Capítulo 130: Dupla Personalidade
Foi justamente por ter confirmado que ele tomara a decisão.
A verdade sobre o porquê de Paola tê-lo deixado também veio à tona durante essa busca.
Alice, ao ouvir o relato de Leo, sentiu suas defesas desmoronarem.
Quem imaginaria que algo como dupla personalidade pudesse acontecer com Paola?
Ou seja: a pessoa que amava Leo profundamente e desejava que ele fosse feliz, que tivesse uma união eterna com a esposa e muitos filhos, era a Paola que eles conheciam no dia a dia.
Mas quem ligara de madrugada, ameaçando Leo e lançando maldições, era uma personalidade fragmentada de Paola, criada sob condições de repressão extrema, dor e desespero.
Essa personalidade sabia de tudo sobre Paola.
Ela também sabia que a outra personalidade não deixaria Paola tentar recuperar Leo, então usou aquele método para controlar o resto da vida dele: sem filhos, ele estaria livre para ficar com ela na próxima vida.
Era bizarro demais.
Alice arquejou, séria: — Então você manteve a promessa de não ter filhos por causa disso?
— Depois que soube de toda a verdade, não consegui mais enterrar a dor e o amor que sinto por ela. Eu admito, sou um lixo por amar duas mulheres ao mesmo tempo. Não suporto a ideia da Paola sofrer, mas também não quero que a Jade seja injustiçada. Mana, eu sou um canalha?
Os olhos de Leo estavam vermelhos e, apesar de já ter chorado, novas lágrimas ameaçavam cair.
Alice, por sua vez, sentia o coração partido pelo irmão.
Se não fossem aquelas tragédias, ele seria um jovem vibrante; mesmo amadurecendo, não precisaria ser tão retraído e melancólico.
— Não existe regra no mundo que diga que alguém não pode amar duas pessoas. Você amou Paola primeiro e depois amou a Jade, mas ao descobrir a verdade, é natural não conseguir desapegar.
Alice abraçou a cabeça de Leo gentilmente: — Chore. Depois que terminar, vamos viver nossas vidas.
...
Alice, que passou a noite inteira suspirando, não percebeu onde Bernardo Fontes estava. Sua mente estava ocupada com a revelação da dupla personalidade de Paola.
Afinal, um transtorno desses não surge da noite para o dia.
Provavelmente já havia sinais há muito tempo.
Pela manhã, Bernardo finalmente voltou. Alice não dormira bem, pensando no assunto, e continuava na cama.
Ele sequer trocou de roupa e foi direto ao quarto.
Ao ver os olhos inchados da esposa, soube que ela fora ver o Leo; não imaginava que ela choraria tanto.
Bernardo buscou dois ovos cozidos na cozinha, vestiu um pijama limpo e entrou debaixo das cobertas para fazer compressas nos olhos dela.
Alice não estava dormindo; sentia cada movimento dele, mas não queria se mexer.
Ela murmurou: — Onde você estava ontem à noite?
— Tive um encontro com o Pedro e depois fui ao cemitério.
Alice despertou na hora. Virou-se para encarar o marido com o olhar atento.
O estado dele não era bom; olhos marejados e uma expressão de profunda tristeza.
Ela sabia que ele ainda sofria muito.
Alice o abraçou com força, enterrando o rosto em seu peito.
— Marido.
Aquele "marido" fez Bernardo baixar todas as defesas.
Ele acariciou o cabelo dela, envolvendo seu corpo, mas ainda assim não contou o que conversara com Pedro.
Alice sabia que ele escondia algo, mas como ele não queria falar, ela não o pressionaria; contanto que ele ficasse bem.
E, claro, ela também não pretendia contar a Bernardo sobre a revelação de Leo quanto à personalidade fragmentada de Paola.
Paola já se fora; era melhor que esses segredos permanecessem enterrados.
O casal dormiu por um tempo. Quando acordaram para comer, já era hora do almoço. O jovem Heitor (Taotao) trouxera Priscila (Ruoruo) para "mangar" um almoço.
Na superfície era apenas uma visita casual, mas no fundo ele esperava que a alegria de Priscila animasse os pais. Desde a morte da tia, ele via o estado mental deles piorar e estava preocupado.
Priscila herdara o otimismo dos pais, Rafael e Cissa; assim que chegou à Mansão do Horizonte, as risadas não pararam.
Breno e Beatriz também vieram com Marina (Xiaoxiao) visitar Bernardo e Alice. Marina era um ano mais nova que Priscila, mas como era frágil desde pequena e de estatura baixa, parecia ainda menor ao lado de Priscila.
Beatriz lançou um olhar enigmático para Priscila e disse a Breno:
— Deixe a Marina ir brincar um pouco com o Heitor. Em casa ela não para de falar que quer ver o "irmão" Heitor.
— Sim, eu a levo lá.
Breno era o irmão de Vitória; Alice e Bernardo sempre o respeitaram muito. Nos negócios, as famílias tinham muitas parcerias, mas esses encontros privados eram raros.
Alice viu Breno levar Marina para brincar com o filho e ficou preocupada.
O filho estava jogando xadrez com Priscila; Marina saberia jogar?
Ela era doente e fora mimada por Beatriz a vida inteira, tratada como cristal...
— A medicina da sua veterana Red é extraordinária. Desde que ela aplicou as agulhas e deu os remédios para a Marina, a saúde dela melhora a cada dia. Tentei dar presentes a ela várias vezes, mas foram todos devolvidos. Queria saber se há chance de convidá-la para um jantar.
Beatriz sentou-se ao lado de Alice, segurando sua mão de forma amigável.
Alice deu um sorriso amarelo: — Minha veterana é uma pessoa muito desapegada. Se ela não aceitou os presentes, é porque não quer mesmo. Se insistir demais, ela vai se irritar. Melhor não mandar mais nada. Quanto ao jantar... se ela vier a São Paulo novamente, eu te aviso quando eu for jantar com ela.
— Muito obrigada!
— A Marina sabe jogar xadrez?
— Não muito, ela não gosta dessas coisas. Apesar da saúde frágil, ela não para quieta. Eu já concordei em deixá-la estudar dança. Ballet, especificamente.
Marina queria estudar ballet?
O coração de Alice teve um pequeno sobressalto. Paola era bailarina; se não fosse pela depressão e pelos problemas físicos que a forçaram a desistir do sonho, Paola teria sido uma estrela mundial do ballet.
Beatriz captou aquele flash de emoção e ternura no rosto de Alice.
Foi a primeira vez que ela tentou decifrar os pensamentos de Alice, mas não seria a última.
Pela sua filha, ela faria qualquer coisa.
— Tive uma hemorragia grave no parto da Marina e os médicos precisaram remover meu útero. Nesta vida, só terei a Marina como filha. Por ela, eu daria a minha própria vida. O que ela quiser aprender, eu apoiarei.
Alice também era mãe. Sendo estéril de nascença, ter Heitor fora um milagre. Por isso, ela entendia perfeitamente Beatriz.
— A saúde dela vai melhorar. Pedirei para a veterana Red vir fazer o acompanhamento a cada seis meses. Vai dar tudo certo.
— Agradeço de coração, Alice.
— Não há de quê.
Alice e Beatriz conversavam quando, subitamente, ouviram um choro vindo de onde as crianças estavam.