Capítulo 136: Primeiro Beijo
— Quem te disse que aquele bracelete era uma relíquia? Minha mãe guarda as joias da família na mansão ancestral; jamais as tiraria de lá para dar de presente assim.
— Mas o bracelete...
Heitor disse friamente: — O presente que minha mãe deu para a Marina foi um par de brincos. Aquele bracelete deve ter sido presente da própria família Vitória.
Ele não tolerava mal-entendidos.
Sendo algo tão sério, ele tratara de investigar.
No caminho para o parque, já mandara verificarem os fatos.
Afinal, Priscila não era imprudente; por mais mimada que fosse em casa, em público era sempre elegante e educada.
Se ela saíra furiosa, algo acontecera.
Começou investigando o tal bracelete.
— Então a Marina mentiu para mim de propósito?
— A Marina não é esse tipo de pessoa calculista — ponderou Heitor.
— Então quer dizer que EU sou? Que eu quis caluniar ela?
— Priscila! Não precisa ter ciúmes de alguém irrelevante, nem precisa agir como um porco-espinho comigo. Entre eu e a Marina, não existe nada.
Heitor não era o homem mais doce com as palavras.
Mas Priscila entendeu o que ele quis dizer.
Ela não era boba de verdade.
— Humpf! Eu continuo brava!
— E o bracelete que você quebrou...
— Eu já disse que vou pagar! — Priscila mordeu o lábio, resmungando: — A culpa é sua. Se não tivesse me irritado, eu não teria trombado com ela.
— Culpa minha. Eu assumo o prejuízo.
Ela observou aquele homem nobre e gélido...
Lembrou-se dos anos de paixão platônica e do amor intenso que escondia.
Subitamente, ela deu um passo à frente, erguendo o rosto para encarar aquele homem de um metro e oitenta e cinco, e sorriu:
— Você veio atrás de mim e me disse tudo isso... quer dizer que gosta de mim?
Ela queria uma resposta direta, não uma admissão ambígua.
Heitor ergueu a sobrancelha.
Ela agarrou a mão dele: — Fala logo!
— O que você quer ouvir?
— Você gosta de mim ou não?
Priscila estava quase tendo um colapso com a calma dele.
Num momento desses e ele ainda posando de "lorde gélido". Ela estava desesperada.
— Você me ama? Me dê uma resposta clara. Se sim, serei sua namorada daqui em diante. Se não, tudo bem, não te procuro mais.
Heitor ponderou e disse: — Sem a sua amolação, minha vida seria um tédio total.
— Então você gosta de mim, né? — Ela queria forçá-lo a dizer aquelas palavras.
Mas ele, sabendo exatamente o que ela queria, fazia questão de deixá-la ansiosa. Era um malvado.
Heitor olhou para cima; a roda-gigante iluminou-se naquele instante.
— Quer subir?
Priscila estava frustrada.
Ele sempre desconversava.
Seria tão difícil admitir que a amava?
Ela entrou pisando duro em uma das cabines da roda-gigante, e a silhueta imponente de Heitor entrou logo atrás.
— Saia! Já que não gosta de mim, melhor não ficarmos juntos para evitar mal-entendidos inúteis!
O semblante de Heitor ficou sério.
Ele fechou a porta da cabine.
A roda-gigante começou a se mover.
Priscila recusava-se a olhá-lo.
— Tão brava assim?
— Sou brava sim. Se não gosta, não olhe.
Heitor já estava acostumado com o gênio de Priscila.
Ele até gostava de vê-la com aquele biquinho de raiva.
— Você só quer ouvir um "eu te amo", não é? — Heitor estendeu a mão subitamente e a puxou pela cintura.
Foi a primeira vez que ele a tocou com tanta iniciativa; Priscila sentiu o corpo entrar em combustão de tanto nervosismo.
— O que... está fazendo?
Ela o encarou, tensa.
