Capítulo 112: Não sou santa
A culpa de Vitória residia no fato de acreditar que não deveria ter saído de casa, nem que sua recusa fora o estopim para a tragédia de Henrique.
Pelo bem da criança, ela parou de ser autodestrutiva, mas Alice, como sua melhor amiga, percebia que a culpa e o remorso em seu interior estavam prestes a afogá-la.
Resta esperar que, com o nascimento do bebê, ela possa ver o sol e a luz novamente.
— Mana, por que o casamento de vocês vai ser só daqui a três meses? Eu não aguento mais esperar.
— O Bernardo quer cuidar de muita coisa pessoalmente, por isso demora mais.
— Ai, um homem inteligente como ele não sabe que "quem muito espera o tempo leva"?
Leo sentou-se, tomou um gole de chá e murmurou: — Aquela Isadora Matos, mesmo casada com o Samuel, não toma jeito. Vive indo na empresa procurar o Bernardo. Mana, você não sente nenhuma insegurança?
Isadora Matos?
Alice soubera que ela apanhara de Samuel e quase sofrera um aborto. Depois, Rafael teve que ir à casa dos Samuel em nome de Bernardo para que o pai de Samuel interviesse e segurasse o filho.
Ela ainda tinha audácia de causar problemas? Não tinha medo de apanhar de novo se o Samuel descobrisse?
— Insegurança não, mas sinto um pouco de nojo.
Alice não era santa.
As dívidas da vida passada já foram cobradas, mas, quanto a Isadora, ela preferia manter a política de "longe dos olhos, longe do coração".
— Contanto que você não se irrite, está tudo bem. — Leo hesitou, o que deixou Alice curiosa.
Esse garoto tinha uma grande capacidade de aprendizado. Desde que os pais o colocaram na empresa, ele entendeu o funcionamento de tudo em velocidade recorde, e já estava consolidado como Diretor Geral.
Um gênio do trabalho.
Não deveria ser sobre a empresa.
Relacionamentos?
Também não; Paola estava no país fazendo a reabilitação ocular e os dois se viam sempre. Não seria saudade.
— Se tem algo a dizer, diga logo. Sem rodeios. Sou sua irmã, de que tem medo?
— Bem... eu queria perguntar... depois que vocês casarem de novo... eu e a Paola... como... nos chamaremos?
Alice arregalou os olhos: — O quê?
Bernardo, que chegara cedo do trabalho para ficar com a esposa, entrou na sala. Com sua voz límpida e um toque de humor, respondeu calmamente ao cunhado:
— Cada um no seu papel. Você me chama de cunhado, e eu te chamo de cunhado.
— ...... — Leo encarou Bernardo com uma expressão tão estranha que parecia ter visto um alienígena. — Pode isso?
Alice deu um peteleco na testa do irmão: — Por que não poderia? Em que época você acha que vivemos? E mesmo em tempos antigos, isso seria considerado "fortalecer os laços familiares".
"Fortalecer os laços".
Essas palavras atingiram em cheio o coração de Leo.
Ele abriu um sorriso bobo, coçando a cabeça: — Então não vou mais me segurar, hein? Depois que vocês casarem, vou namorar a Paola por mais dois anos e também vamos casar.
Alice sorriu: — É bom saber que você se importa com ela. Casem quando quiserem.
Bernardo acrescentou: — Podem usar o meu casamento atual como padrão de referência.
Quando parecia que tudo estava encaminhado, Isadora Matos aprontou de novo.
Bernardo recebeu uma ligação da família Samuel e, instintivamente, olhou para Alice: — É a Isadora.
Alice ergueu a sobrancelha. Foi a primeira vez, desde a reconciliação, que ele perguntou tão seriamente se deveria se envolver nos assuntos de Isadora.
Caio salvara a vida dele.
Isadora já estava pagando por seus erros.
Alice não era mesquinha, contudo...
— Eu não vou.
— Tudo bem.
