Capítulo 69: A Suavidade do Coração, Contando a Ele um Segredo
Ricardo segurou a cabeça com as duas mãos, as unhas cravando-se no couro cabeludo. Ele estava mergulhado em um sentimento de culpa e autorresponsabilidade tão profundo que beirava o obsessivo e o extremo.
— Se eu não tivesse sido tão travesso a ponto de fugir montanha abaixo quando criança, não teria sido sequestrado e o pai do Júnior não teria perdido a vida. Se o Júnior não tivesse me conhecido, não teria ido àquela ilha. Eu sou a maldição da família dele. Por que não fui eu quem sofreu o acidente? O Júnior e o pai dele eram pessoas tão boas, por que eles tiveram que morrer?
Ricardo dobrou os joelhos e caiu diante da lápide de Júnior. Encostou a testa no mármore frio, com os ombros tremendo violentamente. Todos os anos de remorso, culpa e arrependimento guardados no fundo da alma emergiram como uma maré incontrolável.
— Eu devo tudo à família dele... eu realmente não sei como retribuir.
Alice nunca vira Ricardo daquela forma. Seu peito se apertou em um nó doloroso. Em sua percepção, ele sempre fora o homem inabalável e firme, com uma força interior inigualável, capaz de segurar o céu se ele desabasse. Mas, naquele momento, ele havia despido a armadura. Parecia uma criança perdida, expondo a cicatriz mais vulnerável de seu ser.
Ela sentiu um arrependimento súbito; talvez não devesse ter vindo. Para explicar a relação dele com Camila, ele teve que abrir à força uma ferida que atingia o cerne de sua dor. Olhando para aquelas costas curvadas, Alice o abraçou suavemente por trás.
— Ricardo, não fale assim. O que aconteceu na infância foi uma fatalidade que ninguém poderia prever. Você também era apenas uma criança. O medo e o trauma que você sofreu no sequestro não contam como feridas também?
Ela comprimiu os lábios e olhou para a foto de Júnior na lápide.
— O Júnior e o pai dele eram homens íntegros. Eles não suportavam ver alguém em perigo, por isso agiram com bravura. Como servidores públicos, se víssemos alguém em risco na rua, também correríamos para ajudar, não é? Isso é uma bondade que nasce no sangue. O pai do Júnior deu a vida para te salvar quando você era pequeno; ele certamente não iria querer que você vivesse acorrentado à culpa.
Alice segurou o braço de Ricardo e olhou para ele com os olhos marejados, mas com uma determinação absoluta.
— Você está vivo. Carregue os ideais do Júnior, seja um excelente policial e proteja mais pessoas. Essa é a melhor forma de honrá-los. Não se castigue mais chamando a si mesmo de maldição, está bem?
Ricardo olhou para Alice. Suas feições estavam rígidas e ele permaneceu em silêncio por um longo tempo. Só depois de muito tempo é que sua voz, rouca e pesada, soou novamente:
— O Júnior sempre foi apaixonado pela Camila. Eles eram do mesmo vilarejo quando crianças, mas perderam o contato quando a família dele se mudou. Na faculdade, eles se reencontraram em uma rede social. Quando ele conseguiu o contato dela, passou a escrever cartas constantemente. O Júnior me contava tudo; ele dizia que, quando voltasse a Rio Verde para trabalhar, economizaria para comprar um apartamento e dar um lar para a Camila, para que ela fosse feliz para sempre.
— O plano dele era encontrar a Camila pessoalmente logo após o meu aniversário na ilha, mas... depois que vim a Rio Verde ver a avó dele, a Camila apareceu no mesmo dia. Ela me confundiu com o Júnior. Diante da avó, eu não tive coragem de desmentir.
— Todos esses anos, nunca contei para a avó que ele morreu. Tive medo de que ela não suportasse o choque. Sempre a visitei fingindo ser o Júnior. Também nunca contei a verdade para a Camila, com medo de que ela deixasse escapar para a idosa.
— Depois de me formar, assumi o cargo aqui. Guardei cada centavo de salário e bônus. Eu queria cumprir a promessa que o Júnior fez de dar um teto para a Camila. Finalmente, no ano passado, juntei o suficiente, comprei o imóvel e reformei. Planejava contar toda a verdade para ela assim que entregasse as chaves, mas aí ela se envolveu com o seu ex-marido.
— Dei o apartamento para ela mesmo assim, para encerrar o último desejo do Júnior. Eu nunca gostei dela; todo o cuidado que tive foi baseado na minha dívida com o Júnior. Agora que ela traiu, o que também é uma ofensa à memória dele, não vou mais me envolver em nada que diga respeito a ela.
