Capítulo 114: Ainda precisa ser desavergonhado
— Ela consegue se manter firme por causa do bebê. Se dissermos a ela que o bebê se foi, o que ela faria?
Bernardo Fontes era um homem frio e insensível; essa era a descrição mais precisa que todos em São Paulo tinham dele.
Alice pensava o mesmo antigamente.
Mas após a reconciliação, ela viu sua ternura, cuidado e até um amor profundo e sincero.
Contudo, agora, Alice via novamente aquele Bernardo gélido.
— Esse seu método vai matá-la — disse ela entre dentes.
— É o melhor método. Você entende melhor que eu o conceito de "renascer das cinzas". Alice, só fazendo a Vitória acreditar que perdeu o que tem de mais importante é que ela perceberá que só ELA pode proteger o que é mais valioso.
Alice silenciou por um longo tempo.
Bernardo não a pressionou; era um método agressivo e a decisão cabia apenas a ela.
Ao chegarem ao hospital, Rafael e a Dra. Luana esperavam do lado de fora do quarto.
Alice estranhou: — Dra. Luana, o que faz aqui?
Logo que perguntou, ela percebeu.
Isadora sofrera um aborto e a cirurgia certamente fora feita por Luana, já que ela era a chefe da ala de obstetrícia daquele hospital.
Mas Rafael disse: — Minha colega estava de folga. Recebeu a ligação do Bernardo e veio correndo.
— Ah... a Isadora é irmã do Caio, é natural que ele se preocupe. Obrigada pelo trabalho, doutora.
Rafael sentiu o suor frio na testa e olhou para o amigo com total descrença.
A expressão de Bernardo também era... peculiar.
Foi a Dra. Luana quem quebrou o gelo: — O Senhor Bernardo ficou com medo que a senhorita se exaltasse emocionalmente e pediu que eu ficasse de vigília aqui. Caso aconteça algo, estarei por perto para garantir sua segurança.
— Você não veio tratar da Isadora Matos?
— A Senhorita Isadora já concluiu a cirurgia. Além disso, ela não é minha paciente e não está sob minha responsabilidade.
Alice sentiu um constrangimento monumental.
Com razão Bernardo parecia tão magoado e desolado; ela o entendera todo errado.
— Mesmo se você viesse tratar dela, eu não ficaria brava. Somos todos conhecidos, eu entenderia.
Rafael torceu o lábio: — Chega! Não fale mais nada. Se você continuar, a boa intenção do Bernardo vai virar um nó cego.
Alice mostrou a língua de brincadeira: — Vou entrar para ver a Isadora.
Rafael deu um tapinha de "brother" no ombro de Bernardo: — Bernardo, essa sua esposa parece esperta, mas é lerda que dói. O QE (quociente emocional) dela é baixíssimo. Se quiser conquistar ela de verdade, você tem que ser mais direto e ainda mais desavergonhado.
Bernardo: — ... Suma daqui.
Luana cobriu a boca para não rir alto.
Alice também estava sem graça, mas como já entrara no quarto, não precisou encarar o rosto sombrio de Bernardo nem a tagarelice de Rafael.
Isadora acabara de acordar da cirurgia. Estava pálida, com o cabelo bagunçado e uma aparência tão exausta que parecia ter envelhecido dez anos.
Mulheres que casam bem florescem.
As que casam mal, por mais que se cuidem, acabam murchando.
Alice comparou-se mentalmente com ela; felizmente agora era independente e não dependia do amor de um homem para viver.
Pelo contrário, agora era aquele homem que dependia dela para ter uma vida emocional.
Alice disse em tom de "choque de realidade": — Seja esperta. Divorcie-se do Samuel, vá para o exterior descansar e estudar algo. No fim das contas, a mulher precisa viver por si mesma.
— Você diz isso com sinceridade? Ou diz para o Bernardo ouvir lá fora?
— Não preciso bajular o Bernardo Fontes. Nossa volta é algo natural. Se um dia eu estiver infeliz, me divorcio de novo a qualquer momento. Você acha que eu preciso fazer média com ele para aconselhar uma mulher que eu sempre detestei?
— É verdade. Nós fomos rivais.
— Você se enganou. Nunca fomos rivais; você é que resolveu unilateralmente me tratar como inimiga em seus planos. Isadora, a Lin Hua me disse que muita coisa foi obra dela. Ela me pediu para te perdoar, mas eu não aceitei.
O rosto de Isadora ficou ainda mais pálido.
Após a queda de Lin Hua, Isadora tentara visitá-la várias vezes, mas fora sempre rejeitada. Além disso, Lin Hua mandara dizer que nunca mais queria ver aquela "discípula estúpida e inútil".
Lin Hua a xingara de forma cruel, a ponto de Isadora não querer mais nem pensar na mentora.
Mas ela não imaginava que, antes de morrer, Lin Hua intercedera por ela junto a Alice.
— Não pretendo te perdoar. Certas mágoas e ódios não podem ser apagados.
Olhando para a apatia de Isadora, Alice continuou: — Mas prometi a ela que não te traria problemas. Portanto, contanto que você saia do país e não nos vejamos mais, cada uma segue sua vida. Será melhor para todos.
Isadora perguntou inquieta: — Você vai mesmo casar de novo com o Bernardo, de coração?
— Isso te interessa?
— Claro que sim. Eu quero que o Bernardo seja feliz.
— Você não é capaz de garantir a felicidade dele, e isso não te diz respeito. Cuide primeiro de si mesma.
Alice terminou a visita. O fato de Isadora não ter agido como uma louca jogando a culpa nela deixou Alice com um humor razoável.
Ao sair, agradeceu à Dra. Luana e preparou-se para voltar à Mansão do Horizonte.
Bernardo ia acompanhá-la, mas o caso de Isadora ainda exigia burocracias, pois nem todos conseguiam segurar o ímpeto do Samuel.
Rafael ficou encarregado de levar Alice para casa.
No caminho, Rafael tagarelou sobre várias coisas. Contou como Bernardo se sentia prisioneiro da culpa pela morte do Caio.
Disse que, embora Bernardo ajudasse Isadora para pagar a dívida, ele sempre ficava irritado e relutante ao fazê-lo. Chegou a quase ter depressão por causa disso.
Ele não era do tipo que se forçava a nada, especialmente carregar o peso de uma vida para cuidar de uma mulher que ele detestava.
— Sorte que você apareceu. Percebi que o Bernardo só começou a parecer humano depois que casou com você. Senão ele teria virado um morto-vivo completo e os Fontes não teriam herdeiro.
Alice sorriu sem graça: — Eu achava que era ELE quem transformava os outros em mortos-vivos.
Na época em que seu "cérebro de apaixonada" estava no auge, ela não agia exatamente como um zumbi? Colocava a vontade subjetiva de Bernardo acima de tudo.
Se não tivesse morrido uma vez, provavelmente nunca veria o coração de Bernardo, nem o seu próprio futuro.
— Enfim, agora que vocês têm status e poder, e os mal-entendidos foram resolvidos, finalmente podem viver em paz.
Alice ergueu a sobrancelha, em tom enigmático: — Viver em paz? Você tem certeza de que todos os problemas do Bernardo foram resolvidos?
Rafael sentiu o frio na barriga.
Quase esqueceu: Alice agora era a presidente do Grupo Guimarães. Seus contatos e recursos eram de elite; se ela quisesse saber de algo, saberia.
— O Bernardo não tem o menor interesse na Tina. Saiba que antes ele era quase um monge, uma castidade que dava medo. Só com você é que ele age como um homem normal.