"Ele pode te operar, mas..."
Antes que Murilo terminasse, Zilah exclamou bruscamente: "Murilo, nós combinamos que não faríamos isso!"
"Mãe, a Tali tem o direito de saber." A expressão de Murilo era séria e determinada.
Ele olhou para a irmã, de pele clara e feições delicadas, e sentiu o coração amolecer. Baixou a voz por instinto: "Pode ser perigoso."
"Qual a probabilidade de falha?" A voz de Talita soou com uma calma e estabilidade sem precedentes.
"Mais de cinquenta por cento..." Os olhos de Murilo transbordavam dor.
Talita, sendo médica, sabia exatamente o que aquilo significava.
Era uma cirurgia em que ela apostaria a própria vida.
"Eu não aceito!" Zilah foi a primeira a manifestar sua posição. "Tali, você está ótima como está agora. A mamãe não se importa, eu posso cuidar de você para sempre..."
Dito isso, Zilah começou a chorar. O Sr. Rocha e Sofia tentavam consolá-la em voz baixa.
Em meio ao barulho, o coração de Talita estava em paz. Ela calculava rapidamente os riscos e as consequências de uma falha cirúrgica.
Aquele jantar terminou sem uma decisão, e Murilo não a pressionou.
No entanto, ao sair com Sofia, ele recebeu uma ligação de Xavier Silva.
"Murilo, o que ela disse?" a voz de Xavier estava tensa.
Murilo conteve suas emoções e respondeu com um tom indefinido: "Ela não disse nada."
"Eu posso vê-la?" Xavier não resistiu e perguntou.
"Xavier Silva, com que direito você quer vê-la? Foi você quem a esqueceu e quis se casar com outra. Foi por te salvar que a Tali ficou cega e agora está nesse dilema."
"Todas as desgraças dela não foram causadas por você?"
A pressão dos últimos dias acabou afetando Murilo, e sua fúria foi descarregada sobre o "culpado" do outro lado da linha.
Cada acusação de Murilo era como uma lâmina cortando Xavier; ele não tinha como contra-argumentar.
Porque cada palavra era a mais pura verdade.
Após o desligamento da chamada, Sofia olhou surpresa para Murilo.
Ele percebeu o olhar dela, hesitou por um momento e massageou as têmporas: "Desculpe, meu humor não está dos melhores."
Sofia apenas balançou a cabeça e o abraçou de lado.
Ela não conhecia o passado, então não tinha o direito de julgar o comportamento de Murilo.
Do outro lado da linha, Xavier sentia como se houvesse um enorme vazio em seu coração após o fim da chamada.
Ele desejava desesperadamente ver Talita, abraçá-la e ouvir sua voz.
Mas, na realidade, até mesmo vê-la era um luxo inalcançável.
Ele não dissera a verdade a Murilo: na verdade, ele não queria que Talita operasse.
Ele era obsessivo ao extremo; desejava trancar Talita e cercá-la de todo o conforto possível, para que ela nunca mais sofresse o menor dano.
Capítulo 39
Nos dias seguintes, Talita continuou indo trabalhar na floricultura como de costume. Ela continuava sendo muito cuidadosa em suas tarefas, mas passava mais tempo perdida em pensamentos nos momentos de folga.
Bia tentava brincar com ela para animá-la, mas suas respostas tornaram-se mais raras.
Em todos os trajetos de volta para casa, Talita percebia claramente que alguém a seguia.
Mas ela não deu importância, pois, através de uma conversa entre Murilo e sua mãe, ela já deduzira de quem se tratava.
Exceto por Xavier Silva, ninguém faria algo assim.
Ele continuava agindo como na época em que a paquerava na universidade. Ela tinha aulas de dança todas as noites de quinta-feira, e ele sempre a acompanhava de longe no caminho de volta.
Por muito tempo, Talita não percebera isso, achando apenas que os dois tinham "coincidências" de destino.
Quando Murilo contou a Zilah que o médico fora encontrado por Xavier, Zilah não pôde evitar comentar que tudo aquilo era um destino cruel.
Talita ouviu o comentário de relance, e seus sentimentos tornaram-se complexos.
Desde a conversa com Sabrina Santos, ela se libertara completamente das antigas obsessões. Antes, ela sempre se questionava se ele a amava ou não.
Agora, ela tinha certeza: ele a amava.
Aquelas coisas que antes a angustiavam pareciam ter perdido a importância diante da fronteira entre a vida e a morte.
Na noite anterior, Talita tomara finalmente a decisão de "operar".
Ao ouvirem o resultado, o Sr. Rocha e Murilo reagiram com calma, como se já tivessem previsto.
Apenas Zilah não conseguia aceitar.
Ela olhava para Talita chorando, e o coração da filha era inundado por uma culpa imensa.
Ela parecia ser sempre teimosa, e toda vez eram seus pais e seu irmão que davam o suporte necessário.
