Capítulo 21: Sente-se aqui, perto de mim
Janaína acabou de sair do banheiro e viu o homem sentado no sofá, manuseando as marmitas com calma e elegância.
Ele exalava o temperamento frio e sofisticado de um herdeiro de família rica; cada gesto seu parecia ser cuidadosamente estudado.
Ela parou de repente. "Sr... Sr. Lucas, foi você quem me entregou o absorvente agora há pouco?"
Foi o próprio Lucas quem bateu à sua porta, não foi ela quem o procurou.
Janaína dizia isso a Yago em pensamento enquanto se aproximava.
"Fui eu. Venha, Jana, acompanhe-me no café da manhã."
Janaína segurou a barriga e sentou-se à frente dele, passando os olhos pela mesa farta, mas não tinha apetite nenhum.
Uma pena.
"A dor está muito forte?"
Lucas colocou um copo de água morna com mel à sua frente.
Janaína queria beber, mas não ousava se mexer; sua expressão congelou.
Lucas então despejou um pouco da água em outro copo e bebeu.
Só ao ver que ele também bebia é que Janaína se sentiu segura para tomar a bebida.
Lucas deu um sorriso silencioso. "Você deve ter comido muita porcaria na rua este mês, não é? Veja só como está sofrendo de novo com essa cólica."
Janaína sentiu um misto de emoções.
Ela saíra de casa aos cinco anos e vira pouco os pais; era independente, e a pessoa que mais a acompanhara fora o Conrado.
Um homem como Lucas lembrava muito o seu irmão.
Não era que ela nunca tivesse sentido algo por ele, mas a história entre as famílias falava mais alto.
Anos atrás, em cartas enviadas por Conrado, ele mencionara que, para se proteger, a família de Lucas fora a primeira a expor o pai dela.
Mas que papel seu pai desempenhara nisso tudo, Conrado nunca detalhou.
Por isso, Janaína nem sabia se seu pai era um homem bom ou ruim.
A pena de Conrado não era longa, e ele deveria ter saído no final deste ano.
No entanto, no ano passado, veio a notícia de que ele havia se suicidado na prisão.
O copo de água com mel não aliviou a dor em sua barriga.
Lucas a fez comer algumas colheradas de mingau antes de permitir que ela tomasse o analgésico.
Janaína enrolou-se em um cobertor e foi para o sofá perto da janela. Vendo que ele não pretendia ir embora, perguntou:
"Vocês não brigaram por minha causa ontem à noite, não é?"
Ao ouvir isso, Lucas levantou o olhar do tablet, pensou por um momento e respondeu calmamente: "Não brigamos."
"Que bom. Não quero que a relação de vocês seja afetada por mim." Janaína forçou um sorriso. "Quando o meu pessoal poderá sair?"
Lucas rebateu: "Qual é a sua relação com ele?"
A pergunta a pegou de surpresa.
Após um breve choque, a mentira saiu naturalmente: "Ele é meu primo. Perdeu os pais quando era pequeno, somos muito próximos e ele sempre me acompanhou."
"Seu primo?"
"Sim. Você nunca perguntou antes, e eu não achei necessário comentar."
A névoa no semblante de Lucas se dissipou. "Parece que eu pensei demais."
Janaína insistiu: "Pensou o quê?"
"Achei que ele estivesse apaixonado por você."
Janaína soltou um riso nasalado. "O Sr. Lucas realmente não se importa muito comigo, não é?"
Na época em que iam registrar o casamento, ele nem sequer exigiu conhecer os pais dela.
Não mencionava nada do passado dela; casou-se com ela em menos de um mês de conhecimento, de forma confusa.
Não era de se estranhar que todos no círculo social dissessem que ela era uma aproveitadora de elite que havia enfeitiçado Lucas.
Agora, parecia que este grande herdeiro se casara com ela apenas para provocar a terceira senhorita da família Zara.
Lucas perguntou novamente, de forma inesperada: "O que seria se importar com você?"
Janaína ficou sem resposta e devolveu a pergunta: "Pergunte a si mesmo: quanto de sinceridade houve ao se casar comigo?"
De repente, o quarto mergulhou no silêncio.
Aquele par de olhos negros profundos ficou fixo nela.
Janaína não conseguia ler os pensamentos dele.
Depois de muito tempo, Lucas falou: "Tente dormir um pouco."
"Sim."
Talvez pelo efeito do remédio, a dor diminuiu e ela logo adormeceu.
Ao acordar, sentiu o aroma de comida e não pôde evitar engolir em seco.
Assim que abriu os olhos, viu Lucas acenando para ela. "Venha comer."
Incapaz de resistir à tentação, ela foi até ele enrolada no cobertor.