Nas pupilas negras dele, via o próprio rosto corado.
Heitor curvou os lábios levemente.
— Vou te beijar.
Assim que terminou de falar, selou os lábios dela sem dificuldade.
Foi um beijo terno.
Mas também possessivo.
O aroma dele envolveu Priscila.
Anos de adoração e dedicação criaram em Priscila uma dependência infinita por Heitor.
Naquele momento, sob o toque dos lábios dele, seu coração parecia ter parado; ela conseguia ouvir nitidamente as batidas frenéticas em seu peito.
Ele a estava beijando.
Ele, que sempre fora avesso a intimidades.
Que não permitia nenhuma outra mulher por perto.
E que, mesmo com ela, vivia pregando sobre a distância necessária entre os sexos.
O que dera nele hoje? Por que tanto ardor?
Mil dúvidas passaram pela mente de Priscila, mas todas desapareceram conforme Heitor aprofundava o beijo, reivindicando cada espaço.
Ela fechou os olhos e entregou-se ao momento.
Mesmo que ele não tivesse dito a palavra "amor", e daí?
O que ele estava fazendo era o que se faz com a garota que se ama.
Não precisava de um rótulo agora.
Contanto que pudesse estar com ele, nada mais importava.
...
— Eu não aceito! Eu só amo o Heitor e quero casar com ele!
Marina estava de joelhos, implorando a Breno e Beatriz: — Papai, mamãe, eu imploro, me ajudem. Eu o amo tanto, não posso simplesmente desistir.
Beatriz tentou levantar a filha, impotente: — Não é que mamãe não queira ajudar, mas o Heitor é um rapaz de personalidade muito forte. Nem o Senhor Fontes nem a Alice conseguem forçá-lo a nada. Se alguém tentar ameaçá-lo, ele jamais cederia.
Breno, observando o pranto da filha, perdeu a paciência pela primeira vez.
— Por que está chorando? Você é a herdeira dos Vitória, futura dona de todo o patrimônio da família. Tem status, dinheiro e beleza. Acha mesmo que não encontrará um homem à sua altura?
— Mas eu só quero o Heitor Fontes! Só quero casar com ele!
Marina também mostrou, pela primeira vez, seu lado mais obstinado ao pai.
— Se eu não casar com ele, prefiro morrer!
Dito isso, saiu correndo para o quarto aos prantos.
Beatriz limpou o canto dos olhos, desolada: — O que faremos? Eu sabia que ela não aceitaria fácil. Mas hoje a Vitória me disse... o Heitor sempre amou a Priscila Qin. Ela quer que a gente pare de dar esperanças à Marina antes que ela faça alguma loucura.
Breno sempre mimara Marina.
Mas naquele assunto, ele não podia mais ceder.
— Mande vigiarem a Marina. Ela não sai de casa.
— Você vai trancá-la?
— Vou fazê-la cair na real! — Breno saiu de casa furioso.
Vitória esperava no carro do lado de fora e viu o irmão sair enfurecido.
Abriu a porta e chamou: — Irmão, aqui!
Breno estancou.
Ao entrar no carro, perguntou: — Por que ainda não foi embora?
— Estava preocupada com você.
— Não há nada com que se preocupar.
— A Marina é teimosa e a cunhada não vai desistir fácil. Nesta família, só nós dois somos racionais.
Vitória pediu para o motorista partir e começou a analisar a situação com Breno.
Se tentassem forçar aquele casamento, além de não conseguirem o que Marina queria, poderiam arruinar o futuro do Grupo Vitória.
Marina era frágil; se a empresa entrasse em declínio, ela seria maltratada por qualquer um com quem casasse.
Apenas um histórico familiar poderoso, riqueza e status seriam sua garantia vitalícia.
— O que o Bernardo e a Alice disseram?
— Eles só seguem a vontade do Heitor — disse Vitória seriamente.
A expressão de Breno perdeu totalmente o ímpeto de luta.