Capítulo 16: Desejo de Controle Absoluto, a Morte seria o de Menos
Após fecharem a loja à tarde.
Alice e sua mãe, Dona Helena, foram ao supermercado fazer compras.
— Alice, o Mateus anda muito ocupado ultimamente? Ligue para ele, peça para vir jantar hoje. Vou preparar vários pratos...
Helena nem terminou de falar quando, pelo canto do olho, avistou uma silhueta familiar.
— Aquele não é o Mateus?
Alice seguiu o olhar da mãe e, como esperado, Mateus estava na seção de frutas. Mas ele não estava sozinho; a poucos passos dali, Camila escolhia um durião.
Alice instintivamente tentou puxar Helena para longe.
— Mãe, vamos dar uma olhada na seção de frutos do mar.
Sentindo que algo estava errado, Helena ficou parada. Logo em seguida, uma figura delicada e esguia enganchou o braço no de Mateus.
O rosto de Helena mudou de cor instantaneamente. Ela fez menção de avançar, mas Alice a segurou firme.
— Mãe, não se irrite. Eu planejava encontrar um momento para te contar a verdade — Alice parou na frente de Helena, bloqueando sua visão de Mateus e Camila. — Eu me divorciei do Mateus. Com quem ele está agora não me diz mais respeito.
Helena franziu a testa, com a expressão sombria.
— Ele está nos menosprezando agora? Os negócios da família dele estão indo cada vez melhor, ele enriqueceu e então te traiu para te dar um chute?
Alice tentou acalmar a mãe:
— Mãe, ao me divorciar dele, ainda recebi cem milhões de reais. Não saí perdendo. Agora sua filha é uma mulher rica. Se você quiser morar em uma mansão, sua filha pode comprar.
Helena conhecia bem a filha; embora Alice parecesse indiferente por fora, devia estar sofrendo muito por dentro.
Ela e Mateus eram praticamente amigos de infância. Antigamente, quando o pai de Alice ainda estava presente, os negócios iam muito bem e a família Mateus prosperou graças ao apoio dele. Depois que o pai desapareceu no exterior, os negócios da família desandaram. Como as duas famílias já tinham um compromisso de casamento, os Mateus, talvez temendo que os outros os chamassem de ingratos, mantiveram a união.
Helena achou que Mateus valorizaria Alice, mas...
Ao ver a mãe quase chorando de pena dela, Alice a abraçou:
— Mãe, não fique assim. Sua filha está ótima agora: tenho dinheiro, beleza e um trabalho que amo. Se um dia você quiser ir a um clube e contratar uns modelos, sua filha te leva.
Helena lançou um olhar severo para a filha que falava bobagens.
— Eu não vou a lugar nenhum. Vou esperar seu pai voltar.
Ao mencionarem o pai, ambas ficaram em silêncio.
Helena suspirou e quebrou o gelo:
— Vou comprar mais daqueles frutos do mar que você gosta.
Alice sorriu:
— Assim é que se fala. Não se preocupe, quem nunca se enganou com alguém quando jovem? De agora em diante, cada um segue seu caminho. Eu encontrarei alguém muito melhor, não acha, mamãe?
Helena assentiu:
— Sim.
Mãe e filha seguiram de mãos dadas para as compras.
...
Helena preparou uma mesa farta.
O irmão de Alice, Guilherme, tem dezesseis anos e é autista. Ele é atraente, alto e magro, com 1,86m de altura. Exceto pelo fato de não falar, ele é excelente em tudo; todo ano é o primeiro da classe na escola.
Desde o desaparecimento do pai, o avô Eduardo expulsou a família de casa. Eduardo nunca gostou de Helena como nora, considerando-a um "azar" para a família, e estendeu esse desamor aos netos, especialmente a Guilherme.
O avô preferia o filho do tio de Alice, Gustavo, que tem a mesma idade de Guilherme, mas é péssimo nos estudos. Ainda assim, Eduardo o via como o orgulho da família.
— Gui, o Gustavo te incomodou na escola ultimamente? — Alice colocou um pedaço de peixe no prato do irmão.
Guilherme olhou para Alice com olhos puros e balançou a cabeça levemente.
— Se ele se atrever a te provocar, me conte. Eu vou lá dar uma lição nele.
Guilherme assentiu.
— Dá um sorriso para a irmã.
Guilherme curvou levemente o canto da boca. Alice acariciou o topo da cabeça dele.
— Que menino bom.
Helena sorriu ao ver a interação dos irmãos.
— A propósito, Alice, quando tiver um tempo, vá visitar a Flávia.
Alice olhou para a mãe:
— O que aconteceu com ela?
Flávia é filha da tia de Alice. No ano passado, tirou uma nota excelente no vestibular, mas o curso escolhido não era o que a mãe dela queria. Quando a carta de aceitação chegou, a tia de Alice a rasgou e a obrigou a estudar novamente para prestar vestibular para outra área. Flávia se recusou, teve uma briga feia com a mãe e saiu de casa.