"Você não vai ficar aqui o dia todo me acompanhando, vai?"
Lucas respondeu: "Fico para você não se entediar. Vou esperar seu primo voltar antes de ir."
"Ele sai hoje?"
"Sim, à tarde. Durma mais um pouco; quando acordar, poderá vê-lo."
O mingau que ele servira estava fumegante, e o coração de Janaína também se aqueceu.
Ela sorriu levemente. "A mulher que se casar com o Sr. Lucas será muito feliz."
A mão de Lucas parou por um instante. "E você, foi feliz?"
Janaína deu de ombros com indiferença. "A felicidade já se afastou de mim há muito tempo."
O olhar de Lucas escureceu e ele disse subitamente: "Sente-se aqui, perto de mim."
Janaína não recusou. Como no início do casamento, sentou-se ao lado dele para ser alimentada.
Não era por mimo, mas porque Janaína não tinha o hábito de comer nos horários certos naquela época.
Lucas trazia a comida pessoalmente e a alimentava colher por colher, enquanto ela mexia no celular distraída.
Desta vez, ela não estava no celular; seus olhos brilhavam e ela o encarava sem piscar.
...
As portas do elevador se abriram.
O assistente viu o homem saindo com uma sacola térmica na mão.
Yago lançou-lhe um olhar: "A pequena chorou de dor?"
"Ela..."
"Hum?" Yago levantou a sacola. "Fiz uma porção para você também, entre para comermos."
"A senhorita Janaína está com o Sr. Lucas agora."
Yago estacou. Um sorriso surgiu em seus lábios, mas sua expressão era indecifrável. "Já comeram?"
"Sr. Yago..."
Antes que ele terminasse, Yago seguiu em frente.
A porta do quarto não estava totalmente fechada, permitindo ver tudo lá dentro.
Yago esperou até que Lucas recebesse uma ligação e saísse apressadamente. Foi só ao pôr do sol que ele finalmente empurrou aquela porta.
Capítulo 22: Ainda fará falta mais um?
Ao ouvir o som da porta, Janaína acordou sobressaltada de um sonho, ofegante.
Sentou-se na cama e chamou ansiosamente: "Hugo..."
Tinha que ser o Hugo de volta!
Assim que seus pés alcançaram os chinelos, a figura alta e robusta de Yago surgiu diante dela.
Seu coração pareceu ser apertado com força.
A dor fez sua respiração falhar por um segundo.
"Você..." Ela conteve a pergunta "por que voltou de novo?" e disse em vez disso: "Trouxe o jantar para mim?"
Ela forçou a voz para parecer animada.
Yago tinha uma expressão difícil de definir. Colocou as coisas sobre a mesa e sentou-se no sofá com uma aura arrogante e prepotente.
Cruzou as pernas e a observou com um olhar que ela nunca vira antes.
O brilho avermelhado do entardecer iluminava seu rosto bonito, mas sombrio e implacável.
Totalmente fora de contexto.
Janaína virou-se para fechar as cortinas e ouviu a voz grave dele vindo de trás:
"Parece que o Sr. Lucas te decepcionou de novo?"
Janaína quase se engasgou com a própria saliva e negou rapidamente: "Eu juro que não tentei causar piedade. Ele veio por conta própria, este hospital é dele, ele vem quando quer e eu não tenho como recusar, não é?"
A luz no quarto ficou subitamente turva. Janaína levou um tempo para se adaptar e enxergar a expressão do homem no sofá.
Sombria e desprovida de qualquer emoção.
Yago descruzou as pernas e inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nas coxas e deixando as mãos caírem entre as pernas.
A ponta da cortina balançava ao vento e, entre sombras e luzes, Janaína viu um canto de sua boca se elevar.
O sorriso, porém, não chegava aos olhos.
"Não tem como recusar..." Ele repetiu as palavras dela e fez um sinal com o dedo. "Venha aqui."
"Não!" Janaína subitamente perdeu a paciência. "Yago, não me importa o que você quer, mas o Hugo é inocente nesta história!"
Ela respirou fundo após o grito.
O esforço a deixou tonta e ela quase perdeu o equilíbrio.
Yago parecia não ter tido reação.
Janaína, por outro lado, suspirou aliviada internamente. "Qual é o seu objetivo ao se aproximar de mim?"
Ele elevou o tom: "Venha aqui."
Janaína deu um passo à frente instintivamente, mas recuou no segundo seguinte.
"Não sou uma bola para ir rolando."
Yago riu. "Então venha rastejando."
Aquilo era um insulto óbvio.
A teimosia de Janaína aflorou; ela se recusava a ir.