Bernardo caminhou até a porta, mas voltou subitamente. Segurou as mãos de Alice e depositou um beijo em sua testa: — Eu volto logo.
Esse homem está sensível demais,
pensou Alice.
Mas ela se sentia comovida com todo esse cuidado e atenção.
Desde a gravidez, Bernardo não a deixava mais dirigir. Para qualquer lugar, ela precisava de um motorista ou da companhia dele.
Alice estava entediada sozinha na Mansão do Horizonte, especialmente com Bernardo resolvendo o caso da Isadora. Ela pegou as coisas que comprara para Vitória e pediu que o motorista a levasse até lá.
Vitória assistia a vídeos das competições da Paola. Sabendo que Alice vinha, já estava à espera.
Seu rosto continuava pálido, sem cor. Se não fosse pelo bebê, até comer seria um fardo para ela.
Song Yuan, preocupada com a saúde da nora, mudara-se para São Paulo e ia visitá-la todos os dias.
Ela nunca pensou em levar Vitória para morar no Leste; Vitória crescera em São Paulo, e o ambiente familiar era o melhor para a gestação.
Breno (Wen Cheng), irmão de Vitória, ainda não casara e, sendo ela a pessoa mais importante para ele, também insistia que ela ficasse na casa dos Vitória.
Eles cuidavam muito bem dela. Fazia um mês que Henrique se fora. Embora Vitória não tivesse recuperado sua alegria e saúde de antes, ao menos não tivera novas complicações na gravidez.
Alice a visitava com frequência, mas quem Vitória mais queria ver era Paola.
Paola era outra forma de Vitória se apegar ao amor que sentia por Henrique.
— Ele simplesmente foi ajudar a Isadora e você não ficou brava? — comentou Vitória após ouvir o relato de Alice.
Alice balançou a cabeça: — Depois de passar por tanta coisa, a gente para de dar importância a certas bobagens. O fato é que agora estou vivendo bem, minha família está segura e feliz. Isso basta.
— Tem um cheiro de quem atingiu o nirvana.
— Talvez. — Alice mudou de assunto, com um olhar sugestivo: — E você... está tudo bem?
— Sim, tudo bem.
— O seu irmão não teve um encontro às cegas? Você...
Vitória sabia o que Alice queria dizer.
— A Beatriz gosta do meu irmão. Ela usa a desculpa de uma aliança, dizendo que quer se unir a ele para tomar o poder dos Samuel, mas eu sei que ela só quer estar com ele.
Beatriz tinha uma boa relação com Alice e Vitória. Era competente, mas por ser mulher, nunca fora valorizada pelos Samuel. Mesmo assim, provara seu valor para muitos ao longo dos anos.
Samuel era o maior obstáculo de Beatriz.
Ela o enfrentara sozinha por anos. Muitos a aconselharam a encontrar um parceiro poderoso para intimidar o clã Samuel, mas ela sempre recusou.
Até seis meses atrás, quando Breno teve um contato mais profundo com ela, e algo mudou.
Alice e Vitória percebiam que a "aliança" de Beatriz era apenas uma forma de convencer os outros, inclusive Breno.
Beatriz era forte e não queria que Breno visse sua vulnerabilidade, por isso escolhera esse tom pragmático.
Alice perguntou: — E você quer que ela seja sua cunhada?
— Sinceramente? Ela é perfeita para o meu irmão.
Breno e Vitória eram irmãos que dependiam um do outro. Embora tivessem pai, este tinha inúmeras amantes e um filho com a madrasta; nunca ligou para os filhos do primeiro casamento.
Se Breno não detivesse as rédeas do Grupo Vitória e o pai e a madrasta não dependessem do seu dinheiro para viver, os dois irmãos já teriam sido explorados até o osso.
Breno era um irmão mais velho exemplar e protetor. Vitória desejava sinceramente que ele encontrasse uma mulher que o amasse de verdade.
Alguém que não buscasse dinheiro ou poder, apenas o coração dele.