— Sua tia disse que a Flávia jurou que não voltaria a estudar para o vestibular. Ela ficou obcecada por um ídolo pop; se a mãe fala qualquer coisa, ela ameaça se matar. Agora sua tia nem tem coragem de falar com ela.
Alice franziu o cenho.
— Mãe, na verdade eu acho que a tia sempre foi rigorosa demais com a Flávia. Aquela história de rasgar a carta de aceitação... é sufocante só de pensar.
Helena suspirou:
— Eu também falei com ela. Ela está arrependida agora, mas a Flávia não quer reconciliação.
— Vou passar na casa da Flávia depois do jantar.
...
Flávia alugou uma pequena vila com jardim nos subúrbios.
Alice dirigiu até lá; o portão estava aberto e uma música alta vinha de dentro. Alice entrou. Flávia estava na sala com um laptop no colo, digitando freneticamente enquanto olhava para a tela com atenção total. Alice aproximou-se para ver.
Na tela, estava uma interface de votação de fã-clube.
— Isso! O "oppa" entrou no top 3 da parada musical! Nós, as Estrelas, somos as melhores!
Flávia deu um pulo do sofá, mas logo percebeu a presença de Alice.
— Prima? O que faz aqui?
Flávia desceu do sofá rapidamente. Alice foi até o som e baixou o volume.
— Você morando sozinha aqui... não tem medo?
Flávia balançou a cabeça:
— Não tenho medo. O máximo que pode acontecer é eu morrer.
Alice franziu o cenho, mas não a repreendeu imediatamente. Entregou-lhe os doces e o chá que trouxera. Flávia sorriu:
— Só você conhece meus gostos.
Alice sentou-se ao lado dela e olhou para a tela do computador, que mostrava um rapaz de moletom branco com um sorriso radiante.
— Você gosta dele?
Ao falar do ídolo, os olhos de Flávia brilharam.
— Sim! O nome dele é Jota Ce, é um cantor muito famoso. Você já ouviu as músicas dele? São incríveis.
— Acho que sim.
— Se até você, que não liga para essas coisas, já ouviu, é porque ele é um sucesso mesmo.
Alice olhou para a sala; as paredes estavam cobertas de pôsteres de Jota Ce. Na mesa, havia bastões luminosos e faixas de apoio. Até o chaveiro da bolsa tinha a foto dele.
Alice lembrava que Flávia não era de seguir ídolos.
— Flávia, conte para a sua prima... por que você começou a gostar tanto dele de repente?
Flávia pousou o copo de chá, baixou o olhar e disse com tom pesado:
— Alice, depois que minha mãe rasgou minha carta de aceitação no ano passado, eu quase pulei de um penhasco para me matar.
A mãe de Flávia sempre foi uma mulher autoritária. Após dar à luz, não pôde mais engravidar por problemas de saúde. Como as outras noras da família tiveram filhos homens, ela queria que Flávia fosse a melhor em tudo, para que os primos fossem ofuscados.
Flávia começou a pintar aos três anos, piano aos quatro, dança aos cinco. Desde pequena, sua agenda era mais cheia que a de um vestibulando. Ela chorava, não queria ir, mas a mãe usava a palmatória para obrigá-la, dizendo que era "pelo bem dela" e que ela agradeceria no futuro.
Na escola primária, a exigência era sempre o primeiro lugar. Sempre que recebiam visitas, a mãe a obrigava a se apresentar. Se algo desse errado, a crítica vinha assim que os convidados saíam.
Conforme crescia, ela queria fazer amigos, mas a mãe controlava tudo: proibido brincar com quem tinha notas baixas, proibido aproximar-se de quem era de família humilde e proibido falar com garotos.
No ensino médio, apenas por ajudar um colega com exercícios, a mãe foi até a escola acusar o garoto de tentar um namoro precoce e o obrigou a pedir desculpas na frente de toda a classe.
Depois disso, todos os colegas se afastaram dela.
Suas gavetas estavam cheias de certificados, mas ela não sentia alegria nenhuma. Sob a pressão da mãe, tornou-se sensível, insegura e frágil. Ela não ousava revidar, apenas chorava sozinha à noite. No ensino médio, ficou ainda mais calada. Sua mesa era uma montanha de livros e ela não interagia com ninguém. Era como um robô programado.
Suas notas eram excelentes, mas os colegas a chamavam de "máquina de fazer exercícios".
Ela viveu sob tensão extrema até o dia em que saíram as notas do vestibular.
Ela foi muito bem. A mãe queria que ela cursasse Finanças em uma faculdade de elite, para um dia assumir os negócios e pisar nos filhos dos tios. Mas Flávia não queria saber de negócios; secretamente, ela se inscreveu para Medicina. Queria distância da mãe e daquela cidade.
Achou que, com a carta em mãos, a mãe aceitaria. Em vez disso, a mãe explodiu e rasgou o documento na sua frente.
Naquele momento, o sangue de Flávia gelou. Conforme os pedaços de papel caíam, toda a repressão e mágoa acumuladas por anos explodiram.