Capítulo 17: Sombras ambíguas
O telefone de Lucas tocou logo em seguida.
— Jana...
Ele parecia como naquela manhã, hesitante, com as palavras presas na garganta.
Janaína teve paciência e esperou que ele continuasse.
Passaram-se dois minutos inteiros até que Lucas falasse novamente:
— O Yago foi te procurar?
Janaína: — ...
Era isso que importava para ele?
Em meio a um assunto tão sério, era apenas com isso que ele se preocupava?
No vídeo que ela enviara, aparecia apenas o pulso de Yago, mas ele usava um relógio Jacob & Co. Astronomia Dragon, avaliado em milhões, com um dragão dourado muito chamativo no mostrador.
Janaína soltou um riso sarcástico e, forçando uma voz chorosa e manipuladora, disparou:
— A culpa é minha. Se eu dirigisse com mais cuidado, você não precisaria se preocupar comigo, e muito menos eu teria atrapalhado a sua noite maravilhosa com a senhorita Zara na nossa antiga casa.
Enquanto falava, ela fungou teatralmente, como se estivesse prestes a desabar em lágrimas.
— Mesmo que ela me envenenasse até a morte, eu só poderia culpar a minha própria má sorte.
— Chega — Lucas a interrompeu com a voz pesada. — Eu mesmo irei atrás do Yago para pegar o vídeo e entregá-lo à polícia para perícia. Se for real, ela pagará o preço por isso.
Seu tom era grave e pausado, e Janaína sabia que, quando ele falava daquela maneira, não estava brincando.
Ouviu-se um estalo, como o de um isqueiro, e Lucas continuou:
— Jana, vivemos em uma sociedade de leis. Tirar uma vida não é algo trivial; nem mesmo o homem mais poderoso do mundo escaparia da justiça.
Janaína apertou os dedos.
— Tudo bem. Espero notícias suas.
Ele parecia querer dizer algo mais, mas Janaína já havia desligado.
"Nem mesmo o homem mais poderoso do mundo escaparia da justiça."
Os verdadeiros culpados também não escapariam!
Esperou até o cair da noite, mas Hugo não apareceu.
O advogado disse que a situação era complicada, a polícia estava investigando a fundo e ele não voltaria hoje. No entanto, havia uma grande chance de ele ser liberado após as vinte e quatro horas.
Desde que voltara ao país, Janaína nunca ficara sem contato com Hugo por mais de oito horas. Ela sentia-se perdida, sem rumo.
Sob forte ansiedade e após passar o dia inteiro sem comer, sua visão começou a embaçar.
Depois de muito pensar, decidiu sair para comer algo. Colocou chapéu e máscara, saindo do hospital totalmente disfarçada.
Havia um restaurante japonês ali perto.
Só depois de comer bem é que ela sentiu que voltava à vida.
O problema foi ter comido demais; seu estômago começou a doer levemente. Janaína correu a uma farmácia, comprou dois comprimidos e os engoliu.
Ao sair da farmácia, avistou imediatamente um homem e uma mulher não muito longe.
A luz dos postes tornava a silhueta deles ambígua.
Pelas sombras no chão, o homem envolvia os ombros da mulher e, com a cabeça inclinada, parecia beijá-la apaixonadamente.
— Ainda bem que você apareceu para me salvar, senão eles teriam me obrigado a beber até cair.
Yago respondeu em tom irônico:
— Quem se atrever a obrigar a senhorita mais velha da família Zara a beber, provavelmente não quer mais viver nesta cidade.
Ele olhou casualmente para a esquerda e seu olhar fixou-se na pequena figura que atravessava a rua apressadamente.
E Zara estava logo ali, do outro lado da rua, esperando por ela.
As sobrancelhas de Yago se contraíram imperceptivelmente. Ele nem sequer desviou o olhar quando a acompanhante segurou seu braço de forma íntima.
Era a segunda vez que ele permitia tal proximidade; a primeira fora na residência da família. Sob o efeito do álcool, a mulher não resistiu e tentou seduzi-lo:
— Yago, bebi um pouco demais hoje e não quero ir para casa. Que tal se...
Yago voltou-se e olhou para o assistente que esperava ao lado do carro.
O assistente, recebendo a ordem silenciosa, correu imediatamente atrás da pequena figura.
— Vou pedir ao motorista que te leve de volta ao condomínio.
Yago soltou o braço, tirou um maço de cigarros do bolso, colocou um na boca e o acendeu.
Ao exalar a fumaça, aproveitou para observar a situação do outro lado da rua.
A mulher lançou-lhe um olhar irritado:
— Eu não quero voltar para condomínio nenhum.
Yago soltou um anel de fumaça, pisando preguiçosamente na própria sombra.
— Marquei de tomar chá com a sua segunda irmã amanhã cedo. Já está tarde.
Ao ouvir o nome de sua irmã, ela ficou ainda mais furiosa:
— Aquela ali só pensa em trabalho, nunca se arruma, não tem um pingo de feminilidade e é extremamente rígida. Quem casar com ela não terá prazer nenhum na vida.
Yago olhou para ela, estreitando os olhos. A luz do poste iluminava a indiferença em seu olhar.
— Se eu nunca tentei, como vou saber o sabor?
A mulher, subitamente enfurecida, agarrou o colarinho dele:
— Yago, escute bem: EU sou a herdeira da família.
Yago, sem pressa, levou o cigarro aos lábios e exalou uma nuvem azulada.
Seu olhar era provocador, mas desprovido de qualquer interesse real.
Ele sacudiu a cinza do cigarro, removeu a mão que segurava sua gola e disse com desdém:
— Eu sempre guardo as palavras da senhorita.
