Capítulo 65: Aconchegante e Harmonioso, Coração Acelerado
A intenção de Hugo em tomar o poder estava implícita em cada palavra.
Ele não queria que ela e Ricardo se afastassem por questões éticas; ele queria claramente usar o caso para suprimir Ricardo.
Ele era apenas um vice-capitão, e ainda assim não respeitava o capitão?
Qual era a origem desse Hugo?
Como um vice-capitão recém-transferido podia ligar para o Delegado Geral com tanta facilidade e fazê-lo dar ordens sem questionar?
Dava para sentir que o Delegado Geral estava do lado de Hugo.
Lipe e Biel, ao ouvirem as palavras de Hugo, deram um passo à frente querendo dizer algo, mas Ricardo imediatamente lhes lançou um olhar profundo e significativo.
As palavras que estavam na ponta da língua de Lipe e Biel foram engolidas à força.
Ricardo, reprimindo a própria aura, entregou a Hugo todos os registros de perícia preliminar, os pontos principais dos interrogatórios e outros documentos.
Concluída a transferência, Ricardo e Alice ficaram de lado, sem mais envolvimento na investigação.
Fora do auditório, a noite tornara-se densa.
Após quase quatro horas de triagem, a suspeita sobre Guilherme foi descartada.
Guilherme, Alice e Ricardo caminharam em silêncio para fora do campus.
Alice viera dirigindo e levou os dois até o seu carro.
Ela olhou para Guilherme e estendeu a mão, acariciando suavemente a cabeça do irmão.
— Gui, você ficou assustado?
Guilherme balançou a cabeça e pegou o celular, digitando:
「A culpa é minha, acabei envolvendo você e o cunhado.」
Ricardo e Alice disseram em uníssono: — Não foi sua culpa.
Após entrarem no carro, Alice olhou para Ricardo, sentado no banco do passageiro em silêncio. Seus olhos mostravam dúvida.
— Qual é a relação entre Hugo e o Delegado Geral? O Delegado Geral nunca se envolveu nesses detalhes antes.
Ricardo comprimiu os lábios. — Não tenho certeza, deve ser alguém da confiança dele. — Ele fez uma pausa e continuou: — Você sabe que a delegacia é dividida em facções, não sabe?
Alice assentiu. — Ouvi dizer que o Delegado Geral tem muitas divergências com o Delegado Regional (邵局).
— Desde que fui transferido para cá, resolvi muitos casos e sou o braço direito do Regional, então... — As feições de Ricardo ficaram rígidas. — Para ser direto, Hugo foi transferido por ordem do Geral para equilibrar a influência do Regional.
Alice franziu as sobrancelhas. — Então o Hugo vai tentar te derrubar a cada passo agora?
Ricardo tamborilou os dedos longos sobre o joelho, com um olhar de determinação.
— Eu não sou alguém que pode ser substituído ou suprimido tão facilmente. Hugo estudou na mesma academia de polícia que eu. Do ingresso à formatura, seja em teoria ou em treinamento tático, ele sempre foi esmagado por mim.
Ricardo soltou um riso frio. — Todos esses anos ele guardou rancor e tentou me superar para provar que é melhor, mas resolver crimes exige talento real, não apenas contatos. Ele ainda está longe do meu nível.
Ao ver o brilho de confiança e serenidade nos olhos de Ricardo, a preocupação de Alice desapareceu. Ela fez um sinal de positivo para ele.
— Um Capitão Ricardo confiante e capaz é realmente charmoso e atraente.
Guilherme também fez um sinal de positivo para Ricardo, com os olhos brilhando como um fã adorando seu ídolo.
— E tem mais... — Ricardo hesitou antes de dizer: — Hugo deve gostar da Beatriz. Ele soube que ela demonstrou interesse por mim no evento de integração e passou a me detestar ainda mais.
Alice balançou a cabeça, perplexa. — Pelo visto, o Hugo não quer apenas poder, ele também traz ressentimentos pessoais. Que falta de classe.
