Capítulo 17: Choque Visual e Pernas Trêmulas
Ela quebrou tudo o que havia em casa.
Gritou a plenos pulmões, em um desabafo frenético.
Até sua mãe, sempre tão autoritária, ficou assustada.
Flávia deu mais de dez bofetadas no próprio rosto e questionou a mãe de forma histérica:
— Já chega? Você só vai ficar satisfeita quando me levar à morte?
Ela pegou um banco e destruiu o piano.
Agarrou a prancheta e rasgou todos os seus desenhos.
— Eu cansei de você planejando minha vida todos os dias! Cansei de você controlando cada passo meu! Eu sou um ser humano, não o seu fantoche!
A mãe observou aquele surto em silêncio por um momento e depois explodiu de fúria:
— Eu dediquei tanto esforço a você, e esse é o agradecimento que recebo? Sua ingrata! Fora daqui! Se não voltar a estudar para o vestibular, não precisa nunca mais voltar!
Ela olhou para a mãe, com os olhos tão vermelhos que pareciam prestes a sangrar.
— Pois eu não volto mesmo! Há muito tempo eu queria sair desse lugar que me faz sentir pior do que morta!
Ela saiu correndo de casa como uma louca.
Correu sem parar até chegar ao Monte das Bordas, no subúrbio.
Subiu até o topo de uma vez e parou na beira do penhasco. Abriu os braços, querendo apenas se libertar.
No exato momento em que ia saltar para encerrar a própria vida, uma mão agarrou seu pulso com força.
Ela foi puxada de volta.
Ao abrir os olhos, deparou-se com um olhar límpido e puro.
Era Jota Ce.
Ele estava acompanhado de alguns funcionários; deviam estar no monte para uma sessão de fotos.
— Menina, não faça essa bobagem.
Ele colocou um pequeno MP4 na palma da mão dela.
— Aqui dentro estão as minhas músicas. Se estiver triste, escute-as. Não desista da vida.
A voz dele era como uma nascente de água cristalina, carregando um poder suave e curativo.
Flávia despertou de suas memórias. Seus olhos estavam vermelhos e as lágrimas escorriam.
— Alice, sabia que, se não fosse pelo Jota Ce, eu teria morrido naquele penhasco? Naquela tarde, eu sentei na grama e passei horas ouvindo as músicas dele no MP4 que ele me deu.
Desde então, ela se apaixonou pelas músicas de Jota Ce.
Somente ao ouvi-las é que os pensamentos desesperados e sombrios em sua mente se dissipavam aos poucos.
— Ele te tirou do abismo, e você passou a vê-lo como a luz da sua vida, não é? — perguntou Alice com voz suave.
Flávia assentiu com força e encostou o rosto no ombro de Alice.
— Alice, você é realmente uma intelectual, suas palavras sempre tocam o meu coração. Minha mãe, quando soube que eu seguia um ídolo, só soube dizer que eu perdia tempo, que era fútil, que eu a decepcionava e que um dia eu me arrependeria.
Eles jamais entenderiam que Jota Ce foi quem lhe deu esperança de viver.
— Como ídolo, ele é muito positivo. Faz trabalho voluntário em áreas carentes, doa livros e material escolar para crianças. E quando se encontra com as fãs, ele não tem nenhuma arrogância de estrela.
— Sabia que ele veio do interior? Sem contatos, sem recursos. Ele chegou onde chegou apenas com seu talento para compor e sua voz incrível.
Alice deu um tapinha gentil no ombro de Flávia.
— Ouvindo você falar assim, parece que seu ídolo é realmente uma boa influência. Se ele te traz esperança, eu não sou contra você ser fã dele.
Os olhos de Flávia se encheram de lágrimas de emoção. Ela abraçou Alice com força.
— Alice, você é a melhor.
Ninguém na família a apoiava; todos diziam que ela estava ficando louca por causa desse cantor. Ninguém a compreendia.
— De agora em diante, qualquer coisa que te deixe triste, pode me contar.
Flávia assentiu vigorosamente.
— Miau, miau, miau... —
De repente, ouviu-se um miado persistente.
Flávia levantou a cabeça do colo de Alice e caminhou em direção ao banheiro.
— Ultimamente o Branquinho está estranho, vive miando dentro do banheiro.
Às vezes ele miava tanto que ela nem conseguia dormir direito.
Alice seguiu Flávia até o banheiro.
Branquinho era um gato de rua que Flávia resgatara e alimentava há mais de seis meses.
Nesse momento, ele estava encolhido junto à parede do banheiro, arranhando os azulejos com força.