Capítulo 18: Você é fraca demais
Assim que chegou ao outro lado, Janaína deparou-se com Zara parada a menos de dez metros.
Era óbvio que ela estava ali por sua causa.
Como estavam na rua, embora houvesse pouca gente, Janaína achou que ela não se atreveria a causar um escândalo.
Para sua surpresa, Zara tirou as luvas e avançou com a mão erguida para desferir um tapa.
No entanto, o golpe não atingiu o rosto de Janaína; um pedestre apressado esbarrou nela, desviando o impacto.
— Ah!
Zara quase caiu, sendo amparada pelos guarda-costas que vinham logo atrás.
Janaína recuou instintivamente, sem esquecer de agradecer com um aceno ao pedestre que a ajudara.
Ainda existiam pessoas boas no mundo.
Janaína disse com ironia:
— A senhorita pretendia me agredir?
Zara recompôs-se e avançou sobre seus saltos altos, parecendo não querer desistir. Com a luz do poste às suas costas, seu rosto estava na sombra, mas o som firme de seus passos revelava sua fúria.
Janaína recuou sucessivamente, prestes a dar meia-volta e correr.
Subitamente, Zara parou e disse:
— Você entendeu errado. Só queria perguntar: quando você terá tempo de buscar as tralhas que deixou na casa do Lucas?
Janaína curvou os lábios.
— Não quero mais nada daquilo. Se você gosta, fique com tudo ou mande jogar fora.
O que ela deixara para trás eram apenas coisas que Lucas comprara para ela.
Não era que ela não quisesse levar, mas ela detestava o estilo daquelas bolsas e roupas.
Lucas provavelmente a tratava como uma princesinha; quase tudo o que ele comprava era em tons de rosa.
Mas Janaína nunca tivera esse tipo de gosto romântico ou infantil.
— Realmente não quer nada? — O tom de Zara era estranhamente ameno. — Você não quer voltar para ele?
Janaína foi direta:
— Eu não gosto dele, e gosto menos ainda das coisas que ele me dá...
Antes que terminasse a frase, uma mão pousou em seu ombro direito, pregando-lhe um susto terrível. Por reflexo, ela desferiu uma cotovelada para trás com toda a força.
A pessoa não desviou, apenas soltou um gemido abafado de dor.
Janaína ergueu os olhos e encontrou o olhar sombrio e dolorido de...
— ... Lu... Lucas?
Ela tratou de afastar a mão dele de seu ombro.
— Por que você saiu do hospital? — Lucas parecia não ver Zara; seu olhar gentil estava voltado apenas para Janaína.
Janaína sentiu o coração acelerar de pavor.
— Saí para comer algo.
— Eu te levo de volta.
Janaína recusou sem hesitar:
— Eu posso ir sozinha, não se incomode. A senhorita Zara está esperando por você.
Dito isso, ela não parou mais e saiu correndo.
Quando ela já estava longe, Zara aproximou-se do homem.
— Você ouviu tudo, não ouviu?
Lucas afrouxou a gravata e disse friamente:
— Eu sempre soube que ela não gostava de mim.
Zara riu com escárnio:
— Sabia e mesmo assim casou com ela?
Ele olhou para cima e sorriu levemente.
— Eu pensei que, com o tempo, ela acabaria me amando.
Zara: — ...
...
Janaína correu todo o caminho de volta ao hospital, ficando completamente sem fôlego.
Com os membros doloridos e quase sem forças para ficar de pé, ela entrou no quarto e desabou na cama.
Pensava que, depois desta noite, teria que deixar o hospital assim que terminasse os exames de amanhã.
Entre sonhos e realidade, pareceu ouvir alguém abrir a porta.
Ao virar-se, viu pela visão periférica uma silhueta agressiva projetada na parede branca.
Os olhos de Janaína se estreitaram e, sem hesitar, ela agarrou o cobertor e saltou da cama.
Quando viu quem era, a faca que vinha em sua direção atingiu violentamente o colchão.
A lâmina brilhava com um corte afiado; se a tivesse atingido, a dor teria sido terrível.
— Eu vou te matar para vingar o meu neto!
— Não fui eu quem colocou o veneno! Acalme-se...
Mas a idosa não lhe deu chance de defesa. Ela brandia a faca como uma louca, determinada a matá-la a qualquer custo.
Janaína entrou em pânico total; não havia para onde fugir no quarto.
A única opção seria a janela.
Mas aquele era o andar VIP, no topo do prédio!
— Morra!
Janaína esquivava-se freneticamente, gritando por socorro.
De repente, seu colarinho foi agarrado firmemente e ela foi prensada contra a parede.
Ela não conseguia entender como uma senhora tão idosa podia ter tanta força. Fechou os olhos em desespero:
— Não fui eu, não fui eu...
— Vá para o inferno!
— Ah!
Janaína estremeceu por inteiro.
Mas a dor esperada não veio. Em vez disso, ouviu-se um baque surdo, seguido pelo grito da idosa.
Ela abriu os olhos rapidamente e viu a mulher caída no chão, gemendo de dor.
— Lucas! — Ao ver as calças de terno impecáveis, pensou que ele a salvara.
Ao subir o olhar, surpreendeu-se:
— Yago... é você?
Ela estava ajoelhada no chão, ainda em choque.
Se o salvador tivesse chegado um segundo mais tarde, ela teria sido esfaqueada.
Yago pousou a mão sobre a cabeça de Janaína, olhando-a com um profundo desprezo:
— Você é fraca demais. Não consegue nem lidar com uma velhinha.