Capítulo 103: Estamos quites
Embora Vitória tentasse tranquilizar Alice Guimarães, lembrando que Bernardo Fontes já assumira o controle de tudo aos dezesseis anos e que ele aguentaria o tranco mesmo que o Grupo Fontes estivesse em apuros, Alice não conseguia evitar a preocupação.
A saída apressada de Bernardo na noite anterior não fora por causa de uma briga com ela, mas por um problema grave no Grupo Fontes.
Quão sério precisaria ser para que ele tivesse que voltar às pressas durante a madrugada?
Ela fez várias ligações para o Grupo Guimarães, mas ninguém sabia explicar com clareza o que ocorrera no Grupo Fontes; sabia-se apenas que um representante de uma poderosa empresa de investimentos chegara a São Paulo.
Além disso, esse representante já havia contatado secretamente várias pessoas influentes e com posses, pretendendo formar um pequeno círculo financeiro para investimentos.
Alice já se perguntara antes: se na vida passada ela morrera de forma tão trágica e Bernardo não estava isento de culpa, ela deveria continuar odiando-o.
Contudo, as palavras de Rafael, os sonhos que Bernardo tivera e até mesmo as atitudes dele para com ela nesta vida criaram uma hesitação em seu coração.
Ela salvara a si mesma e à sua família, mas não conseguira salvar aquele coração que fora estilhaçado.
Sua preocupação atual com Bernardo não tinha a ver com amor; era apenas o cuidado natural pelo pai de seu filho.
E apenas isso.
— Senhorita, que bom que voltou! Por favor, entre. O patrão e a patroa estão falando com o Leo por vídeo agora mesmo, comentando justamente sobre o retorno dele ao país.
Alice entrou a passos lentos e ouviu Helena dizer que sentia muita falta de Leo. Antônio não disse muito, mas suas palavras deixavam claro o desejo de que o filho voltasse.
— Minha filha querida voltou! — Antônio viu Alice e chamou-a prontamente: — Venha falar com o seu irmão.
Alice sentou-se entre os dois e disse a Leo: — Quando reservar as passagens, me avise. Eu mesma irei buscar você e a pequena Paola no aeroporto.
— Mana, você realmente deixa a gente voltar?
— Deixa de ser bobo, aqui é a sua casa. Pode voltar quando quiser. Sua irmã é tão autoritária e irracional assim por acaso? — Alice divertiu-se com Leo, perguntou mais algumas coisas sobre o tempo dele no exterior e subiu para descansar.
Não havia lugar como o nosso lar.
Desde que renascera, seus nervos estiveram sempre tensos, vigiando Lin Hua e Isadora Matos a cada segundo. Agora que a poeira baixara, ela finalmente podia tentar viver como uma pessoa normal.
Olhando para o estilo e os objetos familiares de seu quarto, Alice sentiu pela primeira vez que realmente ganhara uma segunda chance de viver.
Vitória ligou subitamente para ela.
— Alice, o Bernardo foi levado para prestar depoimento.
Devido a certas restrições, Vitória falou de forma muito sutil, mas os nervos de Alice ficaram tensos novamente.
Após um silêncio, ela fingiu indiferença: — Não precisa me contar as coisas dele.
— Mas ele tem sido tão bom para você, e eu já não te disse? Ele resolveu muitos problemas para você nas sombras, e até...
— Era o mínimo que ele deveria fazer! — Se ele a prejudicara na vida passada e agora resolvera compensá-la, não era obrigação dele?
— Mas Alice, você realmente não gosta mais dele? Desta vez em Hong Kong, vi que o seu olhar para ele estava nitidamente diferente.
Alice explicou imediatamente: — Isso é por causa da gravidez.
— OK, minha cara Senhorita, o pai do seu filho corre o risco de ser detido a qualquer momento. Tem certeza de que não vai mexer os seus pauzinhos para ajudá-lo?
Vitória sempre conseguia apontar cirurgicamente para a questão que Alice mais queria evitar enfrentar.
Sendo honesta, se não fosse pelo que houve na vida passada, ela estaria disposta a usar seus contatos para ajudar Bernardo.
Mas a morte na vida anterior era como um espinho cravado no peito; mesmo que ela o tivesse arrancado com as próprias mãos, a ferida ainda sangrava e jamais voltaria ao estado original.
