Capítulo 18: Fã Fanática e Algo Suspeito
— A vítima era do sexo feminino. — A voz de Alice saía abafada pela máscara cirúrgica; seus olhos demonstravam calma e sobriedade. — Com base na estimativa do comprimento dos ossos, a altura da vítima em vida deveria ser entre 1,60m e 1,63m.
Ela calçou camadas duplas de luvas e mergulhou os dedos naquela massa de tecidos decompostos, procurando por pontos de referência ósseos cruciais.
— Embora os tecidos moles apresentem putrefação severa, o esqueleto está razoavelmente preservado. As cristas da sínfise púbica praticamente desapareceram, indicando sinais de osteoporose, mas as linhas epifisárias fecharam há pouco tempo.
Ela tateou o osso com a ponta dos dedos, estreitando os olhos.
— Estimo a idade entre vinte e vinte e cinco anos. Pelo nível de decomposição e pela espessura da camada de cimento na parede, o tempo de morte é estimado conservadoramente em mais de dois anos.
Os técnicos que haviam quebrado a parede anteriormente estavam todos pálidos devido ao odor fétido. Ninguém queria dar um passo sequer para frente.
Os olhares deles recaíam sobre Alice. Ela vestia um vestido longo de malha preto sob um jaleco branco; sua silhueta era esguia e suas feições eram radiantes e frias, como se tivesse saído de uma pintura.
Ela estava agachada ao lado daquele cadáver em estado avançado de corrosão, com os cílios baixos e o rosto muito próximo aos restos mortais. Seus dedos, protegidos pelas luvas estéreis, exploravam com precisão os tecidos decompostos.
Não havia um pingo de nojo em seu olhar, apenas respeito pela vítima e foco total.
— Essa nova legista é incrível demais... Tão bonita e tão profissional...
Ricardo acabara de desligar o telefone após convocar o proprietário da vila.
Ao ouvir o comentário dos técnicos, ele lançou um olhar para Alice.
Quando ela se concentrava no trabalho, era fria e estável, uma pessoa completamente diferente daquela que o provocava descaradamente.
Pouco tempo depois, o proprietário chegou às pressas.
Ao ver que um corpo feminino havia sido emparedado no banheiro de sua propriedade, ele quase desmaiou.
— Inspetor, eu tenho muitos imóveis e sempre aluguei esta vila. Por favor, não suspeitem de mim.
O olhar de Ricardo era sombrio e cortante.
— Entregue o registro de locatários e os contratos dos últimos três anos.
O proprietário não ousou demorar e retirou rapidamente os documentos de sua pasta.
Ricardo folheou e conferiu página por página.
Flávia era a locatária mais recente, morando ali há seis meses.
Antes de Flávia, havia um casal que trabalhava com materiais de construção; eles alugaram o local por um ano e três meses.
E antes deles, havia um homem chamado Juca Silveira (季煒 - 本化建議).
Ricardo circulou as informações importantes e ordenou que Lipe investigasse os locatários suspeitos.
Após as instruções, Ricardo caminhou até Alice.
— Já identificou a causa da morte?
Alice comprimiu os lábios e balançou a cabeça.
— Não há feridas abertas óbvias na superfície do corpo, nem sulcos de estrangulamento no pescoço. Os tecidos moles estão muito liquefeitos; a olho nu, não é possível ver sinais de asfixia mecânica.
Ela se levantou e colocou as luvas usadas em um saco de evidências.
— A causa exata da morte só poderá ser determinada após a necropsia e os cortes histopatológicos no laboratório.
...
Embora Flávia não fosse suspeita, ela foi levada à delegacia para prestar depoimento.
O casal de locatários anteriores também compareceu após receber a chamada.
Após o interrogatório, a suspeita sobre o casal era baixa.
O mais suspeito era Juca Silveira.
Lipe entregou os dados da investigação a Ricardo.
— Chefe, o Juca Silveira sofreu um acidente de carro fatal no mesmo dia em que encerrou o contrato de aluguel.
Ricardo baixou o olhar para os detalhes de Juca.
Juca Silveira, homem, natural de Vila Grande, cinquenta e um anos, solteiro a vida toda, sem filhos.
A foto no arquivo estava amarelada; o rosto do homem era magro, com maçãs do rosto salientes e olhos encovados. Seu olhar não tinha a simplicidade das pessoas do campo, mas sim uma mistura de astúcia e crueldade.
Os olhos negros e profundos de Ricardo pousaram na coluna de parentesco.
— Sobrinho: Jota Ce?
Lipe assentiu.
— Sim, o cantor Jota Ce, que ficou muito famoso nos últimos anos.
— Já entraram em contato com ele?
— Sim. Por coincidência, ele está se preparando para um show aqui em Rio Verde e virá em breve.
Após Flávia terminar o depoimento, Alice pediu que Dona Helena viesse buscá-la.
— Sua prima ainda vai fazer hora extra. Quando sua tia chegar, vá com ela para casa.
Flávia abraçou a cintura de Alice.
— Alice, não conta para a minha mãe, eu não quero ver ela.
— Não contei, não se preocupe.
