Capítulo 126: Redenção
Temendo que Jade soubesse do que estava acontecendo, Alice inventou uma desculpa para atender o telefone lá fora.
— Dra. Vânia, o que houve?
— Ela perdeu o controle emocional, quebrou meu consultório e jurou que iria matar o Jerry.
Jerry era o homem que violara Paola.
Três anos atrás, Alice já dera um jeito de mandá-lo para a cadeia, e Paola sabia disso. Por que agora...
— Aconteceu algo específico?
— Eu usei hipnose para tentar fazê-la encarar a realidade, mas acabou servindo de gatilho para uma crise.
Alice praguejou baixinho: — Tente acalmá-la, estou a caminho.
Quando Alice chegou, Pedro já estava lá.
Pedro, após descobrir o real motivo do término de Paola com Leo e o porquê dela ter proposto casamento a ele, sentiu ainda mais compaixão. Recusava-se a divorciar; queria acompanhá-la até que a ferida na alma cicatrizasse.
Ao ver Alice, ele disse em tom grave: — O tratamento da Dra. Vânia vinha funcionando bem, ela até reduziu a medicação. Por que esse surto repentino?
— Eu também não sei. Vamos vê-la primeiro.
A Dra. Vânia, ao ver Alice e Pedro, relaxou um pouco a expressão: — Fiquem tranquilos, apliquei um sedativo. Deixem que ela durma um pouco.
— Por que decidiu usar hipnose agora? — perguntou Alice.
A doutora respondeu seriamente: — Foi um pedido dela. Ela disse que se sentia bem ultimamente e que a hipnose não seria um problema. Pediu que eu tentasse.
Pedro comentou: — Ela não estava bem, estava em conflito. Desde que o Leo e a Jade registraram o casamento, ela agia de forma estranha e tentava me forçar a assinar o divórcio. Eu percebi que algo não estava certo.
— Parece que houve um gatilho — ponderou a Dra. Vânia. — Esperaremos ela acordar para avaliar o estado mental. Do contrário, teremos que usar um método mais radical.
— A senhora quer dizer... fazê-la esquecer?
— Geralmente, esse tipo de trauma, a menos que haja um novo gatilho, as pessoas preferem esquecer. Se ela esqueceu a primeira vez, tentaremos fazê-la esquecer a segunda.
Pedro demonstrou preocupação: — A senhora não disse antes que o esquecimento era o pior caminho?
— Se pudermos fazê-la encarar o sofrimento com coragem e aceitar a vida novamente, ela será capaz de suportar qualquer coisa no futuro. Se a fizermos esquecer, qualquer novo estímulo pode causar um colapso mental total. Por isso chamo de último recurso.
Pedro não conseguia decidir no momento, e Alice precisava consultar Bernardo Fontes.
Quando Paola acordou, ainda gritava que queria matar alguém.
Bernardo, ao ver o sofrimento da irmã, decidiu seguir o conselho da Dra. Vânia e tentar o procedimento de hipnose.
Após o tratamento, Pedro tomou a iniciativa de levar Paola para morar na Europa.
Apenas afastando-a das pessoas e fatos que a atormentavam é que ela poderia recomeçar.
Bernardo e Alice concordaram; era a melhor solução.
— Pedro, você sabe que, indo para a Europa, sua carreira terá que começar do zero e seu relacionamento com a Paola também. Tem certeza disso?
Alice era mais detalhista que Bernardo; a decisão era ótima para Paola, mas nem tanto para Pedro.
Pedro exibiu um semblante de determinação e ternura: — Por ela, eu estou disposto a tudo.
No caminho de volta para a Mansão do Horizonte, Alice encostou-se no banco traseiro do carro, com a imagem de Pedro em sua mente.
— Quem diria que o Pedro seria a redenção da Paola.
Bernardo segurava o volante e virou-se para olhá-la. No fundo de suas pupilas negras, transbordava uma doçura indescritível.
— Isso não é bom? Ele redimiu a Paola. Se o Leo descobrir a verdade no futuro, não se sentirá tão culpado. E tem a Jade... ela e o Pedro são pessoas maravilhosas.
— Sim, são pessoas ótimas. Espero que todas as pessoas boas tenham um final feliz.
...
No casamento de Leo e Jade, Pedro e Paola não compareceram.
