Capítulo 19: Alice, comporte-se de forma decente
Ricardo comprimiu os lábios, sua voz era grave e calma, sem demonstrar qualquer emoção:
— É uma verificação de rotina. Surgiram alguns detalhes sobre o acidente de carro do seu tio, ocorrido há dois anos, que precisam ser reavaliados.
Jota Ce pareceu surpreso, franzindo a testa em seguida:
— Mas o caso do acidente não foi encerrado? O culpado foi identificado como um paciente de câncer em estágio terminal que, revoltado, quis se vingar da sociedade. Meu tio foi apenas uma vítima inocente. Ouvi dizer que o culpado piorou na prisão e faleceu poucos meses depois.
— Revisão de casos antigos, procedimento padrão — respondeu Ricardo.
Jota Ce assentiu:
— O que o senhor gostaria de perguntar?
Ricardo folheou o prontuário em mãos:
— Enquanto seu tio morava na vila, ele tinha proximidade com alguém?
— Não, meu tio era um homem calado, preferia ficar sozinho.
Após algumas perguntas protocolares, Ricardo o acompanhou até a saída da delegacia. Não se sabia quem havia vazado a informação, mas uma multidão de fãs surgiu subitamente do lado de fora.
“Oppa! Nós te amamos!”
“Aaaah! Jota Ce!”
“Meu bebê, descanse bem, nos vemos no show!”
Havia desde fãs apaixonadas até as chamadas “fãs mães”. Jota Ce acenou sorridente, pedindo que voltassem para casa para descansar.
Pouco depois da partida dele, o site oficial da Polícia Civil foi inundado por comentários de fãs revoltadas.
— Por que chamaram nosso ídolo na delegacia? Ele está exausto de tanto trabalhar, vocês não têm empatia?
— O que não pudesse ser dito por telefone que exigisse que ele fosse até aí? Acham que ele é saco de pancadas?
— Bando de incompetentes procurando pelo em ovo.
— Caramba! Essas fãs do Jota Ce são malucas! — Lipe exclamou ao ver o site sendo “massacrado”.
Ricardo tensionou a mandíbula:
— Lipe, feche os comentários. Não dê atenção.
Ricardo pediu que a perícia recuperasse as imagens das câmeras da sala de reuniões e assistiu ao replay. Quando Jota Ce mencionou as fãs, a gratidão em seus olhos pareceu uma fina camada de gelo, algo passageiro, mas que não escapou de Ricardo.
O corpo na parede, o acidente de Juca Silveira, o motorista com câncer que morreu na prisão... Coincidências demais. E, infelizmente, todos os envolvidos diretos estavam mortos.
— Lipe, organize todo o dossiê do Jota Ce para mim.
...
Alice trabalhou a noite inteira. Ricardo trouxe o café da manhã para ela:
— Saiu o relatório da necropsia?
Alice assentiu:
— Após a abertura, descobri que o conteúdo estomacal da vítima é quase zero e o intestino está vazio. Cruzando com a densidade óssea, a vítima esteve em estado de inanição prolongada antes de morrer. Desnutrição severa.
Ela entregou outro relatório patológico a Ricardo:
— Os tecidos moles da região pélvica apresentam múltiplas lacerações antigas. Não foi uma violência isolada, mas sim lesões recorrentes.
Ricardo empalideceu:
— Você está dizendo que ela sofreu abuso sexual prolongado?
— Sim — confirmou Alice. — A fome extrema causou falência funcional, e o abuso contínuo acelerou a morte. Resumindo, ela foi morta de fome enquanto era abusada sistematicamente.
Ricardo franziu as sobrancelhas, seus olhos transbordando uma frieza cortante. Para uma mulher jovem, aquilo era uma crueldade sem limites.
— Capitão, Doutora Alice, concluímos a reconstrução facial 3D baseada no crânio.
Os dois foram verificar imediatamente. Na tela do computador, o rosto de uma garota apareceu: feições delicadas, uma aparência doce e gentil. Pensar que alguém assim sofreu tamanha barbárie deixou o coração de Alice pesado.
Ao inserir a imagem no banco de dados de pessoas desaparecidas, o sistema trouxe um resultado rápido:
Lúcia Barros (林蕎), mulher, 21 anos, criada em um orfanato.
Dois anos atrás, uma jovem chamada Paula (周) registrou o desaparecimento de Lúcia. Paula trabalhava no Bar Noturno. Ricardo e Alice seguiram para lá.