Dona Helena chegou de táxi. Alice estava prestes a colocar Flávia no carro quando, de repente, um carro esportivo luxuoso se aproximou.
Do veículo desceu um jovem vestido de forma estilosa, usando um brinco de safira na orelha esquerda.
Flávia parou abruptamente.
Seus olhos se arregalaram e seu rosto se iluminou com uma expressão de êxtase.
— Oppa! Oppa!
Alice lançou um olhar para o jovem.
Ele lhe parecia familiar.
Logo lembrou que era o ídolo de Flávia, Jota Ce.
Flávia tentou se aproximar, mas foi impedida pelos seguranças altos que acompanhavam o cantor.
— Oppa, você se lembra de mim? Há um ano, eu quase pulei de um penhasco e você me segurou!
Jota Ce, que caminhava em direção à delegacia, olhou para Flávia.
Após observá-la por alguns segundos, pareceu se lembrar. Um sorriso surgiu em seu rosto bonito.
— Ah, é você, mocinha! Que coincidência nos vermos de novo.
— Oppa, eu posso te pedir um autógrafo?
— Claro.
Flávia tirou um pincel atômico da bolsa, aproximou-se dele e pediu que assinasse nas costas de sua camiseta.
Após assinar, Jota Ce disse a ela:
— Espero que você seja feliz todos os dias.
Flávia ficou olhando até que a silhueta de Jota Ce desaparecesse.
— Ele é tão lindo e tão bom... Vou ser fiel a ele pelo resto da vida!
Snif.
A aparição do ídolo curou o trauma de ter visto o cadáver naquela noite.
Alice nunca fora de seguir ídolos, então não compreendia a euforia da prima.
Vendo Dona Helena descer do táxi, Alice deu um empurrãozinho em Flávia.
— Seu ídolo já entrou faz tempo. Vá logo com a sua tia.
— Alice, por que ele veio para a delegacia? Será que alguma fã maluca está perseguindo ele?
— Chega, vá logo. Eu ainda tenho que trabalhar.
Dona Helena entregou uma lancheira térmica para Alice.
— É a sopa de costela que fiz hoje à noite. Tome cuidado com a saúde nessas horas extras.
— Eu vou me cuidar, mãe. Não se preocupe.
Após ver o táxi partir, Alice entrou na delegacia.
Havia muita sopa; ela e Vic não conseguiriam tomar tudo.
Lipe foi até a sala forense buscar uns documentos, e Alice entregou o restante da sopa para ele.
— Lipe, minha mãe que fez. Pode levar.
— Maravilha! Obrigado, Alice!
Lipe levou a lancheira para a sala da investigação.
Ao abrir a tampa, o aroma se espalhou por tudo.
— Caramba, Lipe! Vai comer sozinho? — Gabriel aproximou-se e tentou pegar a lancheira, mas Lipe foi mais rápido e a protegeu.
— A Alice me deu. Nem vem.
O pessoal da sala começou a zombar.
— Lipe, você está apaixonado pela legista, é?
— A Alice é linda e bondosa, quem não estaria apaixonado? — Lipe respondeu sem vergonha nenhuma.
As risadas aumentaram.
Ricardo estava indo para a sala de reuniões e, ao ouvir a algazarra, franziu as sobrancelhas.
— O que está acontecendo aqui?
— Chefe, a Alice ficou com pena do Lipe e deu sopa de costela só para ele — fofocou Gabriel.
Ricardo lançou um olhar para Lipe.
Lipe sentiu a nuca formigar. Caminhou até Ricardo com a lancheira:
— Chefe, quer um pouco?
Os traços de Ricardo endureceram.
— Você acha que eu nunca tomei sopa de costela na vida? — respondeu friamente, saindo a passos largos.
Lipe: — ...
O chefe acordou com o pé esquerdo?
...
Na sala de reuniões.
Ricardo serviu um chá para Jota Ce.
— Senhor Jota Ce, nós o chamamos porque gostaríamos de saber algumas informações sobre o seu tio, Juca Silveira.
Jota Ce sentou-se à frente de Ricardo. Sem o brilho do palco, seu semblante carregava traços de exaustão.
Ele tomou um gole de chá e disse:
— Meus pais morreram cedo, e meu tio me criou sozinho. Quando saí do interior, assinei com uma gravadora e comecei a fazer sucesso, trouxe meu tio para a cidade para ter uma vida melhor. Eu paguei o aluguel daquela vila para ele. Ele morou lá por quase um ano, até que a mansão que eu comprei ficou pronta. Pedi que ele entregasse a vila para se mudar comigo, mas, infelizmente, ele sofreu aquele acidente de carro.
Jota Ce apoiou as mãos na testa, e seus olhos ficaram vermelhos.
— Eu só tinha meu tio como família. Depois que ele se foi, sinto-me sozinho no mundo. Felizmente, tenho as fãs que me apoiam e incentivam.
Jota Ce olhou para Ricardo com uma expressão de dúvida.
— Inspetor, por que vocês querem saber do meu tio de repente?
Os dedos longos de Ricardo tamborilaram levemente sobre o joelho; seu perfil rígido sob a luz criava contrastes marcantes.