Capítulo 3: O Baile de Debutante
O quarto estava quente como a primavera. Solana permanecia sentada em silêncio ao lado da lareira, observando o reflexo das chamas dançantes em seus olhos.
O fogo parecia simbolizar as pessoas que lutavam em agonia, com silhuetas que se retorciam incessantemente.
Não eram apenas seus corpos que se deformavam, mas suas almas exaustas pelas intempéries da vida.
Solana mergulhou em pensamentos profundos, aproximando-se inconscientemente da fogueira até que uma dor aguda nas pontas dos dedos a trouxe de volta à realidade.
A gaze que envolvia seu ferimento havia sido atingida por uma fagulha.
Ela fechou o punho rapidamente, esmagando a centelha com força bruta.
Essa dor súbita estimulou seus nervos, trazendo à tona memórias de um passado distante.
Seu pai biológico fora um homem extraordinário, que jamais permitira que ela ou sua mãe fizessem o menor esforço.
À noite, ela adormeceu apertando contra o peito o relógio de bolso que ele lhe deixara.
Menos de um mês depois, Kauan foi finalmente libertado.
Ele estava muito mais magro; sua soltura só aconteceu devido à proximidade de seu aniversário.
Seus amigos vieram visitá-lo em massa.
Após vários dias recebendo comida e cuidados de Solana, a relação entre os dois já não era mais marcada pela hostilidade de antes, embora ainda restasse um silêncio desconfortável entre eles.
Solana havia se livrado completamente de seu sotaque original. Seu domínio impecável da norma culta da Cidade Alta permitiu que ela fizesse muitos amigos na aristocracia.
Sempre que recebia um convite de alguma jovem nobre, ela comparecia com entusiasmo; com o tempo, tornou-se presença garantida em todas as listas de convidados.
Dom Diego providenciava joias caríssimas para que ela presenteasse suas amigas, pavimentando assim uma vasta rede de contatos.
Agora, ela exibia perfeitamente a postura de uma legítima dama da nobreza.
Naturalmente, nada disso teria sido possível sem a ajuda de Liliana.
Diego era perdidamente apaixonado por Liliana e atendia a cada um de seus pedidos sem questionar.
Kauan observava sua movimentada festa de aniversário, conversando com os amigos de forma anestesiada.
A partir daquele dia, ele finalmente conquistou sua liberdade.
Kauan contratou um tutor particular.
Diferente dos professores anteriores, a quem ele sempre expulsava, desta vez ele se comportou de maneira exemplar.
Dom Diego atribuiu essa mudança a Solana.
Isso porque, sempre que Kauan perdia o controle, era Solana quem intervinha, acalmando-o mesmo que acabasse se machucando no processo.
Diego via em Solana o reflexo de Liliana, que outrora fora tão bondosa e gentil.
Por isso, ele permitiu que Solana acompanhasse as aulas de Kauan.
Era exatamente o que ela desejava.
Nas aulas, ela absorvia todo tipo de conhecimento, desde etiqueta social até política interna do Estado.
Às vezes, ela até ajudava Kauan com seus deveres; sempre que ele precisava, ela estendia a mão.
Extremamente decepcionado com o pai, Kauan passou a depender cada vez mais de Solana.
Oito anos se passaram num piscar de olhos, e Liliana ainda não dera um filho a Diego. Os médicos diagnosticaram que o corpo dela, exausto pelos anos de privação, dificilmente engravidaria de novo.
A notícia, que inicialmente frustrou Diego, acabou fazendo com que ele sentisse ainda mais piedade de Liliana.
Liliana não era apenas a mulher que salvara sua vida, mas também seu primeiro amor; essa devoção profunda o tornava submisso às vontades dela.
Às vésperas do baile de dezoito anos de Solana, sua mãe finalmente obteve o controle da gestão interna da casa.
Kauan finalmente cedera. De acordo com a lei, após a morte da primeira esposa de um nobre, o filho tem o direito de herdar a autoridade sobre os assuntos domésticos.
Kauan se apegara a esse direito por anos, mas desta vez o entregou voluntariamente.
Solana acabou ouvindo o motivo por acaso: Kauan queria se casar com ela.
Dom Diego percebeu as intenções do filho. Para agradar Liliana, ele usou Solana como moeda de troca, negociando o controle interno com Kauan e prometendo anunciar o relacionamento dos dois no baile de debutante.
Solana sorriu discretamente. O baile de dezoito anos estava prestes a começar, e tudo estava pronto.
Ela planejava levar para o conserto o relógio de bolso do pai, que parara de funcionar há três anos, assim que a festa terminasse.