A paciência de Yago estava no limite. "Vou contar até três. Você, Janaína, vai se agachar com as mãos na cabeça, ou a culpa pela morte do garotinho cairá sobre o Hugo."
"Três!"
Sua voz soou como uma ordem urgente, causando pânico instantâneo.
Janaína pegou o celular às pressas e discou para Lucas.
Ela não acreditava que Yago pudesse distorcer os fatos dessa maneira.
"Dois!"
A contagem tornava-se mais urgente, mas a ligação caiu na caixa postal.
Em mais de seis meses conhecendo Lucas, era a primeira vez que o telefone dele estava desligado.
No auge do desespero, a voz intimidadora soou novamente: "Janaína, você ainda não entendeu a situação?"
Ele disse pausadamente: "Eu sei tudo sobre você."
Foi como se um raio tivesse atingido a cabeça de Janaína.
Ele disse que sabia de tudo, inclusive o motivo de ela ter voltado para esta cidade!
Conrado a avisara repetidamente para não revelar sua identidade real a ninguém, e muito menos voltar para cá sem a permissão dele.
Caso contrário, correria risco de vida.
Naquele momento, Janaína realmente entrou em pânico.
Quase antes de Yago chegar ao "um", ela caiu de joelhos diante dele, embora a intenção fosse apenas agachar.
Yago curvou os lábios em um sorriso frio, talvez satisfeito. Inclinou-se para trás e cruzou as pernas novamente.
Havia diversão em seu olhar.
Sendo observada daquela forma, de cima para baixo, Janaína baixou a cabeça humilhada, apertando a calça com força.
Ele levantou a perna cruzada e a ponta de seu sapato de couro ergueu o queixo dela com facilidade.
"Já que você não consegue recusá-lo, que tal eu te levar para outro lugar por um tempo?"
Soava como se estivesse pedindo a opinião dela, mas o tom não admitia recusas.
Janaína engoliu o desconforto. "Para onde quer me levar?"
"Macau."
"Tão longe? Por quê?"
Yago não respondeu de imediato. Descruzou as pernas, estendeu o braço longo e agarrou a nuca dela, puxando-a para perto com força.
Janaína foi forçada a ficar entre as pernas dele, olhando para cima e encontrando aquele olhar sombrio.
Sem ter onde colocar as mãos, ela as apoiou nas pernas dele, tocando o tecido da calça social, sem ousar relaxar.
A polpa do dedo quente de Yago roçou os lábios delicados dela.
Uma dor ardente espalhou-se instantaneamente pelos lábios.
Janaína franziu a testa. "Eu aceito, mas quero ver o Hugo hoje à noite!"
O sorriso de Yago era de puro deboche. "Primeiro, aceite ser minha namorada."
Janaína estranhou: "... Namorada?!"
Por que não pedira isso antes?
Yago completou: "Uma namorada que esteja disponível sempre que eu chamar."
Janaína entendeu imediatamente e disse irritada: "Você tem tantas amantes para levar para a cama, ainda fará falta mais uma?"
Yago riu baixo. "Vocês descobriram bastante coisa sobre mim, hein?"
"Ah..."
Janaína removeu a mão dele que ainda tentava acariciar seus lábios e forçou um sorriso. "Quem não conhece a fama do Sr. Yago? Não é preciso esforço nenhum, basta perguntar a qualquer um para saber de quase tudo."
Antes ela não acreditava, mas agora via que fora ingênua. Pelo caráter de Yago, os boatos tinham alta credibilidade.
Yago ouviu sem demonstrar emoção e apontou com o queixo para o notebook de Hugo, que estava de lado.
"E além do que você ouviu?"
O olhar de Janaína ficou sério e ela mudou de assunto rapidamente: "Qualquer coisa, eu aceito qualquer coisa, desde que o Hugo saia em segurança. Eu te imploro, Sr. Yago."
Yago sentiu uma pontada de irritação ao ver aquela expressão de sacrifício no rosto dela. Inclinou-se para trás e franziu a testa. "Vá para Macau primeiro e resolva um assunto para mim. Se conseguir, eu te trago de volta."
"E então, permitirei que se reúna com o Hugo."
"Que assunto? Quanto tempo vai levar?"
Assim que as palavras saíram, Janaína percebeu que havia caído na armadilha dele.
Yago respondeu: "Quanto tempo vai levar dependerá apenas da sua capacidade."
Janaína baixou a cabeça e assentiu mecanicamente. "Sobre o Hugo, se você não interferir, aceito fazer qualquer coisa que me pedir."
Yago perguntou friamente: "Até morrer, se for preciso?"
Janaína mordeu os lábios rosados e, antes que pudesse falar, foi puxada bruscamente para o colo dele.