No carro, Alice comia o café da manhã que Ricardo comprara. Seus belos olhos apresentavam leves traços de sangue pela falta de sono. Ela comeu um pouco e logo se sentiu satisfeita.
— Tente descansar um pouco, eu te acordo quando chegarmos — disse Ricardo.
Alice assentiu, inclinou o banco e fechou os olhos. Talvez pelo cansaço, ela logo mergulhou em um sonho. Sonhou com uma briga violenta que teve com Mateus antes de descobrir a traição.
“Eu estou curado, podemos ter relações, mas eu simplesmente não quero te tocar! Você passa o dia mexendo em cadáveres, suas mãos estão cheias de energia ruim! Se você não largar esse emprego de legista, eu nunca vou me deitar com você!”
“Não importa o quanto você se lave ou quanto perfume use, quando chego perto, só lembro que você tocou em mortos.”
“Ou você se demite e vira uma esposa de verdade, ou trabalha na minha empresa. Eu não suporto uma mulher que vive entre cadáveres. Eu tenho nojo!”
— Doutora Alice?
Suor frio brotou na testa de Alice. Seus dedos se entrelaçaram com força e sua respiração tornou-se curta e trêmula. No meio do pesadelo, ela ouviu uma voz grave e gélida chamando seu nome.
Ela abriu os olhos bruscamente, deparando-se com os olhos negros e profundos de Ricardo.
Ela piscou, percebendo que ainda estava no carro. Ricardo havia encostado no acostamento.
— Outro pesadelo? — perguntou ele, preocupado.
Alice ainda não havia se recuperado totalmente. Aquela sensação de ser chamada de “suja” era como uma mão invisível apertando seu coração, sufocando-a.
— Você tem nojo de mim? — perguntou ela com a voz rouca.
Ricardo franziu a testa:
— O quê?
Alice comprimiu os lábios pálidos:
— Meu ex-marido dizia que eu tinha nojo porque lidava com mortos o dia todo.
Ricardo observou os olhos dela, que brilhavam com uma fina camada de lágrimas.
— Como poderia ter nojo? Eu também não lido com eles constantemente? — Sua expressão era solene e íntegra. — Se não houvesse profissionais como nós, quem clamaria por justiça para aqueles que morreram injustamente?
Alice sentiu um calafrio percorrer sua espinha enquanto se ajeitava no banco.
Ricardo continuou, com autoridade:
— Sua profissão é sagrada. O que você faz é grandioso. Quem tem nojo é porque é cego de alma e não sabe distinguir a verdadeira sujeira da verdadeira limpeza.
— Ele reclama do cheiro de morte nas suas mãos, mas não vê a verdade que seus dedos revelam. Ele reclama da frieza da sua mesa de necropsia, mas não vê quantas almas você ajuda a descansar em paz.
Ele a encarou fixamente, cada palavra soando como um juramento:
— Quem tem nojo de você simplesmente não está à altura da sua integridade.
Alice ficou paralisada, olhando para ele. Não esperava que aquele homem, habitualmente tão ríspido e calado, pudesse consolá-la com tanta profundidade. Seu nariz ardeu; ela sentiu vontade de chorar.
Ela inclinou a cabeça levemente para trás, impedindo que as lágrimas caíssem. Após recuperar o controle, olhou para Ricardo com um sorriso provocante:
— Capitão, sabe o que eu queria fazer agora?
Ricardo a encarou:
— O quê?
— Queria ter uma noite inesquecível com você.
O rosto de Ricardo tensionou-se:
— Alice, você não consegue ser séria por três segundos?
Alice falava a verdade. Um homem com aquele rosto, aquele corpo e aquele caráter... quem não quereria?
— O que eu disse de errado? Adultos com necessidades e química não podem ser diretos? Você já dormiu comigo antes, não se faça de—
Antes que ela terminasse, o homem deu a partida e o carro arrancou em alta velocidade. Ele colocou os óculos escuros, mantendo o perfil rígido.
Alice observou seu ar implacável e sussurrou:
— Desde que te conheci, você virou o protagonista dos meus sonhos eróticos. — Ela tocou o braço musculoso dele. — Capitão, você já sonhou comigo?
— ...Não — respondeu Ricardo.
— Se não sonhou, por que seu pomo de Adão se mexeu?
Ele soltou uma mão do volante e apertou a mão de Alice com força. Sua palma era larga e quente; Alice pôde sentir a textura firme de sua pele.
— Capitão, está me machucando.
Ricardo rangeu os dentes:
— Alice, pare com essa provocação.
— Por quê? Você não está aguentando?
Ricardo: — ...