Alice balançou a cabeça negativamente.
Bia soltou um suspiro de alívio. "Você me deu um susto terrível, saiu tanto sangue ontem. O corte era tão profundo que dava para ver a gordura, branquinha. Fiquei desesperada por você."
"Ah, a culpa foi daquele moleque do sobrenome Gu, todo atrevido e sem respeito! Mas se não fosse o papai pressionando para casar, nada disso teria acontecido."
Alice queria dizer algo, mas Bernardo estava voltando acompanhado do médico.
O médico aproximou-se para examinar os ferimentos de Alice.
Nesse instante, o celular de Bia tocou. Na tela, aparecia: Papai.
Provavelmente era para perguntar sobre o progresso dos encontros às cegas.
A expressão de Bia congelou imediatamente, e ela olhou para Bernardo como se implorasse por socorro.
Bernardo franziu a testa, pegou o celular da mão dela e saiu apressado do quarto.
Bia, temendo que algo ruim acontecesse, correu atrás dele.
O exame médico terminou, e o doutor assinou um pedido para que Alice fosse ao andar de baixo realizar um check-up completo.
Ao chegar perto da escada, ela ouviu vozes familiares.
"Bia, escute bem: não importa o que nossos pais pensem, eu jamais aceitarei que você se case! Nesta vida, eu escolhi você! Mesmo que eu tenha que abrir mão da herança da família Ferraz, eu não me importo!"
"Mas você pensou na Alice? Ela é sua esposa agora e minha melhor amiga. Você acha que isso é justo com ela?"
Bia olhava para Bernardo com o rosto banhado em lágrimas.
Ele segurou os ombros dela com força, com os olhos injetados e a voz rouca de desespero: "Você está preocupada com ela? Então por que me forçou a casar com ela no início? Você sabe muito bem que eu só amo você... Bia, você quer me enlouquecer?"
Ele falava com uma angústia dilacerante.
No momento seguinte, como um leão que desperta, ele a beijou intensamente, sem restrições.
Bia não conseguiu resistir ao beijo feroz e foi pressionada contra a parede, perdendo-se naquele desejo incontrolável.
Logo, sons abafados e suspiros ofegantes puderam ser ouvidos.
Alice não conseguiu mais ouvir. Ela deu meia-volta e partiu.
...
Choveu por três dias em São Paulo, o mesmo tempo que Alice permaneceu internada.
No dia da alta, Bernardo veio pessoalmente buscá-la.
Ele não desceu do carro. A porta se abriu automaticamente, e Alice entrou e sentou-se em silêncio.
Aquele irmão atencioso e gentil que ele era diante de Bia não existia quando estava com ela.
Bernardo lançou-lhe um olhar rápido e perguntou friamente: "Ainda dói?"
Alice balançou a cabeça, sem responder.
O carro arrancou com um estrondo. Eles seguiram em silêncio por todo o caminho até que Bernardo finalmente falou:
"Já somos casados há tantos anos, se houver algo que a deixe infeliz, pode falar."
Alice sentiu vontade de rir amargamente. Ele tratava o ato de consolar a própria esposa de forma tão pragmática e contida, como se resolvesse uma transação comercial onde ela pudesse apresentar suas demandas.
Com o coração sem esperanças, Alice apenas olhou pela janela. "Não é nada. Apenas foque na direção."
A essa altura, o que restava para conversarem?
O fato de que ele não a amava já era uma verdade cristalina para ela.
À noite, Alice não conseguiu dormir. Só conseguiu fechar os olhos, exausta, quando o sol já estava prestes a surgir.
Ao acordar novamente, o dia já ia alto.
Assim que abriu os olhos, viu uma silhueta alta e fria de pé diante da penteadeira aos pés da cama.
O espelho refletia o perfil severo de Bernardo.
Ele tomava um gole de café enquanto folheava, concentrado, um livro de poesias sobre o móvel.
Capítulo 5
Após um momento, Bernardo notou Alice pelo reflexo do espelho.
"Acordou?" O tom dele era casual, mantendo a atenção no livro. "Não sabia que você gostava de poesia."
Talvez ele tivesse esquecido — ou talvez o presente tivesse sido comprado por um secretário — mas aquela coletânea fora o presente de aniversário que ele dera a Alice na época da faculdade. Ao longo dos anos, ela a leu tantas vezes que as páginas estavam repletas de anotações minuciosas.
Alice mudou de assunto: "Não vai trabalhar hoje?"
"Não." Bernardo aproximou-se devagar, com uma mão no bolso. "Estive muito ocupado ultimamente e não lhe dei atenção. Hoje vamos àquele parque de diversões que você mencionou, para relaxar."
Alice franziu a testa, sem entender quais eram as intenções dele.
Quando deu por si, já estavam na entrada do parque.
O gerente do local providenciou acesso VIP para todas as atrações, sem filas.
Assim, Bernardo levou Alice para andar no carrossel e na montanha-russa.