Mas ambos os lados compreendiam: ir para a Europa significava encerrar os ciclos com as pessoas e os fatos daqui.
Após Leo levar Jade em lua de mel, o filho de Vitória e Henrique arrumou briga na escola.
O nome do menino, escolhido por Vitória, era Arthur (Gu Yichen). Ele era a cópia fiel de Henrique quando criança. Os avós Yuri estavam radiantes, quase estragando o menino de tanto mimo.
Ele era apenas alguns meses mais novo que Taotao, mas Taotao herdara o temperamento de Bernardo Fontes, agindo como um pequeno lorde gélido, enquanto Arthur era vibrante e travesso — fazendo mais jus ao apelido de Taotao (travesso).
Alice acompanhou Vitória até a escola.
O professor de Arthur, Igor (Meng Yunfei), já resolvera a situação. Ao trazer o menino, ele estava de cabeça baixa, ciente do erro.
Enquanto Vitória conversava com o professor Igor em um canto, Alice agachou-se para falar com o pequeno Arthur: — Por que bateu no colega desta vez?
— Tia Alice, eu não bati. Eu só me irritei e dei um empurrão, aí ele caiu sozinho no vaso sanitário e foi contar para o professor. Que raiva.
— ...Caiu no vaso? —
Estava sujo?
— Tia Alice, esse seu ar de quem está achando graça não é nada fofo.
Olhando para o pequeno com a mesma expressão de Henrique, Alice apertou suas bochechas: — Tudo bem, parei de rir. Vou falar bem de você para sua mãe, aí você vai lá em casa hoje brincar com o seu primo Taotao, que tal?
— O primo Taotao não tem graça, é todo sério, parece um velho professor.
Alice sentiu o golpe; ver o próprio filho ser chamado de chato a deixou um pouco abalada.
— E com quem você quer brincar então?
— Com o Professor Igor! Ele é muito legal, conta histórias ótimas e conhece um monte de jogos.
Alice ergueu a sobrancelha, observando o homem atraente conversando com Vitória. Ela realmente não entendia por que um homem tão jovem e bonito decidira ser professor de jardim de infância.
Embora fosse uma escola de elite, com ótimo salário e perspectivas, com aquela aparência...
Lembrando que muitas mães adoravam buscar os filhos só para "conversar sobre o desempenho das crianças" com o Professor Igor, o instinto fofoqueiro de Alice despertou.
— Já que gosta tanto dele, por que não o convida para jantar em casa?
— Eu quis convidar, mas minha mãe não deixou. — O pequeno baixou a cabeça, descontente.
— Talvez ela ache que seria incômodo para o professor.
— Como assim? Eu acho que o Professor Igor gosta da minha mãe. Ele vive me ajudando e cuidando de mim. E quando eu o convidei, ele disse que tinha medo que a mamãe ficasse brava, não que estivesse ocupado.
Alice pegou o pequeno no colo: — Sua lógica é muito boa, hein? Mas também pode ser que ele só tenha sido educado para não te dar um fora, e resolveu te consolar com essas palavras. Não leve tão a sério, rapazinho.
Independentemente da atitude do Professor Igor para com Vitória, enquanto ela não se manifestasse, Alice jamais interferiria.
Quando Vitória se aproximou, Igor cumprimentou Alice e voltou para a sala. Vitória ia dar uma bronca no filho, mas Alice a impediu.
— Brigas de criança são normais. Ele teve um motivo, tente entendê-lo.
— Alice, esse menino está ficando mimado demais. Se eu não segurar as rédeas, ele vai se perder.
— Ele tem uma ótima essência, só não admite que falem mal da mãe dele. Vi, não seja tão dura. Venha jantar lá em casa hoje; o Taotao disse que está com saudades de você e do Arthur.
Vitória cedeu por consideração à amiga, deixando para resolver com o "pestinha" em casa.
Na verdade, Igor já contara a ela: um colega dissera que Vitória era uma viúva jovem que dava azar aos maridos, e por isso Arthur partira para o ataque.
O motivo do colega ter dito aquilo era porque a mãe dele, solteira, gostava de Igor, mas fora rejeitada por ele, que demonstrava um interesse especial por Vitória. Ela falara bobagens em casa e o filho ouviu, repetindo para Arthur.
Uma situação digna de novela, que Vitória tinha vergonha até de mencionar.