Capítulo 36: Perigo! Sinais de um Coração Batendo
Um brilho gélido tomou conta do olhar de Ricardo. Ele apertou o queixo de Alice com força.
— Quem disse que você decide tudo sozinha? Provoca quando quer e para quando bem entende? Eu sou seu brinquedo por acaso?
O peito dele arfava e o canto de seus olhos estava avermelhado; ele estava visivelmente furioso.
Alice não entendia a raiva dele. Se ela estava parando de importuná-lo, ele não deveria estar aliviado? Afinal, ele passara o tempo todo resistindo a ela.
A dor no queixo a incomodava. Ela tentou afastar a mão dele, mas Ricardo inclinou-se bruscamente e a beijou com ferocidade.
Foi um beijo carregado de fúria e ressentimento. Alice sentiu os lábios serem esmagados e o gosto metálico de sangue surgiu em sua boca. Ela tentou empurrá-lo, mas ele era como uma muralha. Ele forçou a passagem entre seus dentes, invadindo-a com possessividade.
Alice sentia falta de ar e lutava contra o peito dele.
— Hum... Ricardo... você ficou louco?
Os músculos dos braços dele estavam saltados. Parecia que ele não a ouvia, nem sentia sua resistência. Uma raiva cega e um desejo reprimido haviam consumido sua razão. A mão que estava em sua cintura deslizou para baixo da blusa dela, tocando a pele nua das costas.
Alice estremeceu e arregalou os olhos.
— O que você pensa que está fazendo?
Ele mordeu o canto da boca dela, com a voz rouca e perigosa:
— Não era isso que você queria o tempo todo? Eu vou te dar o que você quer!
Dito isso, ele desceu os beijos para o pescoço dela. A mente de Alice girava; ela não entendia como a situação escalara tanto. Vendo que não conseguiria pará-lo fisicamente, ela parou de lutar e disse com uma calma aterradora:
— Vamos para o meu quarto. Eu tenho preservativos lá.
O movimento de Ricardo parou bruscamente.
Ele levantou o olhar e seus olhos se cruzaram. Alice exibia um sorriso irônico.
— Eu sabia que, cedo ou tarde, você não resistiria. Por isso, já deixei tudo preparado na gaveta do quarto.
Aquelas palavras foram como um balde de água gelada sobre a cabeça de Ricardo. O desejo ardente e a fúria transformaram-se em vergonha e choque instantâneo. Ele a soltou e ajeitou a roupa dela, com um olhar carregado de tempestade.
— Você não é uma feiticeira e eu não sou seu escravo. Não se ache tão irresistível assim.
Dito isso, antes que ela falasse algo, ele abriu a porta e saiu batendo.
Alice encostou-se no batente e ficou ali por um longo tempo, imóvel.
Melhor assim. Traçar uma linha clara para não correr o risco de se perder emocionalmente. Pela convivência recente, ela percebeu que começava a nutrir sentimentos que não deveria. Por que mais ela ficaria incomodada ao vê-lo ser tão generoso com Camila?
Era um sinal perigoso. Ela não podia se apaixonar por ninguém, muito menos por um homem difícil como Ricardo.
...
Domingo.
Alice saiu para um passeio de lancha com sua melhor amiga Babi e sua assistente Vic. Ela usava o biquíni verde-água que comprara, com uma saída de praia transparente por cima. Vic, recém-formada e fã de redes sociais, tirou várias fotos de Alice e as postou no Instagram.
Quase que imediatamente, Lipe curtiu a postagem. Ele estava no carro com Ricardo, voltando de uma ação social em um orfanato para promover a prevenção de golpes contra idosos. Enquanto Ricardo dirigia, Lipe navegava pelo celular.
— Chefe, olha só! A Vic postou fotos da Alice na praia. Caramba, ela está um espetáculo com esse biquíni!
Ricardo tensionou a mandíbula, com o olhar fixo na estrada.
— Você não tem nada melhor para fazer do que vigiar as redes sociais das colegas?
Lipe coçou a cabeça, sem graça:
— Poxa, chefe, apareceu no topo do meu feed. E convenhamos, quem não gosta de apreciar beleza? A Alice é mais bonita que muita estrela de cinema.
Ricardo não respondeu.
Ao passarem por um beco, Ricardo notou pelo canto do olho três rapazes cercando um jovem alto, magro e de pele clara. Os três agressores eram fortes; dois deles seguravam o rapaz pelos ombros, tentando forçá-lo a se ajoelhar. O jovem lutava desesperadamente, com o rosto vermelho de indignação.
Ricardo reconheceu o rapaz de uma foto que vira no perfil de Alice. Era o irmão dela, Guilherme.
Ricardo freou o carro e desceu imediatamente em direção ao beco.
— Ei, seu mudo! Ajoelha logo diante do mestre! — gritava Gustavo, exibindo seu tênis de edição limitada. — Você pisou e sujou meu pisante novo. Lambe agora para limpar!
Guilherme tentava balbuciar algo, mas as palavras não saíam.
— Mudo é mudo mesmo, nem sabe implorar. Soube que sua irmã foi chutada pelo Mateus e virou mercadoria usada. Com aquela carinha de piranha, com certeza ela traiu e levou um chute bem dado!
Ao ouvir os insultos contra Alice, Guilherme ficou furioso e tentou avançar contra Gustavo.
— O quê? Quer apanhar? Olha o seu estado, um mudo inútil querendo se comparar comigo? Na família eu sou o favorito. Toca em mim pra ver se o vovô não acaba com você! Ajoelha e limpa meu tênis, ou você não sai daqui hoje!
Justo quando iam forçar Guilherme ao chão, uma voz gélida ecoou:
— Soltem ele agora!
Era Ricardo. Ele estava fardado, de quepe, exalando uma autoridade intimidadora. Gustavo e os outros dois empalideceram ao ver a farda. Mas, como vinham de famílias ricas e eram mimados, tentaram manter a pose.
Gustavo estufou o peito e disse com arrogância:
— Seu guarda, chegou na hora certa. Esse mudo aqui sujou meu tênis caro e ainda roubou meu relógio de um milhão de reais. Prende ele agora! Quero ele na cadeia!
Guilherme balançou a cabeça, pálido. Os comparsas de Gustavo pegaram a mochila de Guilherme e despejaram tudo no chão. Um deles "achou" um relógio no meio dos pertences.
— Olha aqui, o relógio do Gustavo!
Os três sorriam vitoriosos com a armação. Guilherme tremia, sem conseguir se defender da calúnia.
Ricardo aproximou-se e tocou o braço de Guilherme com suavidade.
— Eu acredito que você não roubou.
Guilherme paralisou, surpreso com o apoio do policial.
Gustavo explodiu:
— Tá louco? Ele foi pego em flagrante! Você vai acobertar um ladrão?
Ricardo, imponente em seu uniforme, colocou-se entre Guilherme e os agressores. Seu olhar era como uma navalha:
— Já que dizem que ele roubou, entreguem-me o relógio. Vou levá-lo para a perícia papiloscópica. Veremos de quem são as digitais no objeto. Se não houver digitais do Guilherme, vocês serão indiciados por calúnia e denunciação caluniosa. Mesmo sendo menores, responderão por ato infracional grave!
Ao ouvirem isso, a cor sumiu do rosto de Gustavo e seus amigos.