Capítulo 105: Confissão do Casal
— Eu quero ver o Bernardo Fontes. Se você puder organizar isso, eu vou embora assim que terminarmos. Se não puder, dê o fora agora mesmo.
Alice estava decidida: ela veria Bernardo naquela delegacia de qualquer jeito.
Rafael observou seu rosto gélido, aquela postura de "ninguém me engana"... e lembrou-se inevitavelmente de Bernardo.
Pois é, não era à toa que eram um casal; os dois dominavam perfeitamente essa aura de quem olha para o mundo de cima.
— Vou ver o que consigo fazer — disse Rafael, dando de ombros e aceitando seu destino.
O seu "ver o que consigo fazer" consistia em subir furtivamente pelas escadas dos fundos e esgueirar-se até a sala do Delegado Galdino para encontrar o interessado.
— Sua esposa deve ter batido a cabeça; ela se recusa a ir embora sem te ver. Eu lavei minhas mãos.
Rafael jogou-se no sofá, desistindo de tudo.
Alice era inteligente. Ela sabia que Bernardo não queria vê-la, mas hoje, ela fazia questão.
As mágoas da vida passada estavam praticamente resolvidas. Lin Hua lhe entregara o que precisava e ela prometera poupar Isadora Matos; contanto que a outra não a provocasse mais, Alice não a aniquilaria.
Quanto a Bernardo...
Ela precisava descobrir se, antes de sua morte na vida passada, ele nutria algum sentimento por ela, e se ele sabia das atrocidades cometidas por Isadora.
— Alice Guimarães.
A voz masculina familiar caiu como uma pedra no lago tranquilo do coração de Alice.
Ela virou-se lentamente. Diante de seus olhos estava Bernardo, com seu habitual ar de elegância desleixada misturado a uma frieza cortante.
— Então você aceitou me ver.
— Já me viu. Pode ir agora? — perguntou ele.
Alice guardou o celular na bolsa, levantou-se e, contornando a cadeira, caminhou até ele.
Talvez pela beleza e presença estonteante de ambos, as diversas pessoas no saguão da delegacia pararam para observá-los. Alguns até tentavam adivinhar quem eram e por que estavam ali. Contudo, ninguém ousava tirar fotos.
Alice parou diante de Bernardo e, casualmente, estendeu-lhe sua bolsa.
Ele ergueu a sobrancelha, mas não a pegou.
— O Senhor Fontes prefere conversar aqui? Não me importo, desde que o senhor não se incomode que estranhos ouçam nossos assuntos íntimos.
Alice fez questão de baixar o tom ao dizer "assuntos íntimos".
Uma sombra de irritação cruzou o rosto bonito de Bernardo. Ele pegou a bolsa feminina com uma mão e, com a outra, segurou o braço esguio da mulher, conduzindo-a ao segundo andar.
BUM.
O som da porta batendo assustou Rafael, que colocou a cabeça para fora do sofá. — Cacete!
O Bernardo a trouxe aqui para cima? Isso não é admitir que ele estava mentindo o tempo todo? Sabendo que a ex-mulher dele não tolera mentiras, ela vai acabar com a raça dele.
Em briga de gigantes, Rafael preferia não se meter; calçou os sapatos e saiu de fininho.
Alice analisava o ambiente ao redor com calma e sentou-se em uma cadeira. Sua postura serena lembrou Bernardo da herdeira que se casara com ele tempos atrás.
Era a mesma serenidade, a mesma doçura.
Alguém que cuidava dele, que era obediente... e até submissa.
— Alice, como você pode ver, estou em um grande problema. O que mandei o Eduardo te dizer era verdade: estamos quites.
— Você já gostou de mim? — Alice não queria discutir os "problemas e dilemas" atuais; ela só queria saber aquilo.
— Você tem noção do que está perguntando?
— Bernardo, se não houvesse a aliança entre famílias, você gostaria de mim? Ou... seria capaz de gostar?
Ela nunca quis se anular, mas por causa dele, anulou-se por tempo demais.
