《Entre Lobos: A Herdeira Rejeitada》Capítulo 2

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A mansão dos Cavalcanti na Vila dos Horizontes tinha cinco andares. Os quartos de Alice e Henrique eram vizinhos, dividindo o terceiro andar. Mas a separação não era total; havia uma passagem interna que levava ao quarto ao lado através do closet dela.

Ninguém sabia dessa interligação, exceto Alice e Henrique.

Embora o irmão mais velho estivesse fora, Alice sabia que ele costumava cozinhar e que a geladeira dele estava sempre cheia.

Ao entrar no closet, as luzes se acenderam em camadas, revelando vestidos de alta costura e joias de ambos os lados. Um gatinho branco estava deitado sobre um vestido azul-claro, dormindo. Ao ouvir a porta, ele acordou e olhou para ela.

Ao vê-la, o gato se levantou e começou a miar, parecendo ansioso. Mingau era um gato que Henrique resgatara anos atrás. Na noite anterior, enquanto ela discutia com os pais, ouvia Mingau chamando por ela através do closet. Ele não tinha saído dali.

Alice o pegou no colo. "Você ainda está aqui?"

"Vou procurar algo para comer no quarto do seu pai."

Alice foi até o fundo do closet e viu que a porta giratória do armário tinha sido deixada com uma fresta pelo gato. Ao empurrar a porta, ela entrou no quarto de Henrique.

Apenas uma parede de distância, e o estilo era completamente diferente do dela. Exatamente como ele.

Alice entrou carregando Mingau e foi imediatamente envolvida pelo tom frio e sóbrio de cinza e preto. O ambiente parecia exercer uma pressão silenciosa sobre ela. Alice prendeu a respiração. Talvez pelo fato de Henrique estar fora há tanto tempo, o quarto parecia gélido e impessoal, aumentando a sensação de autoridade e distanciamento.

Ele estava em São Paulo há quase um mês. Logo que ela se formou e voltou para casa, ele recebeu o convite para ser professor convidado e expandir os negócios do grupo na capital paulista. Ela não sabia quando ele voltaria.

Mas não estava com pressa. Só esperava que ele não voltasse enquanto ela estivesse roubando sua comida.

Alice foi até a pequena cozinha da suíte, colocou Mingau no chão e escolheu cuidadosamente uma caixa de macarrão instantâneo na geladeira. Feliz, arregaçou as mangas, ferveu a massa e aqueceu o molho.

Nesse exato momento, lá embaixo, um carro preto de luxo entrou sem aviso na propriedade e parou diante da porta principal. O assistente desceu rapidamente e abriu a porta traseira com reverência.

Os funcionários no jardim ficaram surpresos ao ver o carro com placa de circulação interestadual e se apressaram em recebê-lo. Sapatos de couro sob medida tocaram o chão, e a calça social impecável trouxe consigo um ar frio e autoritário.

Como o mordomo não estava, os empregados ficaram sem direção. Empurraram a Dona Neide, que tinha mais intimidade com a família, para falar com Henrique. Ela explicou que o patrão e a patroa ainda não tinham voltado com "a moça".

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Eles tinham receio do primogênito dos Cavalcanti. Entre os netos, ele era o que mais se parecia em temperamento com o falecido patriarca. E não tinha o rosto suave do avô; seus traços eram marcantes, com olhos profundos e escuros que exalavam uma aura de comando absoluto e implacável.

Henrique parecia já saber de tudo. Ao entrar e subir as escadas, perguntou diretamente: "Já verificaram a mídia?"

"Ah?" Dona Neide, sem saber o que dizer, gaguejou: "O senhor Augusto... deve estar verificando os portais responsáveis."

"Diga a ele que não precisa mais verificar", disse Henrique de forma direta. "Eu já cuidei disso. Peça para ele me procurar quando chegar."

Dona Neide assentiu prontamente.

O espelho do elevador refletia o paletó de corte impecável de Henrique. O elevador chegou ao destino com um sinal sonoro. Dona Neide olhou para o painel e sentiu um calafrio.

Terceiro andar. Não era apenas o andar de Henrique, mas também o de Alice. Eles passaram o dia arrumando o quarto para Vitória e simplesmente esqueceram que Alice ainda estava lá.

