Sabrina recusou o café trazido pelo garçom: "Apenas um copo de água, por favor."
Enfrentando o olhar de Xavier, seus olhos brilhavam com felicidade e um toque de orgulho: "Estou grávida, não posso tomar café."
Xavier não demonstrou interesse na vida pessoal dela, apenas assentiu levemente.
Ele mudou de assunto rapidamente, com voz ansiosa: "Sobre a Tali, o que você quer dizer?"
A expressão de Sabrina tornou-se séria: "Xavier, você tem certeza de que a Talita Rocha morreu?"
As palavras dela causaram um solavanco no coração de Xavier. Uma suspeita surgiu em sua mente e sua voz começou a tremer: "O médico me disse, todos disseram a mesma coisa."
"Mas você não viu o corpo dela com seus próprios olhos, nem visitou o túmulo, não é verdade?"
Capítulo 24
"Mas a família dela..." O coração de Xavier deu um salto. Pensando bem, nem os pais de Talita nem Murilo haviam afirmado categoricamente que ela se fora.
Eles apenas exigiram que ele fosse embora.
A mente de Xavier ficou em branco por um instante; com os olhos injetados de sangue, ele olhou para Sabrina com um desejo ardente por respostas.
Sabrina, vendo aquele anseio indisfarçável, sentiu uma ponta de melancolia.
Ela mostrou a ele a foto que tirara de Talita.
"Há alguns dias, eu a encontrei aqui na Metrópole."
Xavier apertou o celular de Sabrina com força, os olhos fixos na pessoa da foto.
As palavras de Sabrina explodiram como fogos de artifício na mente de Xavier; ele sentia-se como um condenado à morte que acabara de receber um sursis, agarrando-se àquela tábua de salvação.
"Onde ela está? Preciso vê-la..." cada palavra saía com dificuldade, mas carregada de determinação.
Sabrina previu aquela reação. Ela comprimiu os lábios e disse: "Xavier... o estado dela não é dos melhores."
A frase foi como um balde de água fria na agitação de Xavier. Seu rosto empalideceu instantaneamente: "Como assim?"
"Ela não enxerga mais."
A revelação foi como um trovão, deixando Xavier gélido.
Ele conhecia bem o orgulho de Talita e sua paixão pela medicina.
A cegueira praticamente destruíra sua carreira e impactara drasticamente sua vida.
"Ela... ela está bem?"
Sabrina entendeu imediatamente o que ele estava perguntando: "Ela está ajudando na floricultura da família agora. Não sei dizer se está bem ou mal; eu apenas a observei de longe."
"Mande-me o endereço." Os olhos escuros de Xavier estavam fixos, e ele parecia estranhamente calmo em meio ao caos interno.
Sabrina abriu a boca para falar: "Você vai mesmo procurá-la? Talvez ela esteja vivendo em paz agora, já pensou nisso? Sua presença pode não ser algo bom para ela, especialmente depois de tudo o que..."
As palavras não ditas de Sabrina foram como uma lâmina, cortando o passado deles e expondo as feridas abertas diante dele.
"Dê-me o endereço."
Xavier sentiu um gosto ferroso na garganta, mas sua voz permaneceu firme.
Seu coração doía de forma insuportável; ele não sabia o que faria ou como agiria.
Mas ele precisava vê-la. Não chegaria perto; apenas observaria de longe, em silêncio.
Contanto que tivesse certeza de que ela estava viva, habitando o mesmo mundo que ele, seria o suficiente.
...
A entrada do Beco Treze estava movimentada, mas pouca gente se aventurava pelas ruelas internas.
Xavier, vestindo um sobretudo preto e segurando um guarda-chuva, estava parado em um canto, observando atentamente a vitrine de vidro embaçada pela chuva.
Lá dentro, uma mulher de vestido claro estava sentada calmamente em um banco; ela permanecera assim a manhã inteira.
Apesar da chuva torrencial e da lama nas ruas.
O coração de Xavier nunca estivera tão radiante quanto naquele momento.
Talita Rocha estava viva. Ela ainda caminhava sobre este mundo.
Ao vê-la, o universo sombrio e cinzento de Xavier começou a ganhar luz.
Dentro da loja, Bia observava a rua entediada, comentando vez ou outra sobre como o movimento caía nos dias de chuva.
Seu olhar acompanhou os transeuntes até que, de repente, avistou Xavier olhando fixamente para o interior da loja.
"Uau, tem um homem maravilhoso do outro lado da rua! Ele é muito gato, quem será que ele está esperando?" Bia descreveu a cena para Talita com empolgação.
Talita virou o rosto por instinto, apenas para lembrar que não podia mais enxergar.
Sua expressão entristeceu, mas Bia, sem notar, continuou olhando para fora.
"Mas parece que ele está parado ali há um tempão. Será que a pessoa não vem mais? Levar um bolo numa chuva dessas é muita maldade."
As lamentações de Bia entravam nos ouvidos de Talita junto com o som da chuva. Ela comprimiu os lábios e não respondeu.
Esperar?