Desta vez, ela não seria a vítima; ela seria a protagonista.
— O quê? Não quer responder? Ou não tem coragem?
Bernardo encarou os olhos dela, em formato de meia-lua, tentando decifrar o motivo daquela insistência.
Pensou em mentir ou despachá-la com o silêncio.
Mas ele percebeu, vagamente, que aquela era a última chance que ela lhe dava.
Se perdesse essa, jamais teria a chave para o coração dela novamente.
Bernardo ponderou por um instante e disse a verdade: — Sim. Eu já gostei de você. Mas no exato momento em que tive certeza disso, seus pais procuraram o meu avô, e ele me forçou ao casamento por aliança.
Alice cerrou os punhos lentamente.
Uma vergonha indescritível surgiu em seu rosto alvo.
— E quando eu te pedi em casamento e você saiu de repente...
— Eu tive uma emergência. Além disso, para mim, com ou sem pedido, a herdeira dos Guimarães estava decidida a casar comigo. Minha recusa não mudaria o resultado final.
Um rastro de hesitação passou pelos olhos de Bernardo: — Alice, eu realmente gostei de você e estava pronto para te aceitar como esposa, mas aconteceram coisas demais.
— O Rafael disse que você tem tido sonhos estranhos? — Alice deixou de lado os sentimentos do passado e focou na nova curiosidade.
Bernardo assentiu.
— Eu também tive muitos sonhos estranhos.
— Por isso te pergunto: você acredita que eu ajudei a Isadora a te matar? — Bernardo fixou o olhar em Alice, sem perder nenhum detalhe de sua expressão.
A expressão dela era neutra, tão neutra que ele não conseguia decifrá-la.
A mão de Alice pousou sobre o ventre.
— É verdade que eu sou estéril de nascença. — Na vida passada, ela e Bernardo estiveram juntos inúmeras vezes, mesmo quando ele estava bêbado ou esquecia a proteção... mas ela nunca engravidara.
Mas desta vez, ela renascera.
E estava grávida.
Talvez o destino quisesse que ela recomeçasse, dando uma chance a si mesma e a ele.
Alice olhou seriamente para Bernardo: — Eu terei este filho, pois ele pode ser o único que terei na vida. Vou ignorar o recado que o Eduardo me deu. Quando seus problemas aqui terminarem, espero que possamos conversar seriamente.
Bernardo, que passara a vida sendo o mestre do autocontrole, sentiu o coração disparar violentamente.
Ela estava dizendo que daria uma chance a ele?
Uma chance de reatarem o casamento?
Ele quis perguntar para ter certeza, mas não teve coragem.
Irônico: o poderoso Bernardo Fontes sem coragem.
Alice caminhou até ele e ergueu a mão lentamente.
Bernardo achou que ela tocaria seu rosto.
Ele prendeu a respiração, tentando manter a pose de gélida indiferença.
A mão de Alice baixou subitamente; ela pegou sua bolsa e saiu com elegância.
Bernardo ficou estático no lugar.
Então... ele acabara de ser "trolado" por essa mulher?
Ela veio até aqui, esperou tanto tempo para vê-lo, apenas para fazer perguntas que pareciam irrelevantes?
Pelo menos para ele, eram irrelevantes agora.
Não mudavam em nada a situação atual deles.
Alice caminhava com passos leves. Ao sair da delegacia, ligou para Vitória.
Tinha uma novidade feliz para compartilhar.
— Alô?
— Vi, eu decidi.
A voz de Vitória soou animada: — Decidiu o quê?
— Decidi dar uma chance para o Bernardo e eu nos conhecermos de verdade. — Talvez na vida passada, ela realmente tivesse entendido mal o Bernardo.
— Eu sabia! Você sempre seguiu seu coração. Seus pais escolheram bem o seu nome (Alice/Sui Xin - Seguir o Coração). O Chefão é um esquisito que não sabe se expressar; posa de nobre gélido, mas não entende nada de romance.
Alice ergueu a sobrancelha: — Agora você virou especialista nele?