Capítulo 129: Não querer filhos
A morte de Paola foi um golpe duro para todos, mas o mais sofrido era, sem dúvida, Pedro.
Ele a protegeu por tantos anos, mas Paola não conseguiu resistir; contudo, ter tido aquele período de memórias felizes e tranquilas com ela seria o suficiente para sustentá-lo pelo resto da vida.
Jade, preocupada com o irmão, decidiu voltar a morar na casa dos Samuel por um tempo. Pedro já transferira o foco de seu trabalho de volta para o Brasil e, se nada mudasse, passaria a se desenvolver por aqui.
Ele dedicava-se agora a ajudar pessoas com depressão a saírem das sombras, investindo grandes quantias e esforços, ajudando muita gente.
Leo, após casar-se com Jade, já havia superado os eventos passados, mas a morte de Paola o deixou culpado e triste.
Embora amasse muito sua esposa, Jade, era impossível esquecer o sentimento daquele primeiro amor intenso e dedicado.
Ele ficou prostrado por muito tempo.
Certo dia, Alice Guimarães foi procurá-lo trazendo bebida.
— Mana, o que faz aqui? — Leo estava com a barba por fazer e o rosto bonito não exalava um pingo de vitalidade; estava deprimido há dias.
— Se eu não viesse, a empresa pararia de rodar. Leo, você já é um homem maduro, entendeu?
— Eu sei. — Leo baixou os cílios, sem forças. — Só quero prestar uma última homenagem a ela.
— Por isso mesmo, sua irmã veio te acompanhar.
Após terminarem aquela garrafa, todos precisariam se reerguer.
Quem partiu encontrou a libertação, e quem ficou precisava valorizar o presente.
Alice bebia com Leo quando este, curioso, perguntou:
— Mana, por que você nunca me perguntou nada nesses anos todos?
— Perguntou o quê?
Os olhos de Alice estavam vermelhos; ela queria chorar, mas se continha, sentindo o peito apertado de dor.
Fazia questão de lembrar o quanto amava aquela "fofura" que era a Paola. Paola pudera esquecer as dores do passado e recomeçar com Pedro, e ninguém ficara mais feliz que Alice por isso.
Mas Paola morrera.
O suicídio dela esmagara muita gente.
Alice precisava ser forte para apoiar Bernardo Fontes e, ao mesmo tempo, preocupar-se com o irmão caçula, enquanto ela mesma tentava digerir a perda de Paola. Ela nem sabia até quando aguentaria.
Sua mente estava um caos.
Ela não conseguia processar o que havia por trás das palavras de Leo agora.
— Mana, eu e a Jade não temos filhos depois de tantos anos, por que você nunca perguntou o motivo? O estranho é que o papai e a mamãe só perguntaram uma vez e nunca mais tocaram no assunto. Já se passaram tantos anos, até o Heitor já está com dezesseis... vocês não têm curiosidade?
Alice arregalou os olhos em choque, surpresa por Leo estar questionando aquilo.
Acaso não fora uma decisão dele?
Os relatórios médicos dele e de Jade eram normais; ou seja, nenhum dos dois tinha problemas de fertilidade. Só restava um motivo.
Leo encontrou o olhar de compreensão de Alice e balançou a cabeça com autodepreciação:
— Desde pequeno nunca consegui esconder nada de você, e desta vez não foi diferente. Você já sabia, não é?
— Você ama muito a Jade, eu não conseguia entender a ideia de você não querer um filho com ela. Você viu como ela mima o Heitor e a Priscila, ela adora crianças.
Leo baixou a cabeça, tomado pela culpa.
Como ele não saberia o quanto a esposa amava crianças?
Mas ele prometera a uma pessoa: nesta vida, jamais teria filhos.
Sem filhos, sem vínculos mais profundos, haveria sempre um lugar em seu coração reservado para ELA.
— Leo, o que está acontecendo afinal? — Um flash passou pela mente de Alice, como se ela estivesse prestes a captar algo, mas ainda escapava. Ela agarrou o braço de Leo, apertando-o com força, encarando-o com intensidade: — Por que não quer filhos?
Havia mais coisas que eles não sabiam?
Leo chorou.
Aquele homem centrado e calmo simplesmente desabou.
Ele encostou no ombro de Alice e chorou alto, com uma dor profunda.
Nem Alice jamais vira Leo chorar daquele jeito. Ele fora travesso na infância, mas sempre forte, protegendo ela e os pais, carregando tudo nos ombros.
Ele queria que a família vivesse bem.
Ele nunca tivera um choro tão histérico e desolado.
Alice ficou atônita por um instante, mas logo começou a dar tapinhas em suas costas, exatamente como faziam quando crianças.
Ela e o irmão sempre foram confidentes.
Ela esperava que ele pudesse pôr para fora o que escondia no coração, para que ao menos pudesse respirar mais aliviado.
Os irmãos beberam bastante e, sob o efeito do álcool, Leo chorou por um longo tempo.
Quando ele finalmente parou, o ombro de Alice estava quase dormente, sem contar a roupa encharcada de lágrimas.
Ela pegou um lenço e, com todo o cuidado, limpou o rosto do irmão.
Leo levantou a cabeça obedientemente para que ela o limpasse.
O clima era idêntico ao de quando eram pequenos.
Alice disse: — Pode contar para a sua irmã agora?
Leo assentiu.
Após casar com Jade, ele pretendia ter filhos.
Jade, sendo dona de casa, certamente desejaria a companhia de uma criança, e como ele vivia ocupado com o trabalho e tinha pouco tempo para ela, esse era o plano.
Contudo, durante a lua de mel com Jade, numa madrugada, ele recebeu uma ligação de Paola.
O tom de Paola estava estranho, como se ela fosse outra pessoa, gélida e distante. Ela disse que não suportaria ver o homem que amava tornar-se marido de outra e, depois, pai dos filhos de outra.
Ela disse ainda que esperava que, após sua morte, pudesse retomar o destino com Leo.
Se Leo fosse pai de outra pessoa, ele a esqueceria, esqueceria o que viveram de bom.
Ela seria egoísta por uma vez: proibia Leo de ter filhos.
Na hora, Leo achou que atendera a ligação errada, mas Paola repetiu vários momentos felizes que viveram. Embora o tom fosse mecânico, Leo sabia que era ela.
Ele tentou consolá-la, mas não cedeu à exigência.
Ela subitamente começou a chorar, dizendo que amava Leo e que o deixara para que ele tivesse uma vida melhor.
Mas que se arrependera.
Já que Leo casara e ela não podia tê-lo de volta, ela seria a "luz eterna" (White Moonlight) no coração dele.
Ela tinha medo que Leo tivesse filhos, especialmente uma filha.
Aquela atitude obsessiva e doentia deixou Leo estarrecido.
Até que, finalmente, Leo prometeu a ela. Só então ela parou de chorar e disse: se Leo voltasse atrás, mesmo morta ela não o perdoaria, nem deixaria Jade em paz.
Leo sentiu um suor frio.
Como uma pessoa tão pura e bondosa poderia proferir uma maldição tão cruel?
— No dia seguinte liguei para o Pedro para saber como ela estava. Ele disse que ela dormira a noite inteira e não ligara para ninguém.
Alice achou aquilo sinistro. — E então? Sem confirmar nada, você simplesmente decidiu não ter filhos?
— Eu confirmei — disse Leo gravemente.