Capítulo 32: Sem Pressão, o Casal Perfeito
No semblante de Jota Ce não havia um pingo de arrependimento, apenas uma lógica distorcida e psicopática.
— Eles mereciam. Eu não errei, eu fiz justiça por mim mesmo! Se eu fosse uma pessoa ruim, por que eu teria milhões de fãs?
Ele olhou para Ricardo com desprezo.
— É melhor me soltarem logo. Se minhas fãs souberem disso, atacar o site da polícia será o de menos. Haverá fãs jovens que não aguentarão o choque e cometerão loucuras. Vocês querem o sangue delas nas mãos? Vocês, policiais de quinta, aguentam essa responsabilidade?
Ricardo encarou o criminoso que tentava usar o próprio público como escudo. Seu olhar tornou-se ainda mais gélido.
— Jota Ce, sua ignorância é assustadora. Primeiro: a lei não perdoa assassinos baseada no número de seguidores. Olho por olho, dente por dente; seus argumentos não valem nada diante do tribunal. Segundo: se suas fãs agirem de forma extrema, a culpa será sua, o ídolo assassino, não da polícia. Terceiro: ameaçar autoridades só aumenta sua pena. Fãs não são colete à prova de balas. Eu já disse: a justiça é implacável.
Ao perceber que estava encurralado, o sangue fugiu do rosto de Jota Ce. Ele cerrou os punhos, perdendo o controle:
— Inspetor, eu não quero morrer! Me dê uma chance! Eu dôo toda a minha fortuna, passo o resto da vida pagando pelos meus pecados...
Ricardo nem se deu ao trabalho de responder; saiu da sala com o rosto rígido. A polícia emitiu imediatamente um comunicado oficial detalhando os crimes, os motivos e as provas contra Jota Ce. O documento, em letras garifais sobre fundo azul, era incontestável.
Em questão de horas, todas as contas de Jota Ce foram banidas. Suas músicas, contratos e propagandas foram cancelados. O brilho da estrela evaporou da noite para o dia. A maioria das fãs, ao ver a verdade, abandonou o ídolo. Uma pequena minoria radical entrou em colapso, mas a polícia agiu rápido para monitorar e instruir as famílias.
Flávia, mesmo sendo uma das vítimas do sistema de Jota Ce, não se deixou abater. Ela postou textos longos relatando sua experiência de quase ser abusada e como fora enganada. Ela tentava guiar outras jovens a não abandonarem os estudos e a carreira por ídolos tóxicos. Ao mesmo tempo, a polícia lançou vídeos educativos usando o caso como exemplo dos perigos do fanatismo extremo.
Após o encerramento do caso, Alice voltou para a casa da mãe. Sua tia, Lúcia, estava lá. Sabendo que a mãe viera, Flávia trancou-se no quarto e não queria sair.
— Alice, tente falar com ela. Eu e sua tia não conseguimos — pediu Helena.
Alice olhou para a tia.
— Tia, vou falar com ela, mas não brigue com ela quando ela sair. Tenho algumas coisas a dizer, como sobrinha.
Lúcia assentiu: — Pode falar, Alice.
Alice organizou os pensamentos.
— Na sua visão, você investiu dinheiro e tempo para que a Flávia fosse a melhor, e acha que ela deveria ser grata. Mas, na visão dela, ela era uma criança sob pressão extrema, carregando o peso das suas frustrações e competições familiares. Você nunca pensou no que ela sentia. Você tentou controlar a vida dela em nome do "amor", mas isso só a empurrou para o abismo. Para você, uma explicação dela é "responder", um silêncio é "birra", e um choro é "frescura". Ela sofreu bullying dentro da própria casa, pela pessoa que mais deveria amá-la. Quando você rasgou aquela carta de aceitação, você rasgou a alma dela.
Lúcia permaneceu em silêncio por um longo tempo. Helena enxugou as lágrimas e concordou com a filha, pedindo que a irmã mudasse seu jeito.
— Tia, por que competir com os primos? Meninos não valem mais que meninas. Mesmo que ela não queira os negócios da família, ela continua sendo brilhante. Você fez isso pelo bem dela ou pelo seu orgulho e vaidade?
Lúcia sentiu o impacto das palavras. Ela percebeu que a sobrinha de vinte e cinco anos tinha mais sabedoria e clareza que ela mesma.
— Você tem razão, Alice. Eu errei muito.
Alice sorriu ao ver o arrependimento da tia. Levou-a até a porta do quarto de Flávia e bateu.
— Flávia, sou eu.
Ao ouvir a voz de Alice, Flávia abriu a porta, mas ao ver a mãe, tentou fechá-la de novo.
— Não feche, Flávia. Sua mãe não veio brigar.
Alice saiu de cena para deixá-las a sós. Lúcia entrou no quarto e, vendo a filha que nem conseguia olhá-la nos olhos, sentiu o coração despedaçar.
— Flávia, mamãe foi egoísta e autoritária. Eu queria que você fosse meu troféu diante da família, e não vi que estava te machucando. Peço perdão por tudo o que fiz, especialmente por ter rasgado seu sonho. Eu vou respeitar suas escolhas de agora em diante. Juro que não vou mais te pressionar.
Flávia, que esperava insultos, ficou em choque. Suas lágrimas caíram sem parar. Ela abraçou a mãe com força.
— Mãe... eu quase me perdi por causa desse cantor... gastei tanto dinheiro... você não vai me xingar?
Lúcia a apertou no abraço.
— Minha filha, eu só sinto culpa. Se eu não tivesse te sufocado tanto, você não teria buscado fuga naquele monstro. A culpa é minha.
As duas choraram e se reconciliaram. Flávia decidiu que voltaria a estudar para prestar vestibular para Medicina, inspirada no exemplo de Alice.
À noite, Alice dormiu no quarto com Flávia.
— Alice, soube pela tia que você se divorciou do Mateus. Eu sempre achei que ele não estava à sua altura.
— Por que diz isso? — perguntou Alice.
— Uma vez ele perguntou o que eu queria ser, e eu disse que queria ser legista como você. Ele fez uma cara de nojo, disse que era uma profissão "amaldiçoada" por lidar com mortos. Ali eu vi que a cabeça dele era muito pequena para você.
Alice sorriu. — Por isso, no casamento, a sintonia de ideias é fundamental.
Flávia olhou para a prima e sorriu maliciosamente.
— Alice, eu acho que aquele Capitão Ricardo, da sua delegacia, combina muito com você.
Ao ouvir o nome de Ricardo, o coração de Alice deu um salto involuntário.
— O que tem ele?
— O visual, a presença, a profissão... tudo! Se ele fosse meu primo por afinidade, eu seria a fã número um do casal.
Alice deu um peteleco na testa de Flávia. — Para com isso e vai dormir.
Logo após apagar a luz, o celular de Alice vibrou. Era uma mensagem de Ricardo.