Alice assentiu.
— Eu entendo agora. Não vou mais suspeitar de qualquer ligação entre você e ela. Entendo sua dor e sua lealdade ao Júnior.
Fez uma pausa e continuou: — Vamos ver a avó dele agora?
Ricardo assentiu com a voz abafada. — Vamos.
...
A avó de Júnior não quis morar na cidade grande, então Ricardo comprou para ela uma casa térrea com um pequeno quintal no vilarejo. Era uma construção clássica, onde ela podia plantar hortaliças e flores. Como a idosa tinha limitações visuais e auditivas, Ricardo contratou uma cuidadora para morar com ela.
Alice e Ricardo compraram frutas e seguiram para a casa. Eram quase dez da noite. Idosos costumam dormir pouco, e ela ainda estava sentada em uma cadeira de balanço no quintal aproveitando o frescor da noite. Ao ouvir o portão, a cuidadora levantou a cabeça.
— Olha só! O neto da senhora voltou! — A mulher tocou a mão da idosa e gritou perto do seu ouvido: — O neto chegou!
O rosto da idosa iluminou-se com um sorriso bondoso. Ela largou o leque de palha, levantou-se e estendeu as mãos trêmulas em direção à entrada.
— Meu neto!
Ricardo avançou rapidamente, pousou as frutas e segurou as mãos da senhora. Aumentando o volume da voz, chamou: — Vovó!
O sorriso dela aumentou.
— E o neto ainda trouxe a noiva para te conhecer! — disse a cuidadora, convidando Alice para entrar com um sorriso largo.
Alice sabia que era um mal-entendido, mas como ainda não era "nada" oficialmente de Ricardo, resolveu não complicar as coisas com explicações. Ela cumprimentou a cuidadora e aproximou-se da idosa, falando alto também:
— Olá, vovó!
A senhora não era totalmente surda, mas perdera parte da audição por uma doença antiga; precisava que falassem perto do ouvido para entender. Ao ouvir Alice, ela abriu um sorriso radiante e segurou a mão dela.
— Que bom, que bom.
Ricardo observou a reação; Camila já viera visitá-la, mas a idosa nunca fora tão calorosa.
— A vovó gostou de você — comentou Ricardo, olhando para Alice.
Alice arqueou a sobrancelha. — Claro. Quem não gostaria de alguém linda como eu?
Eles falavam baixo, então a idosa não ouvia.
— Já que vieram tarde, não vão embora hoje. Durmam aqui com a vovó — pediu a senhora.
Ricardo sussurrou no ouvido dela: — Vovó, só temos três quartos. Não tem espaço para todos.
A avó e a cuidadora ocupavam dois; só restava um, a menos que ele dormisse no sofá.
— Eu cedo o meu quarto — interveio a cuidadora. — Durmo com a senhora hoje.
Ricardo aceitou o chá que ela trouxe e olhou para Alice. — Você quer ficar?
Alice queria que Ricardo passasse mais tempo ali. — Tudo bem, eu fico.
Após conversarem um pouco com a senhora, ela o apressou para arrumar o quarto. — Vá hospedar bem a moça.
Ricardo levou Alice para um dos quartos. — Eu sempre durmo neste quando venho. Você fica aqui hoje.
Ele tirou um jogo de cama limpo do armário. Alice encostou-se na parede para vê-lo arrumar a cama. Os hábitos da academia de polícia estavam gravados em seus ossos; mesmo em uma situação casual, seus movimentos eram ágeis e precisos. Ele esticou o lençol sem deixar uma única dobra e, em poucos segundos, transformou o cobertor em um "bloco de tofu" perfeito, com ângulos retos e impecáveis.
Alice sorriu.
— Aposto que você sempre tirava nota dez na inspeção de dormitório na academia, não é?
Ricardo virou-se para ela. — Sim. Como você sabe?
— Pelos seus movimentos. Você é sempre tão metódico. Será que sofre de TOC ou é só mania de limpeza?
Ricardo comprimiu os lábios. — É o costume. Mas se você ficar comigo, respeitarei se quiser ser mais despojada.
Alice encarou os olhos negros e profundos dele. Aproximou-se e, após respirar fundo, disse:
— Hoje você me contou algo muito importante. Eu também tenho um segredo que quero te contar.
Ricardo endireitou a postura imediatamente. — O que foi?
Alice sustentou o olhar dele por um segundo, mas logo desviou, com os cílios baixos e um ar de nervosismo.
— É que...