Flávia tentou pegá-lo no colo, mas o gato começou a miar com ainda mais urgência. Era um som arrepiante.
— O que ele tem? Será que está tendo um surto de agressividade?
Alice pediu que Flávia soltasse o gato.
Livre, Branquinho voltou a arranhar a parede.
Alice se aproximou daquela parede específica.
Como legista, seu olfato era muito mais aguçado do que o de uma pessoa comum.
Um odor fétido, extremamente leve, mas impossível de ignorar, atingiu seu nariz.
Os pelos da nuca de Alice se arrepiaram instantaneamente.
Ela se ergueu e analisou o acabamento da parede.
Ficava claro que aqueles azulejos eram um pouco mais brilhantes que os das outras paredes, e o rejunte nas bordas parecia mais novo.
— Flávia, leve o Branquinho para fora agora — disse Alice, com expressão séria.
Flávia não entendeu o que estava acontecendo, mas sentiu o clima mudar e correu para tirar o gato dali.
Alice pegou o celular e fez uma ligação.
Alguns minutos depois.
O som das sirenes ecoou.
Ricardo chegou acompanhado da equipe de investigação.
Ele vestia uma camisa preta de mangas curtas hoje, com os dois primeiros botões abertos. Seus olhos eram gélidos e ele exalava uma presença esmagadora.
Ao ver Ricardo, Flávia sentiu-se intimidada por sua aura.
Ela se encolheu atrás de Alice.
— Alice, eles são policiais? O que está acontecendo?
Alice tranquilizou a prima e entregou-lhe a chave do carro.
— Leve o Branquinho e espere no meu carro.
Ricardo aproximou-se de Alice.
— Qual é a situação?
Alice apontou para a parede onde sentira o cheiro, franzindo as sobrancelhas.
— O cheiro é fraco, mas é definitivamente odor de cadáver.
A expressão de Ricardo tornou-se sombria. Ele acenou para os técnicos que traziam equipamentos de proteção.
— Quebrem a parede. Com cuidado. Protejam qualquer vestígio na cena.
Enquanto a parede era quebrada, Ricardo puxou Alice um pouco para trás.
Alice olhou para ele, fixando o olhar em seu perfil marcante.
— Capitão, nada de gracinhas comigo.
Ricardo respondeu:
— Só não quero que você seja atingida por algum pedaço de azulejo. Nada além disso.
Alice deu um sorriso irônico.
— Eu sei que você não tem segundas intenções. Afinal, você gosta mesmo é de ser traído.
Ricardo: — ...
O som da furadeira produzia um zumbido irritante. Alice saiu para ligar para Vic, pedindo que ela trouxesse a maleta de perícia.
Ricardo permaneceu do lado de fora do banheiro, atento. Conforme os azulejos caíam, um odor insuportável de decomposição se espalhou.
Era extremamente forte.
Dentro da parede, encolhido, havia um cadáver em decomposição avançada. A pele apresentava uma tonalidade verde-escuro, partes dos tecidos já haviam se liquefeito e as feições eram irreconhecíveis.
Até os técnicos recuaram alguns passos, incapazes de suportar o cheiro.
Flávia, curiosa sobre o que havia no banheiro, tentou entrar várias vezes para olhar.
Alice a segurou.
— A curiosidade matou o gato.
— Alice, se você não me deixar ver, eu vou ficar morrendo de ansiedade.
Alice parou de impedir. Flávia correu e deu uma olhada.
Naquele instante, ela paralisou completamente.
E-era um cadáver!
Meu Deus!
Ela morava ali há quase seis meses, convivendo diariamente com um corpo escondido na parede.
Nossa, era aterrorizante!
As pernas de Flávia fraquejaram e ela desabou no chão.
— Alice... Alice... — Sentindo o cheiro nauseante, Flávia teve ânsias de vômito, mas nada saía. Ela estava prestes a chorar de pavor.
Alice aproximou-se e ajudou a prima a se levantar.
— Eu avisei para você não entrar.
Flávia estava tremendo. Alice a ajudou a voltar para o carro.
— Alice, eu não vou ser suspeita, vou? Eu... eu nunca matei ninguém!
Alice a acalmou suavemente:
— Aquele corpo foi emparedado há pelo menos dois anos. Você não é suspeita.
Flávia assentiu com os lábios trêmulos.
— Estou com muito medo.
— Fique calma, sua prima está aqui.
Quando Vic chegou, Alice calçou as luvas estéreis, colocou a máscara e, pegando a maleta, caminhou de volta para dentro da casa.
Flávia observou a silhueta alta e decidida de Alice, sentindo uma admiração infinita.
Sua prima era realmente incrível, corajosa e muito profissional.