— Irmã. — A voz grave e magnética de Kauan veio do corredor. Ao ouvi-lo, Solana caminhou com passos leves, abriu a porta e foi imediatamente envolvida em um abraço apertado.
— Kauan. — Solana sussurrou o nome dele com uma voz suave e delicada, como se cada sílaba estivesse impregnada de uma ternura infinita.
— Irmã, quando chegar o momento do seu baile de dezoito anos, poderemos finalmente caminhar juntos pelo resto da vida, sem nunca mais nos separarmos.
Solana estendeu sua mão delicada, acariciando suavemente os cabelos macios de Kauan, e murmurou um sinal de concordância.
Os sentimentos de Kauan eram puros e simples; um pouco de amor e consolo eram o suficiente para satisfazê-lo.
Dezesseis anos, uma idade em que ele nem sequer ousava beijá-la.
— Eu esperarei por você. — O sorriso de Solana era tão doce quanto sempre. Naquele momento, ela estava deslumbrante, como se reunisse toda a beleza do mundo em si; a imprensa chegava a chamá-la de a verdadeira Santa.
Ao assistir a uma peça de teatro, ela viu uma personagem inspirada em si mesma e percebeu que a beleza, afinal, era algo que valia a pena ser cantado e celebrado.
Seus rostos se aproximaram até que as testas se tocaram. A voz de Kauan era profunda e sincera: — Eu costumava guardar muito rancor do meu pai, mas hoje sinto certa gratidão por ele, pois foi ele quem me permitiu conhecer você.
A expressão de Solana tornou-se complexa por um instante, mas ela apenas sorriu, cobrindo a boca para esconder a reação, enquanto seu olhar se tornava ainda mais terno: — E eu também sou grata à minha mãe por ter tido a sorte de conhecer você.
Kauan era, de fato, extraordinariamente atraente; caso contrário, ela teria dificuldade em interpretar sentimentos tão genuínos.
Dito isso, Kauan se virou para sair, deixando apenas um suave "boa noite".
Solana cobriu a boca, incapaz de conter o riso, pensando consigo mesma: grato ao pai por trazê-la aqui? Se a mãe dele, que estava no inferno, soubesse disso, o que pensaria?
Solana fechou a porta com suavidade e olhou com ternura para o vestido de seu baile, ansiosa pelo que estava por vir.
Ela abriu uma caixa delicada, revelando um colar de pedras preciosas que pertencera à falecida Condessa. As gemas de um rosa pálido brilhavam sob seus dedos.
Solana o acariciou, com os cantos da boca elevados.
Aquela Condessa que outrora fora tão arrogante... quando você enviou capangas para espancarem minha mãe, chegou a prever este cenário?
Se soubesse que seu amado filho se tornou o degrau para a minha ascensão, que cara você faria agora?
A beleza de Solana superava a de sua mãe e, somada ao favoritismo da Rainha, ela se tornara o centro das atenções na alta sociedade. Não era exagero chamá-la de a borboleta social mais luxuosa da aristocracia.
Rica, deslumbrante e aparentemente ingênua; a combinação desses adjetivos fazia com que todos quisessem se aproximar dela.
Propostas de noivado chegavam como uma maré, acumulando-se em pilhas, mas graças à ajuda de Kauan, todas eram devidamente recusadas.
Num piscar de olhos, o dia do baile de dezoito anos finalmente chegou.
O olhar de Kauan era doce como mel enquanto ele conduzia Solana pelo salão principal.
A antiga glória de Dom Diego havia desbotado um pouco com o tempo; oito anos haviam levado parte de seu vigor, mas suas admiradoras ainda eram numerosas.
Apesar de ser um conde de baixo escalão, sua opulência era admirada até pela Família Real.
Temendo que seu status subisse demais, ele voluntariamente permaneceu como conde, atuando apenas como um mercador.
Solana usava um vestido azul claro; joias pareciam fluir como um rio de estrelas sobre sua cintura fina, harmonizando-se com suas curvas e as peles luxuosas que a envolviam.
Dezoito anos, uma idade no limite entre a juventude e a maturidade. Naquele momento, sua beleza era asfixiante.
Todos os presentes ficaram paralisados ao vê-la. Embora o mundo já falasse de sua beleza, muitos acreditavam que fosse um exagero ou que ela fosse apenas mais uma entre tantas damas bonitas.
No entanto, agora todos tinham que admitir: aquela era, de fato, a beleza número um do Império.
O olhar de Diego estava turvo, como se visse a Liliana do passado, que fora igualmente radiante.
Nascida plebeia, ela fora escolhida pelos deuses como a Santa, salvando incontáveis vidas; até o atual Imperador e a Rainha haviam recebido suas bençãos.
