Capítulo 68: Revelando o Segredo do Coração
Ricardo levou Alice até uma encosta cercada por montanhas e águas cristalinas.
Lá, havia três túmulos.
Ricardo ajoelhou-se diante de dois deles e fez três reverências formais. Depois, caminhou até o túmulo mais à extremidade.
Ele dobrou um dos joelhos no chão e, com a mão, limpou a foto incrustada na lápide.
Alice sentiu um calafrio nos braços e aproximou-se por trás dele.
Ela baixou o olhar para a foto em preto e branco que Ricardo acabara de limpar.
Era um rapaz jovem, aparentando pouco mais de vinte anos, bonito, com um olhar brilhante e um meio sorriso; exalava uma retidão natural.
Ela ia perguntar por que Ricardo a levara ali, quando leu o nome gravado:
Ricardo Júnior
(蕭臨 -
Nota: Nome adaptado para manter a sonoridade/confusão no PT
).
— O nome dele é quase igual ao seu.
Ricardo assentiu, com o olhar sombrio e o semblante carregado de uma tristeza profunda.
— Ele era meu melhor amigo. Meu irmão de alma.
Rio Verde era a terra natal do avô de Ricardo. Aos nove anos, ele veio de São Paulo com a família para visitar os túmulos dos antepassados.
Sendo uma criança travessa, ele se afastou dos adultos durante a cerimônia e desceu a montanha escondido.
Ele queria pegar peixes no riacho ao pé do monte, mas não sabia que uma tragédia o aguardava.
Assim que chegou à beira da água, foi sequestrado.
Em meio à consciência turva, ouviu os sequestradores mencionarem o nome de seu avô.
Seu avô era um oficial de alta patente com grande poder, e as disputas políticas eram cruéis; aquele grupo fora enviado por inimigos políticos.
Eles queriam usá-lo para chantagear o avô.
As exigências eram absurdas e ele quase foi morto.
No meio da noite, aproveitando um descuido, ele desfez as cordas gastas e fugiu, correndo desesperadamente pela estrada.
Como estava ferido e era apenas uma criança, acabou caindo exausto no asfalto.
Justo quando os criminosos iam alcançá-lo, uma motocicleta apareceu.
Um homem de meia-idade levava um menino da mesma idade de Ricardo.
Ao verem a criança ensanguentada no chão, pararam imediatamente para ajudá-lo.
O homem colocou Ricardo na moto para fugir, mas os perseguidores eram implacáveis.
— Júnior, coloque ele nas costas e corra para a frente! — ordenou o pai ao filho.
O homem desceu da moto e enfrentou os bandidos sozinho.
— O pai do Júnior lutou contra eles com as mãos vazias. Foi espancado e... um deles usou um facão. Recebeu vários golpes — a voz de Ricardo, normalmente gélida, começou a tremer de dor. — O Júnior me carregou nas costas e correu sem olhar para trás. Mesmo numa situação tão perigosa, ele não me abandonou... Por sorte, meu avô chegou com reforços a tempo, mas o pai do Júnior não resistiu aos ferimentos.
Embora os sequestradores tenham sido punidos pela lei, nada traria a vida do pai de Júnior de volta.
O vento da noite soprava folhas secas sobre o túmulo. Uma lágrima quente escorreu pelo rosto austero de Ricardo.
— O Júnior tinha dez anos na época, apenas um a mais que eu. Ele já vivia em uma família monoparental e, de repente, ficou sem pai. Naquela noite, eles estavam indo para o interior visitar a avó, e por minha causa, ele perdeu tudo.
Alice nunca vira Ricardo tão vulnerável. Ela se ajoelhou ao lado dele, entregou-lhe um lenço e permaneceu em silêncio, oferecendo sua companhia.
Ricardo fechou os olhos injetados de sangue e continuou com a voz embargada:
— Minha família custeou os estudos dele e mandava uma pensão mensal para a avó. Nós nos tornamos irmãos. Sempre que eu tinha folga, vinha para Rio Verde vê-lo.
Eles eram inseparáveis. Júnior esforçou-se e entrou na mesma Academia de Polícia de São Paulo que Ricardo. Tornaram-se colegas de classe. Treinavam juntos, sonhando em ser policiais heróicos e íntegros.
Mas a tragédia bateu à porta novamente.
No terceiro ano da academia, no aniversário de Ricardo, eles foram com outros colegas comemorar em uma ilha.
Júnior, que nunca vira o mar, estava radiante.
Ele foi à praia ao amanhecer, mas um acidente aconteceu.
Uma jovem, desiludida amorosamente, saltou no mar. Júnior não hesitou e pulou para salvá-la.
Ele conseguiu mantê-la acima da água até que ela fosse resgatada, mas ele mesmo foi levado por uma onda gigante.
Ao receber a notícia, Ricardo sentiu o mundo desabar.
Ele tentou se jogar no mar para buscá-lo, e se não fossem os colegas segurando-o, ele teria morrido naquele dia também.
Buscou por Júnior dia e noite com as equipes de resgate, sem sucesso.
Ele se recusou a ir embora. Alugou um quarto na ilha e ficou lá por um mês, indo à praia ao amanhecer e voltando exausto na madrugada.
Naquele período, ele emagreceu e ficou irreconhecível.
Todos tentaram convencê-lo a desistir.
Mas ele acreditava que Júnior estava vivo, até que, numa manhã, encontrou um sapato familiar na areia entre conchas.
O nó do cadarço era do jeito que ele e Júnior costumavam fazer.
Ao pegar aquele objeto e limpar a areia, a última fibra de esperança de Ricardo se rompeu.
Ele desabou na areia e chorou até perder a voz.
Depois, a família o buscou e ergueram um cenotáfio (túmulo sem corpo) ao lado dos túmulos do pai e do avô de Júnior.
Alice ouviu o relato com o coração pesado. — Júnior poderia estar vivo? Talvez resgatado por pescadores?
Ricardo balançou a cabeça com amargura.
— Eu fantasiei com isso por anos. Visitei cada vila de pescador num raio de quilômetros. Mas com aquelas ondas e naquela região... as chances eram nulas.
Ricardo segurou a cabeça com as mãos, em agonia.
— Eu causei a morte do pai dele e a dele também. Se eu não tivesse inventado de ir para aquela ilha, ele estaria aqui. Eu devo tudo à família dele!
Ao ver aquele homem forte e inabalável prestes a desmoronar, Alice sentiu uma dor profunda. Ela acariciou as costas dele com ternura e disse com firmeza:
— Não foi sua culpa. O Júnior era como você: tinha a justiça no sangue. Ele não suportaria ver alguém sofrendo. Mesmo que não fosse na ilha, ele agiria da mesma forma em qualquer lugar para ajudar alguém.
Alice olhou para o rapaz sorridente na foto da lápide.
— Ele deu a vida para salvar outra pessoa. Foi a escolha dele, a essência do policial que ele se tornou. Se ele te visse vivendo nessa culpa, ficaria triste. Tragédias são imprevisíveis, Ricardo. Você não pode carregar o mundo nas costas.