— Não se preocupe, não dou valor aos joguinhos dele. Se ele quiser investigar, precisará treinar mais dez anos para me alcançar.
Alice assentiu. — Não importa o que ele faça, eu estou do seu lado.
Tendo trabalhado com Ricardo em vários casos, ela sabia o quão profissional ele era e o rigor com que tratava as evidências.
Ele não culparia um inocente, nem deixaria um culpado escapar.
A retidão dele vinha de dentro.
No caminho de volta, Alice suspirou:
— O mundo é imprevisível. Pouco antes vimos o Beto insultando o pai daquele jeito, dizendo que ele era um inútil e que deveria se enforcar, e agora ele mesmo acabou assim.
Guilherme, no banco de trás, passou o celular para Ricardo:
「Alice, cunhado, uma vez no banheiro eu ouvi o Beto dizendo para o Rodolfo e o Gustavo que a mãe dele arranjou um padrasto muito rico. Ele disse que a mãe ia "virar fênix" e que ela desprezava o pai caminhoneiro, dizendo que ele era pior que um lixo. O Beto contou isso com muito orgulho.」
Alice olhou para o celular enquanto esperava o sinal abrir.
— Com razão o Beto falava assim do pai, foi ensinado pela mãe. Ter orgulho de uma coisa dessas... que bizarro.
Ela olhou para Ricardo. — Você acha que o pai do Beto pode ter trocado o objeto de cena?
Ricardo estreitou os olhos. — Não descarto a possibilidade. Mas o Beto era arrogante, egoísta e ambicioso; com certeza tinha muitos inimigos. Para saber quem é o culpado, precisamos de provas concretas.
Devido ao incidente na escola, Alice ficou com medo de que Guilherme ficasse traumatizado e decidiu dormir na casa da mãe.
Ricardo pegou o carro de Alice e voltou para o apartamento.
No dia seguinte, após o expediente, Alice voltou novamente para a casa da mãe.
Lá embaixo, ela viu o utilitário de Ricardo.
Como Hugo o afastara do caso de Beto, Ricardo simplesmente tirou suas férias anuais.
Alice não o vira na delegacia o dia todo. Jamais imaginou que ele estaria na casa dela.
Ela subiu rápido e abriu a porta, curiosa.
Guilherme estava vendo TV e correu ao seu encontro.
— O Ricardo está aqui? — perguntou Alice.
Guilherme assentiu e a levou até a porta da cozinha.
Ricardo e Helena estavam cozinhando. Helena cortava os ingredientes enquanto Ricardo era o chef no fogão.
Ele vestia roupas pretas; alto, de ombros largos e cintura estreita, seus movimentos com a frigideira eram ágeis e precisos.
Sua mãe lançava olhares de admiração para ele.
Os dois conversavam sobre amenidades, em uma harmonia perfeita.
Alice estava em choque. Entrou na cozinha, cumprimentou a mãe e encarou Ricardo:
— O que você está fazendo aqui? Nem me avisou! Já está tão íntimo da minha mãe assim?
Antes que Ricardo respondesse, Helena falou:
— Eu chamei o Ricardo. Quando o seu irmão praticava piano, ele vinha depois do trabalho para orientá-lo. Eu o convidei para jantar e eu ia cozinhar... — Helena sorria radiante. — Mas este rapaz fez questão de assumir o fogão para nos mostrar seu talento. Rapazes prendados e prestativos assim estão raros hoje em dia.
— Mãe, ele tem vinte e oito anos, não é mais um "rapaz".
Helena lançou um olhar de reproche à filha. — Para mim, ele é como um filho.
Ricardo, que estivera em silêncio, de repente pegou um pedaço de comida com os palitinhos e levou à boca de Alice.
Inclinando levemente o corpo alto em direção a ela, ele disse:
— Experimente o sal.
Ao encontrar aquele olhar profundo e focado, o coração de Alice falhou uma batida.