Apenas aquela jornada fora interrompida abruptamente por um incidente...
— Pai. — Solana colocou a mão sobre o peito e fez uma pequena reverência, trazendo-o de volta à realidade. — Solana, agora oficialmente sob o nome da minha família Weissman. Solana Weissman.
Ao lado, Kauan franziu levemente a testa, mas Diego lhe deu um olhar tranquilizador, e sua expressão relaxou.
Nesses oito anos, Diego cuidara de Solana com extremo zelo; ela até percebera que o relógio de bolso dele parara por três dias antes que ele mesmo notasse.
Solana colocou a mão sobre a de Diego, enquanto Liliana sorria ao lado; os quatro conversavam com os convidados como uma família perfeita.
Kauan observava o vestido de Solana, sentindo uma pontada de ansiedade no peito.
— Sua Majestade, a Rainha! Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro!
Exceto por Dom Diego, todos ficaram em choque.
Por mais famosa que Solana fosse, seria impossível convidar a realeza para o baile de debutante da filha adotiva de um conde menor.
Embora Solana frequentasse os banquetes da Rainha, ela sempre fora como uma sombra, convidada apenas por cortesia devido à aliança de seu pai.
Nem mesmo Solana esperava a presença da Rainha, que tinha tantas damas favoritas, enquanto ela era apenas a mais leal entre elas.
Ela compreendia que a Rainha não fazia nada sem propósito, assim como comparecera ao casamento de sua mãe para impedir a vinda do Imperador.
Sua mãe e o Imperador haviam sido o primeiro amor um do outro; ela fora o pivô que levara o Imperador a manter diversas amantes como substitutas. Sob a pressão da Rainha, ele não vira Liliana uma única vez em oito anos.
Ían estava ao lado da mãe. Seu olhar permanecia puro e sincero como no primeiro encontro, brilhando intensamente em meio àquele ambiente caótico.
Era simplesmente detestável.
Solana sorriu enquanto acompanhava a reverência coletiva: — Saudações à Lua do Império, saudações ao Pequeno Sol.
A Rainha sentou-se no lugar de honra, trocando um olhar sutil com Diego, com um leve sorriso nos lábios.
A inquietação de Kauan aumentou, e ele se aproximou silenciosamente de Solana.
Todos os olhares estavam fixos na Rainha e no Príncipe; o baile, antes animado, tornou-se solene e silencioso.
Ali estavam apenas as filhas de marqueses e condes próximos a Solana; os nobres de alto escalão não compareceram pessoalmente, embora todos tivessem enviado saudações protocolares.
A Rainha observava com satisfação aquelas pessoas apreensivas, desfrutando do prazer que o poder lhe proporcionava.
Sua influência crescera tanto que ela agora levava abertamente seus amantes para o palácio.
O Príncipe fora criado exclusivamente por ela e era extremamente próximo à mãe, enquanto o Imperador se afundava em vícios e prazeres, com a saúde já debilitada.
Diziam que as pessoas enviadas pelo Imperador voltavam aterrorizadas e escreviam cartas desesperadas ao Príncipe pedindo ajuda, mas todas eram interceptadas pela Rainha.
Essas informações foram reveladas a Solana por um dos amantes da Rainha, que também viera da Cidade Baixa. Eles se reencontraram por acaso em um banquete.
Ele contara a Solana muitos segredos sem pedir nada em troca, apenas dizendo: — Espero que você saiba de tudo para poder viver melhor.
Um rapaz simples e honesto.
Essa honestidade era uma característica inata do povo da Cidade Baixa, mas era também a raiz de sua escravidão.
— Creio que todos estão muito tensos. Por que não deixamos o Príncipe e a senhorita Solana fazerem a dança de abertura para relaxarmos o ambiente?
Ao ouvir isso, os olhos de Kauan se arregalaram. Solana também ficou incrédula, e todos os presentes ficaram ainda mais paralisados do que antes.
A primeira dança do baile de debutante... aquilo era um anúncio claro para o mundo de que a Rainha escolhera Solana para ser a futura Princesa Consorte.
Solana esperava dançar a primeira valsa com Kauan; agora, não conseguia evitar o nervosismo.
As filhas dos marqueses encaravam o rosto do Príncipe. Seus traços delicados eram de uma beleza andrógina, com cabelos curtos levemente ondulados e olhos brilhantes como cristal.
Ele vestia azul e dourado, com um porte elegante, proporções perfeitas e um sorriso gentil que encantava a todos.
Os convidados olhavam para as roupas de Solana e do Príncipe; era evidente que formavam um par combinado.
Solana olhou surpresa para Diego. Fora ele quem escolhera aquele vestido.