Desta vez seria o mesmo; se a cirurgia falhasse, eles teriam que enfrentar novamente o desespero de três anos atrás.
Neste momento, ao dobrar a esquina de um beco, Talita parou de repente.
Xavier, que não percebera o movimento, acabou colidindo diretamente com ela.
Xavier recuou por instinto, tentando se esconder, mas Talita o chamou bruscamente.
"Xavier Silva." A voz de Talita continuava límpida como sempre.
Apenas aquela frase foi o suficiente para fazer os olhos de Xavier arderem.
Fazia muito, muito tempo que ele não ouvia Talita pronunciar seu nome.
Xavier a observava avidamente, mas não ousou responder de imediato.
Ele não sabia se ela o expulsaria ou algo pior; seu coração estava inquieto.
"Xavier Silva, eu sei que é você. Se você estiver disposto, podemos conversar."
Xavier estancou. Milhares de pensamentos cruzaram sua mente, mas, ao olhar para o rosto dela, ele não conseguiu recusar.
Os dois sentaram-se na casa de chá. Comparada à naturalidade de Talita, Xavier parecia não encontrar uma posição confortável.
Talita falou primeiro: "Há pouco tempo, tomei chá nesta mesma mesa com a Sabrina Santos."
Ao ouvir aquele nome, as pupilas de Xavier se contraíram bruscamente.
Sua voz soou amarga, conseguindo apenas proferir um rígido: "Sinto muito."
"A pessoa que encontrei no beco do bar também era você, não era?" O tom de certeza de Talita não deu margem para Xavier negar.
"Tali, eu realmente..." Xavier mal começou a falar e sua voz embargou. Ele sentia tanta falta dela.
Agora que ela estava sentada à sua frente, ele sentia como se estivesse em um sonho.
"Meu irmão disse que foi você quem encontrou o médico para mim. Obrigada." As palavras de Talita foram extremamente polidas, fazendo o coração de Xavier afundar.
"Não precisa agradecer", respondeu ele de forma rouca. Ele não sabia como manter a conversa; lembrando-se da época em que namoravam, era sempre Talita quem falava, enquanto ele apenas concordava ocasionalmente.
"Já que foi você quem encontrou o médico, imagino que meu irmão já tenha te contado sobre a minha decisão de operar", disse Talita, com um tom natural mesclado a um certo distanciamento.
Capítulo 40
Xavier Silva sentiu um amargor no peito; ele já sabia da notícia sobre a decisão dela de operar.
Não fora Murilo quem lhe contara voluntariamente, mas sim o resultado de suas insistentes ligações diárias de "importunação".
"Sim." Foi a primeira vez que Xavier enfrentou a indiferença de sua amada de forma tão direta; naquele momento, ele sentiu na pele o que Talita Rocha deve ter sentido quando ele, sem memória, a tratara com frieza.
Era uma dor que dilacerava as entranhas. A cor fugiu do rosto de Xavier, mas ele não permitiu que nenhuma outra alteração transparecesse.
Tudo aquilo era consequência de seus próprios atos; ele deveria aceitar esse castigo.
O silêncio se instalou entre os dois. Eles não sabiam sobre o que conversar.
Nem os tempos fervorosos da faculdade, nem as tragédias que vieram depois eram temas apropriados para recordações no momento.
Talita sentiu um desconforto crescente; ela se levantou, fazendo menção de ir embora.
Contudo, foi detida por Xavier, que segurou seu pulso. Talita pôde sentir claramente a mão dele tremendo levemente.
O toque quente envolvia seu pulso com firmeza.
"Tali, nós ainda teremos um futuro?" A voz de Xavier soou extraordinariamente humilde, fazendo o coração de Talita se contrair.
Em um instante, ela pensou em mil coisas.
Na verdade, ela não conseguia culpar o Xavier de antes; ele realmente não se lembrava dela, e tudo começara com o sacrifício dele para salvá-la.
Incontáveis vezes ela disse a si mesma que aquele Xavier que não a amava não era o seu Xavier.
E agora, o Xavier com as memórias recuperadas estava parado à sua frente novamente.
Ela não podia negar o fato de que eles se amaram profundamente.
O Xavier que a amava voltara para o seu mundo, mas ela não conseguia simplesmente aceitá-lo.
Se ela estivesse prestes a enfrentar a balança da morte novamente, não suportaria se aproximar dele apenas para abandoná-lo mais uma vez.
Ela se lembrava da descrição que Sabrina lhe dera sobre Xavier.
O Xavier que, ao recuperar a memória e saber da sua suposta "morte", agira como um louco.
Desespero, dor e escuridão o consumiram; ele consultava um psicólogo mensalmente e chegara a ter pensamentos suicidas.
O coração de Talita afundou com as palavras de Sabrina.
Nesse período de desencontros do destino, ela fora a vítima, mas ele também não deixara de ser.
O destino pregara uma peça neles, dando-lhes um começo romântico, mas um processo tortuoso e um caminho incerto.