Esperar fora a coisa que ela mais fizera na vida.
Antigamente, esperava os pais voltarem do trabalho; depois, esperou que aquele homem se lembrasse dela; e agora, apenas aguardava, em meio a uma rotina imutável, a remota esperança de "voltar a ver a luz".
Capítulo 25
"Tali, aquele favor que você me pediu, eu já consegui resolver. A professora Sofia disse que pode vir no sábado de manhã", lembrou Bia subitamente, buscando crédito com Talita.
"Entendi. Obrigada, Bia! Na próxima eu te pago um chá de bolhas", disse Talita, sentindo um pouco do peso em seu peito aliviar.
Bia agradeceu rindo e voltou a preparar os novos buquês.
Por causa da chuva, o movimento na floricultura não foi bom, e elas fecharam as portas mais cedo.
Talita ficou parada na entrada, com Babu desanimado aos seus pés.
Babu detestava dias de chuva, e agora Talita também não gostava muito.
Chuva significava que ela não poderia voltar para casa sozinha; teria que incomodar alguém da família para buscá-la.
Enquanto seus pensamentos voavam, ela sentiu um olhar intenso sobre si.
Talita levantou o rosto por instinto, mas só encontrou escuridão.
Babu não reagiu, o que indicava que a pessoa não estava por perto.
A mão de Talita apertou a guia de Babu, e seu corpo ficou tenso.
Enquanto hesitava se deveria ligar para a mãe, ouviu subitamente uma voz familiar: "Talita, vamos para casa."
A voz de Murilo trouxe uma imensa sensação de segurança. Ela soltou um suspiro de alívio.
"O que houve? Aconteceu alguma coisa?" perguntou Murilo, notando o alívio de Talita ao entrar no carro.
"Nada..." as pálpebras de Talita tremeram rapidamente, e ela escolheu esconder suas suspeitas.
"A mamãe está em casa?" ela mudou de assunto rápido.
Murilo olhou profundamente para ela e respondeu à pergunta.
O carro deixou o Beco Treze.
Xavier Silva saiu de trás de um muro com seu guarda-chuva, observando apenas o rastro do veículo partindo.
...
Sábado de manhã.
Talita acordou cedo, preparando-se para o encontro com Sofia.
"Mãe, você pode me ajudar com a maquiagem?"
Zilah olhou atônita para a filha. Desde o acidente de três anos atrás, aquela era a primeira vez que ela pedia para se maquiar antes de sair.
"Vai encontrar alguém importante hoje? Aconteceu algo?" a voz de Zilah estava um pouco tensa.
"Sim, quero encontrar uma pessoa importante. Para ser educada, acho melhor estar maquiada", respondeu Talita com naturalidade.
Zilah prontamente começou a ajudá-la.
Embora estivesse curiosa para saber quem era, ela tentava dar o máximo de espaço possível à filha, sem pressioná-la.
Minutos depois, Zilah observava no espelho a filha, tão linda quanto antes; seu coração amoleceu como se estivesse mergulhado em água morna.
"Quer que eu te leve?", perguntou com doçura.
Talita inclinou-se e abraçou a mãe: "Não se preocupe, marcamos na casa de chá aqui no beco mesmo."
O tempo estava bom; Talita saiu de casa guiada por Babu.
Após caminhar um pouco, a expressão de Talita mudou bruscamente. A naturalidade que demonstrara diante da mãe desapareceu, dando lugar a uma ansiedade visível.
Ao chegar à entrada da casa de chá, ela ainda tentava mentalizar frases positivas para se acalmar.
O dono do estabelecimento conhecia Talita e, ao vê-la entrar, cumprimentou-a: "Tali, sua amiga já chegou. Ela está no reservado do andar de cima."
Ao ouvir aquilo, o coração de Talita apertou e sua mão cerrou-se na guia do cão-guia.
"Obrigada, Tio Chen. Eu já vou subir."
Cada passo de Talita era dado com distração, enquanto ela revisava mentalmente, pela milésima vez, o que pretendia dizer.
O garçom a conduziu até a porta. Ela respirou fundo e abriu a porta do reservado.
Antes que pudesse falar, a pessoa lá dentro tomou a iniciativa: "Olá, você é a irmã do Murilo Rocha?"
Capítulo 26
Talita parou bruscamente. O nome dela junto ao de Murilo era uma combinação óbvia demais para levar a outra conclusão.
Sofia observava a bela moça diante de si, até notar o olhar vago.
Sofia levantou-se num salto, seu sorriso desaparecendo enquanto os lábios tremiam levemente: "Seus... seus olhos?"
Talita não se surpreendeu com a percepção aguçada dela e deu um leve sorriso: "Sinto muito, eu não enxergo. Posso entrar com o meu cão-guia?"
Sofia respondeu rápido: "Claro, por favor, eu..."
"Meu irmão mencionou que você tem medo de cachorros, achei que poderia ser desconfortável", comentou Talita.
"Seu irmão falou de mim para vocês?" Sofia parecia genuinamente surpresa.
Talita assentiu levemente: "Eu sei quem você é."