Com que autoridade ela enfrentaria Bernardo para ajudá-lo a superar essa crise?
— Alice, algumas coisas não podem ser vistas apenas com os olhos, nem ouvidas apenas com os ouvidos. Devem ser sentidas com o coração.
Essas palavras de Vitória fizeram Alice recordar tudo o que Bernardo fizera.
A mudança dele sempre lhe parecera estranha, mas, ao mesmo tempo, de uma surpresa indescritível.
Alice encerrou a chamada e ligou imediatamente para Rafael. Como melhor amigo de Bernardo, Rafael certamente sabia dos detalhes da crise.
— Não se preocupe com o Bernardo. Sua situação agora é delicada, cuide de si mesma. Eu estou aqui para o que ele precisar.
— Eu não estou preocupada com ele, só queria entender a situação — Alice manteve a pose de durona.
Rafael foi um pouco ríspido: — Ele é o pai do seu filho e você não se preocupa? Alice, cadê o seu coração? Ele fez de tudo por você, até ofendeu gente poderosa, e agora que está sendo alvo de uma armação conjunta, você vem com essa...
Rafael tinha um gênio forte e não entendia essa teimosia feminina.
Por isso, começou a chamá-la de insensível.
— Esquece, não vou te xingar por causa da sua gravidez, senão o Bernardo descobre e me tritura depois — murmurou Rafael para si mesmo, prestes a desligar.
Alice disse ansiosa: — Rafael, o Bernardo nunca faria nada ilegal, por que ele seria...
— Como você sabe que ele não faria? E se ele fez? — rebateu Rafael. O tom sério dele deu a Alice uma sensação de desespero iminente.
O conhecimento que ela tinha de Bernardo realmente não era tão profundo quanto o de Rafael.
Ela apenas acreditava instintivamente na integridade dele.
Rafael riu: — Se você admitir que se importa com ele, eu não me importo de te contar os detalhes.
Tu-tu-tu...
A resposta para Rafael foi o desligamento imediato de Alice.
— Cacete! O Bernardo realmente não tem sorte, se apaixonar por uma mulher tão sem coração.
A porta da sala de interrogatório abriu-se não se sabe quando. As palavras de Rafael chegaram aos ouvidos do homem, e aquele rosto frio e indiferente cobriu-se de uma leve irritação.
— Quem te deu permissão para contar a ela? — Assim que ele falou, sua aura dominou o ambiente, deixando Rafael atônito.
Rafael explicou trêmulo: — Foi ela quem me ligou, eu só mencionei por alto, não dei detalhes! Juro!
Bernardo lançou-lhe um olhar gélido. Rafael empertigou-se e disse seriamente: — Bernardo, eu juro pela minha honra que não procurei a Alice. Foi ela quem tomou a iniciativa de se preocupar com você.
— Não acabou de dizer que eu não tenho sorte? — Bernardo elevou levemente a voz.
Rafael continuou tremendo: — Foi brincadeira.
— Que tal eu brincar também e mandar internar todas as suas namoradinhas aqui?
— ... Era brincadeira mesmo! —
Não atendo mais as ligações da Alice, buáaa.
Bernardo escondeu sua fúria e decepção no fundo do peito, como se ocultasse também seu sentimento mais sincero por Alice.
Ele pretendia começar de novo, mas não esperava sofrer esse revés na vida e acabar em um interrogatório.
Para não prejudicá-la, ele realmente não podia mais continuar insistindo.
Ainda bem que já estavam divorciados.
— Diga à Alice que agora estamos quites. Sobre aquela criança... se ela quiser manter, assumirei metade da responsabilidade da criação.
Rafael seguiu Bernardo como um cachorrinho. Ao ouvir as instruções dadas ao Eduardo, ficou perplexo.
Caramba...
O Bernardo quer cortar os laços de vez agora?
Alice recebeu a mensagem de Eduardo e não conseguiu pregar o olho a noite inteira.
Ela conhecia Bernardo; se não estivesse enfrentando um teste severo, ele não mandaria o assistente dizer algo assim. Orgulhoso como era, se quisesse encerrar as contas, diria pessoalmente.
Pelo visto, ele estava realmente em um grande dilema.