Ao olhar para aquele par de olhos inocentes, Solana cerrou os punhos instintivamente, sentindo uma emoção inexplicável borbulhar em seu peito.
Ela detestou aquele menino.
Detestou o seu sorriso.
E detestou, acima de tudo, a pureza daqueles olhos!
A carruagem passou rapidamente. O menino pareceu sentir aquele olhar e virou a cabeça, mas só conseguiu captar o rastro do veículo sumindo à distância.
Lembrando-se de que o aniversário da Rainha estava próximo, ele começou a considerar que presente deveria preparar; não podia passar o dia todo apenas brincando.
Ao chegarem à mansão, Solana seguiu logo atrás do homem. Viu sua mãe ser envolvida por um manto pesado e carregada no colo, aninhada contra o peito dele.
Nesse momento, um olhar feroz a atingiu. Um garotinho, um pouco mais novo que ela, a encarava com uma hostilidade evidente.
Solana sentiu um calafrio, mas continuou seguindo a mãe, até ser barrada por um criado.
Duas fileiras de criadas e servos curvaram-se em saudação. A postura deles lembrou Solana das formigas organizadas que via no quintal.
Ordenados e repugnantes.
Seus rostos não tinham expressão; eram apáticos e frios.
Em seguida, as criadas agiram com rapidez e perícia, cuidando de tudo para ela: desde o banho na banheira até a aplicação de óleos essenciais com aroma de rosas, passando por vesti-la e pentear seu cabelo. Cada etapa era meticulosa.
Seu quarto parecia ter sido preparado há muito tempo, com ursos de pelúcia delicados e vários vasos de vidro charmosos espalhados pelo ambiente. Rosas cor-de-rosa desabrochavam nos vasos, perfumando o ar.
A penteadeira estava repleta de joias variadas. Solana sentou-se na cama macia como se estivesse em um sonho; ela beliscou a boneca e depois a própria bochecha para ter certeza de que nada daquilo era uma ilusão.
Ela caminhou até o espelho. Enquanto as criadas a arrumavam, ela não tivera coragem de se olhar detalhadamente, apenas perguntava curiosa sobre os produtos que elas usavam.
Embora as criadas respondessem a tudo, o desdém em seus olhos era difícil de esconder, mas Solana não se importava.
Aquele lugar era tão quente que lhe trazia uma paz nunca antes sentida.
As chamas dançavam na lareira, exalando um leve aroma de rosas. Uma criada explicou que haviam pingado uma poção mágica na lenha para manter a fragrância.
Após ser produzida, Solana parecia uma visão de beleza e pureza. Sua aparência era rara, mesmo entre os círculos da alta nobreza.
As criadas, ao terminarem o trabalho, não conseguiram evitar expressões de surpresa; aquele tipo de admiração genuína era impossível de fingir.
Curiosa, ela pegou um pequeno sino de mão. A criada lhe dissera que bastava tocá-lo para que alguém viesse servi-la, e que em breve teria sua própria dama de companhia pessoal, assim que uma fosse escolhida.
Solana acariciou o sino com suavidade. Aquela era a sua primeira experiência tocando o poder.
Ela deu um sorriso discreto, admirando o próprio reflexo no espelho.
Pouco tempo depois, sua mãe e Dom Diego se casaram formalmente.
Dom Diego — o fundador do Cassino e o homem mais rico da Cidade Alta.
Sua fortuna parecia infinita; era dinheiro sobre dinheiro. Ele possuía vastas minas e controlava quase todos os negócios relacionados a joias na capital.
O casamento foi grandioso e romântico, com pétalas de rosas voando pelo céu. No entanto, os pensamentos de Solana voaram para longe, lembrando-se das notas de dívidas que voavam pela sua antiga casa.
No passado, o vento frio entrava pelas frestas carregando promissórias; agora, a brisa quente acariciava seu rosto carregando pétalas de flores.
Agora ela tinha um irmão, chamado Kauan, um menino de temperamento instável que deixava transparecer no rosto tudo o que sentia.
Assim como seu nome sugeria, Kauan era como uma joia pura.
Joias são belas, mas também frágeis.
Em um acesso de fúria, ele empurrou Liliana da escada e foi trancado pelo pai como punição.
Solana, porém, vira tudo. Ela sabia que sua mãe caíra de propósito, mas escolheu o silêncio. No fundo, sentia uma pontada de satisfação.
Observando Kauan com os olhos vermelhos, tentando desesperadamente se explicar, ela conteve o riso e baixou a cabeça, voltando a ler seu livro.
Para conquistar o favor de Dom Diego, ela se esforçava para aprender pintura, dedicando suas obras a ele e elogiando sua aparência.
Entre um chamado de "pai" e outro, o tratamento de Dom Diego para com ela tornou-se cada vez mais benevolente.
Entre os nobres, Dom Diego tinha a reputação de ser temperamentalmente brando e possuía boa fama externa. No entanto, ele era, no fim das contas, um burguês que comprara sua nobreza; não poderia ser tão ingênuo quanto aparentava.
Pela educação que recebia — Dom Diego exigia apenas que ela aprendesse o básico da leitura, pintura e dança — Solana percebia que sua benevolência não era tão simples quanto parecia.