo?
Janaína se apoiou para levantar: — Primo?
— É você mesmo! O que faz em Macau? — Heitor apressou-se em ajudá-la a levantar. — Puxa, devia ter avisado antes, eu te receberia muito bem.
Na verdade, Janaína só o vira duas vezes, ambas em jantares de família na casa dos Lucas.
— Não fique aqui parada, vamos entrar.
Heitor abandonou o grupo atrás de si sem hesitar, guiando Janaína pessoalmente para dentro:
— Não ligue para eles. Aquelas pessoas não têm noção quando falam, nem sei quem são.
Janaína forçou um sorriso irônico.
Heitor a levou para uma sala de videokê vazia. Ele bateu na parede, e as luzes de neon brilharam, deixando tudo meio turvo.
Logo, garçons trouxeram bebidas e frutas.
Heitor, com as mãos nos bolsos, preparava-se para sair:
— Os amigos da esposa do meu primo devem estar chegando, não? Deixei tudo organizado, vocês vão se divertir muito aqui.
Janaína ergueu a cabeça: — Primo, eu vim sozinha.