No entanto, Alice não tinha feito escândalo hoje; apenas se trancara no quarto. Dona Neide logo arranjou uma desculpa para se isentar: "A menina Alice está muito triste, se trancou e não sai por nada. Não comeu nem bebeu nada o dia todo, estamos muito preocupados."

Henrique segurou a maçaneta de seu quarto, com o olhar sombrio levemente erguido.

Dentro do quarto, o barulho na cozinha era alto o suficiente para que Alice não ouvisse os bipes da fechadura digital. Mas Mingau ouviu. Ele correu para ver e voltou com o rabo erguido.

Alice estava concentrada, de chinelos de gatinho, pegando vários petiscos e arrumando-os sobre a mesa para levar depois. Ela voltou rápido para escorrer o macarrão, enrolou dois fios no garfo e provou.

Mingau pulou ao lado dela e cutucou seu braço. Alice entendeu errado e o afastou gentilmente: "Comida de gente, gatinho não pode."

Alice, protetora com sua comida, virou-se mordendo o garfo, mas para sua surpresa, a porta do quarto se abriu sem aviso.

Ela deu de cara com o homem que deveria estar a quilômetros de distância! Alice paralisou, sentindo um arrepio de culpa e choque.

Henrique observou a "menina que não comia nem bebia" instalada em sua cozinha, usando suas coisas e saqueando sua geladeira. Ele arqueou levemente a sobrancelha.

Então, com um clique seco, ele trancou a porta por dentro.

O coração de Alice saltou com o som da porta fechando. Olhando para o homem que acabara de chegar, ela quase achou que era uma alucinação. O quarto foi preenchido pelo perfume amadeirado e marcante que ele exalava, uma presença tão dominante que, em instantes, Alice sentiu como se estivesse mergulhada naquele aroma.

Realmente, quando a sorte está ruim, tudo conspira contra. Foi só ela tentar pegar algo escondido pela primeira vez que foi pega em flagrante.

Alice mordia o garfo com a testa franzida. Henrique caminhou calmamente em sua direção. O som de seus sapatos no mármore era pesado, cada passo parecendo ecoar no peito de Alice.

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Ele parou diante dela e estendeu a mão, segurando com os dedos longos a base do garfo que ela mordia. Com uma voz grave e calma, ele ordenou: "Abra a boca."

Ao exercer uma leve pressão, Alice sentiu a força deslocar o garfo de seus dentes. Ela foi obrigada a soltar. O garfo deslizou por seus lábios e foi tomado por Henrique. Ele desviou o olhar da ponta da língua rosada dela e disse: "Não se deve morder o garfo assim."

"Eu já sei", resmungou ela, tentando pegar o garfo de volta.

Henrique ergueu a mão, e ela não alcançou nada. Ele a olhou, pegou o prato de massa da mão dela e o colocou de volta na bancada.

Alice inventou uma desculpa qualquer: "O Mingau estava com fome, ele foi até o meu quarto e eu só o acompanhei para buscar comida."

Mingau: "?"

Henrique limpou rapidamente a bancada. "A ração do gato não fica na geladeira."

"Eu não sabia."

"E ele provavelmente não come macarrão."

Alice nunca achou que suas desculpas esfarrapadas fossem convincentes; era apenas que, não importa o que ela dissesse, seus irmãos sempre aceitavam seus motivos malucos. Normalmente, ela deixaria por isso mesmo, mas hoje, subitamente, ela se importou.

Alice baixou o olhar. "Como eu ia saber o que ele come ou não?"

"Você o conhece tão bem, mas ficou fora tanto tempo", disse ela, acariciando o pelo de Mingau enquanto sua voz diminuía. "Aquelas pessoas lá fora só tratam bem quem lhes convém. Você não estava aqui para cuidar dele, ele se sentiu injustiçado e você nem soube. Ele foi me procurar, mas eu..."

Alice parou no meio da frase, com a garganta seca e a voz falhando, incapaz de continuar.

Pouco depois, uma mão grande e de dedos fortes entrou em seu campo de visão, acariciando gentilmente o queixo de Mingau. Os pelos brancos cobriam o dorso da mão dele, onde as veias se destacavam. Dava para sentir que o gato estava adorando o carinho, ronronando alto.

A voz profunda e suave do homem veio de cima:

— Você se sentiu injustiçada?

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