Capítulo 54: Como Estranhos, Atividade de Confraternização
Por vários dias seguidos, Alice e Ricardo não se falaram nem se viram.
Certo dia, Camila apareceu na delegacia e encontrou Alice almoçando com Vic no refeitório.
— Doutora Alice, podemos conversar? — perguntou Camila.
Alice ficou surpresa. Pousou os talheres com um olhar de dúvida.
— Você quer falar comigo?
Vic, ao lado de Alice, lançou um olhar de desprezo para Camila.
— Você ainda tem coragem de procurar a Alice? Se eu fosse você, me esconderia num bueiro.
O rosto de Camila ficou vermelho e seus olhos marejaram, como se fosse desabar em lágrimas a qualquer momento.
Alice levantou-se.
— Tudo bem. Venha comigo.
Alice levou-a para um local reservado e perguntou:
— O que você quer?
Camila respirou fundo várias vezes antes de dizer:
— Vim te pedir perdão.
Alice comprimiu os lábios.
— O dano já foi feito. Você tem o direito de pedir desculpas, e eu tenho o direito de não perdoar.
Camila empalideceu. Seus dedos se entrelaçaram com força.
— Eu sei que você não vai me perdoar, mas eu te devia isso. Depois do que aconteceu comigo, você me salvou e ainda se esforçou para descobrir a verdade. Eu sou muito grata.
Ela fungou, com a voz carregada de vergonha:
— No hospital, eu tive tempo para pensar. Eu não deveria ter destruído sua família. Fui gananciosa e não tive caráter. Eu era fútil e desprezava o trabalho de vocês, mas se não fosse pela polícia e pela perícia, eu estaria morta agora.
Camila olhou para Alice com sinceridade.
— De agora em diante, vou mudar minha vida e ser uma pessoa correta.
Ela fez uma reverência profunda de noventa graus.
— Sinto muito, Doutora Alice.
Alice manteve o rosto impessoal.
— Se arrepender é problema seu. Manter seu caráter também. Nada disso me diz respeito mais.
Sem dizer mais nada, Alice deu as costas e saiu.
Após alguns passos, deu de cara com Ricardo saindo do refeitório.
Ele vestia roupas pretas, estava imponente, frio e autoritário.
Alice trocou um olhar rápido com ele e desviou o rosto imediatamente.
Ela agiu com total indiferença, como se ele fosse um completo estranho.
Passou por ele sem sequer cumprimentar.
Ela sentia que tomara a decisão certa. Melhor não ter mais contato privado com Ricardo, mantendo apenas a relação profissional. Caso contrário, se ela se apaixonasse de verdade e houvesse um conflito, seria constrangedor e afetaria o trabalho. Se soubesse na noite casual que ele era o capitão da sua nova unidade, jamais teria dormido com ele.
Ricardo olhou para ela e também desviou o olhar, com o semblante rígido como gelo.
Quando ele ia se afastar, Camila correu em sua direção.
Ao entrar no refeitório, Alice olhou para trás.
Camila falava algo para Ricardo, olhando para cima. Como ele estava de costas, Alice não viu sua expressão.
Pouco depois, Camila pareceu abalada e saiu correndo, chorando.
Ricardo também saiu a passos largos, exalando uma frieza implacável.
...
— Alice, vai ter aquela atividade de integração entre unidades. O comando quer que todos os solteiros se inscrevam. Você já se inscreveu? — perguntou Vic.
Alice vira o comunicado no grupo, mas não tinha intenção de ir. Recém-divorciada, não tinha humor para paqueras.
— O Lipe disse que todos os solteiros da investigação vão.
Alice estreitou os olhos.
Ou seja, o Ricardo também vai?
Logo pensou que ele não era mais problema dela. Se ele ia ou não, não importava.
— Não tenho interesse nos "solteirões" da nossa unidade — respondeu Alice.
Vic sorriu.
— Concordo. Envolver-se com colega de trabalho é um perigo. Se terminar mal, o climão é certo.
Vic pegou o celular e mostrou uma foto, cochichando misteriosamente:
— Soube que um novo legista foi transferido para o distrito vizinho. Ele se formou na mesma faculdade que você. Uma amiga de lá tirou uma foto dele escondida. Ele é um gato!
Alice olhou a foto.
O homem era asseado, refinado e usava óculos de armação dourada, com um ar intelectual e sereno.
Alice o reconheceu na hora.
Era
Sérgio
, seu veterano da faculdade, dois anos mais velho.
Ele trabalhava em outra cidade; ela não sabia que ele viera para Rio Verde.
— O nome dele é Sérgio. Ele é realmente meu veterano.
Os olhos de Vic brilharam.
— Alice, você me apresenta para ele nesse evento de integração?
— Claro. O Sérgio é uma pessoa muito gentil e acessível.
...
O evento aconteceu no fim de semana.
A delegacia alugou um ônibus e todos se reuniram às sete e meia da manhã. Como várias unidades participariam, o comando exigiu que todos estivessem bem arrumados.
Alice caprichou: usava um vestido preto justo, o cabelo estava com ondas volumosas e usava brincos de argola finos. Estava radiante, mas com uma elegância discreta.
Ao subir no ônibus, quase todos já estavam lá. Vic, sentada na penúltima fileira, acenou para ela.
Alice caminhou pelo corredor. Lipe e Biel cumprimentaram-na sorridentes.
— Bom dia, Alice!
— Você está maravilhosa hoje.
— E quando é que eu não estou? — brincou ela.
— Verdade, todo dia é um show.
Ricardo estava sentado atrás de Lipe. Estava sozinho, com o assento ao lado vazio. Hoje ele não usava roupas civis, mas o uniforme completo, parecendo extremamente rigoroso.
O quepe estava baixo; do ângulo de Alice, via-se apenas o nariz reto e a mandíbula tensa.
Alice lançou um olhar rápido e seguiu para o lado de Vic.
Logo depois, Beatriz e Babi subiram no ônibus. Ambas estavam muito bonitas.
Ao passarem por Ricardo, Babi deu um empurrãozinho em Beatriz, indicando o assento vazio ao lado do capitão.
Beatriz corou, hesitante, mas Babi a empurrou para o assento.
— Seja audaciosa, vai dar tudo certo — sussurrou Babi.