Enquanto estavam no elevador panorâmico, ambos fecharam os olhos com força. Alice, sem querer, segurou a mão de Bernardo, mas soltou-a rapidamente assim que percebeu, deixando Bernardo com um olhar indecifrável.
A última parada foi a roda-gigante.
A cabine subia silenciosamente, afastando-se do chão.
Lá embaixo, os prédios e as silhuetas das pessoas tornavam-se minúsculos como poeira. O brilho do pôr do sol espalhava-se pelo céu, iluminando os dois.
Fogos de artifício explodiram no horizonte, elevando a atmosfera ao ápice.
Bernardo tirou uma foto e começou a digitar freneticamente no celular.
Na tela, estava a conversa dele com Bia.
Ele enviou a foto do pôr do sol com os fogos.
A mensagem dizia: Que lindo. Estou com saudades.
Alice reprimiu a amargura em seu peito e virou o rosto para a janela.
Quando criança, ouviu dizer que a roda-gigante era a "roda da felicidade".
Diziam que, se você subisse nela com a pessoa amada, seriam felizes para sempre.
Por muito tempo, inclusive nos três anos de casada, andar de roda-gigante com Bernardo fora a obsessão de Alice.
Contudo, ela não imaginava que, hoje, estaria no ponto mais alto, perto do céu, e ainda assim tão distante da felicidade.
Quando a roda-gigante parou, já estava escuro.
Bernardo reservou um jantar em um restaurante premiado e mencionou, como quem não quer nada:
"Bia disse que está fazendo as unhas aqui perto. Vou chamá-la para jantar conosco."
Se era coincidência ou planejado, Alice já não queria mais especular.
Ela apenas assentiu. Logo, Bia entrou no recinto.
"Alice, como meu irmão se comportou hoje?"
Alice forçou um sorriso e respondeu baixo: "Foi aceitável."
"Eu sabia que você ia gostar", disse Bia, radiante. "Vi que você andava meio triste ultimamente, então pedi para ele passar mais tempo com você. Ele é meio frio e orgulhoso, não entende nada de mulheres. Tenha um pouco de paciência com ele, Alice."
Alice estancou. Então, a iniciativa de Bernardo hoje fora, na verdade, um pedido de Bia.
Até aquele último resquício de ilusão fora destruído.
Para ela, aquela comida não tinha sabor.
Momentos depois, o chef iniciou uma performance com fogo. Bia, fascinada, arrastou Bernardo para assistir de perto.
Alice, sentindo um cansaço profundo, usou a desculpa de ir ao banheiro para se retirar.
Ao sair, o caos havia se instalado. As pessoas corriam desesperadamente em direção à saída, em meio a gritos agudos.
Confusa, Alice sentiu o cheiro de uma fumaça sufocante.
"Fogo! Socorro!"
O coração de Alice disparou. Ela pensou em fugir, mas lembrou-se de que Bia e Bernardo ainda estavam no salão.
Ignorando o perigo, ela correu contra o fluxo de pessoas.
Ao chegar perto da área reservada, viu Bernardo protegendo Bia nos braços enquanto buscavam a saída.
"Irmão, a Alice ainda está no banheiro! Ela não sabe do fogo! Vá salvá-la primeiro, eu consigo sair sozinha!"
"Não! Você vem comigo primeiro."
A voz de Bernardo era urgente e firme. Mas Bia insistia:
"Eu estou bem! Vá buscar a Alice, ela é sua esposa. Se algo acontecer com ela hoje, como você vai olhar para os pais dela?"
"Bia, escute bem: eu não me importo com ela ou com os pais dela. Eu só preciso que você esteja segura! Se ela conseguir sair, será sorte dela; se não conseguir, não é problema nosso. A única pessoa que importa para mim é você. O resto não interessa."
Cada palavra era como uma lâmina cravada em Alice.
Ela mordeu os lábios com força e apertou as mãos, sem ousar emitir um único som.
Somente quando os dois se distanciaram, a multidão em pânico empurrou Alice violentamente.
Ela caiu no chão e foi pisoteada pelas pessoas que fugiam.
Uma dor dilacerante subiu pelas suas costas, quase fazendo-a desmaiar.
As chamas cresciam, aproximando-se de onde ela estava.
Reunindo suas últimas forças, ela se arrastou, cobriu o nariz e a boca e usou a parede como apoio para tentar sair.
Ao conseguir escapar, cambaleando, viu ao longe Bernardo ajoelhado no chão, massageando a perna de Bia.
Diante daquela cena, os olhos de Alice arderam e as lágrimas caíram.
Ela olhou para o próprio braço coberto de hematomas e deu um sorriso amargo para si mesma.
Capítulo 6
Alice enviou uma mensagem a Bia avisando que estava segura e voltou sozinha para a mansão dos Ferraz.
Sobreviver ao desastre mudou os dois grupos de pessoas.
De um lado estavam Bernardo e Bia; eles pareciam ainda mais decididos um pelo outro e começaram a agir de forma íntima em público sem qualquer escrúpulo.