Capítulo 46: Coração Disparado, Queda nos Braços dele
Vic aproximou-se para olhar.
Além dos fragmentos da sopa de ninho de andorinha, havia partículas milimétricas de cor esbranquiçada. Ao entrarem em contato com o reagente, elas não se dissolveram, revelando uma textura peculiar.
Alice estreitou os olhos e mudou para uma lente de maior aumento.
A conclusão foi clara: era cera de abelha.
O método utilizado pelo assassino começou a se desenhar em sua mente.
...
Escritório da Investigação.
Lipe coçava a cabeça, frustrado.
— Isso é muito bizarro. A empregada que serviu a sopa não é suspeita, e ninguém chegou perto da tigela da Camila. Como o veneno foi parar lá? Testamos o lote da sopa e nada estava contaminado!
Biel também massageava as têmporas.
— Verifiquei todos os convidados que foram ao jardim; nenhum deles parece suspeito.
Ricardo aproximou-se e perguntou a Lipe com voz grave:
— Conseguiu as imagens dos últimos três dias do jardim da mansão?
— Sim, chefe.
— Coloque na tela grande.
Lipe obedeceu. Ricardo puxou uma cadeira e sentou-se diante do monitor. As imagens mostravam apenas o encosto da cadeira de vime onde Camila costumava sentar. Após revisarem três dias de gravação, Lipe e Biel não notaram nada.
— Chefe, não tem nada de errado. Será que foi um fantasma? — disse Lipe, com um ar assustado.
Biel lançou um olhar de desprezo: — Cala a boca, Lipe! Somos detetives, não podemos ser supersticiosos.
— Parem de discutir — ordenou Ricardo, com os olhos fixos na tela.
Ele fechou os olhos por um momento e pediu que Lipe aumentasse o volume do áudio.
— Estão ouvindo algum som?
No meio do chiado estático, ouvia-se o farfalhar das folhas ao vento e o canto de pássaros.
— É um som normal de jardim — comentaram Lipe e Biel, confusos.
Ricardo aguçou a audição, focando novamente.
— O canto desse pássaro no vídeo é curto e agudo — Ricardo estreitou os olhos. — E nas gravações dos três dias anteriores ao crime, ele soou exatamente às oito horas da noite.
Lipe e Biel ouviram de novo, conferindo o cronômetro.
— É verdade! Chefe, você é um gênio.
Ricardo tensionou os músculos.
— O mesmo canto, no mesmo horário, todos os dias... é muito provável que seja um pássaro treinado.
Lipe arregalou os olhos.
— Você quer dizer que um treinador de pássaros usou uma ave para envenenar a sopa?
— Exatamente.
Nesse momento, Alice entrou na sala com o relatório.
— Capitão, encontrei cera de abelha nos resíduos — disse ela, entregando o documento a Ricardo. — O assassino não jogou o pó de colchicina direto na sopa. Ele misturou o veneno com a cera, criou uma película finíssima e a cortou em grãos minúsculos, colando-os nas garras de um pássaro treinado para soltá-los na tigela.
Lipe fez um sinal de positivo para Alice.
— Caramba, Alice! Você e o chefe tiveram exatamente o mesmo raciocínio.
Ricardo analisou o relatório e deu ordens imediatas:
— Expandam a busca agora! Primeiro: verifiquem as câmeras externas da mansão na última semana, foquem em qualquer pessoa que apareça entre 19h e 20h. Segundo: investiguem as associações de criadores de aves; procurem por quem comprou colchicina recentemente ou encomendou dispositivos de controle sonoro em miniatura. Terceiro: mapeiem toda a rede social da Camila; vejam se ela teve problemas com alguém desse meio ou se teve contato com criadores de pássaros.
Ricardo estava exausto. A viagem de trabalho emendada com o caso de Camila o deixara com os olhos vermelhos e uma fadiga visível.
— Nós cuidamos disso, chefe. Vá descansar um pouco — sugeriu Lipe.
Ricardo assentiu: — Obrigado pelo esforço de todos.
Após a saída da equipe, Ricardo olhou para Alice com um olhar profundo e indecifrável.
— Você também se esforçou muito.
— Fiz apenas o meu trabalho.
Sem dizer mais nada, Alice deu as costas para sair. Ricardo a seguiu com o olhar e entrou em sua sala particular.
Ele se jogou na poltrona de couro e massageou as têmporas. Ainda havia muito trabalho e ele não pretendia dormir.
Pouco depois, Alice apareceu segurando uma lancheira térmica.
— O Lipe me contou que você está há mais de trinta horas sem pregar o olho. Esquentei uma canja de milhete na cantina; coma enquanto está quente.
Ao abrir a tampa, além da canja, havia dois ovos fritos.
Ricardo olhou para ela.
— Você que fritou?
Alice assentiu: — Experimente para ver se está bom.
Ricardo deu uma garfada. — Está aceitável.
Na sala, Ricardo soltou os dois primeiros botões da farda, revelando o pescoço forte. Seu pomo de Adão movia-se ritmicamente enquanto ele comia. Alice observou por alguns segundos e caminhou para trás dele.
— Sua cabeça está doendo? Eu posso massagear.
Antes que ele protestasse, os dedos de Alice tocaram suas têmporas.
As pontas dos dedos dela eram frescas e o toque era firme e preciso. Ela fazia movimentos circulares lentos, descendo para a base do couro cabeludo. Com a massagem, a tensão e o latejar de Ricardo pareceram diminuir consideravelmente.
— Onde aprendeu isso? — perguntou ele, de olhos fechados.
— Sou legista; entendo um pouco de anatomia e de como aliviar a fadiga nervosa — respondeu ela, sem parar o movimento.
Ricardo soltou um riso baixo: — Você é cheia de talentos.
Quando ele pareceu mais relaxado, ela caminhou para o lado da mesa.
— Você foi ver a Camila no hospital? Como ela está?
— Ela acordou. Perdeu o bebê.
Alice o encarava fixamente, tentando decifrar se havia dor naquele olhar, mas Ricardo era um mestre em esconder emoções.
— Você está sofrendo por ela? — perguntou ela.
Ricardo olhou para Alice: — Por que pergunta isso?
— Afinal, ela era sua noiva.
Os lábios de Ricardo formaram uma linha rígida. Ele exalava uma aura severa.
Alice, sentindo que estava sendo inconveniente, virou-se para sair.
— Vou deixar você trabalhar.
Mas antes que desse o primeiro passo, seu pulso foi agarrado.
Num movimento brusco, ela foi puxada para o colo do homem, caindo sobre suas coxas musculosas e firmes.
O coração de Alice disparou.
Ela tentou se levantar, mas a mão grande de Ricardo pressionou sua cintura, prendendo-a.
Alice olhou para ele com os cílios tremendo.
— Você enlouqueceu? Estamos na sua sala, qualquer um pode entrar!
Ela não imaginava que ele seria tão audacioso em pleno ambiente de trabalho. Se alguém visse, seria um escândalo.
Ricardo a encarou com seus olhos negros e profundos.
— Você não era a mulher corajosa que não tinha medo de nada?