Capítulo 101: Remariar? Um sonho acordado é possível
— Vou organizar os assuntos domésticos e passar um tempo no exterior — disse Alice Guimarães.
— E então você volta para o país com uma criança nos braços e diz a todos que a encontrou na rua? — Policarpo ironizou, seguindo o raciocínio dela.
Bernardo Fontes ponderou em tom grave: — Um filho de Bernardo Fontes jamais será um órfão de origem desconhecida.
— Bernardo, nós já estamos divorciados.
— Podemos remariar — declarou Bernardo.
O Mestre Policarpo reforçou: — Remariem.
— Eu não quero remariar. Não temos mais sentimentos, por que nos forçarmos a ficar juntos por causa de uma criança? Eu já disse, posso criar este filho sozinha. Não faço questão que homem nenhum se sinta responsável por mim nesta vida.
Bernardo apertou o volante com força.
As veias saltaram no dorso de sua mão.
Ele suportara tanto tempo, dedicando-se com toda a ternura e cuidado possíveis, e ela ainda achava que ele queria apenas "acorrentá-la"?
Policarpo também percebeu a oscilação emocional de Bernardo e disse, descontente: — Menina, pare de falar bobagens. Se você realmente fizer isso, os primeiros a discordar serão seus pais. Que tal assim: o bebê ainda é pequeno, convivam por mais um tempo. Quem sabe vocês não se tornam compatíveis novamente?
— Mestre! O senhor mesmo disse que, se eu casasse com ele, o senhor cortaria relações comigo!
— Naquela época você estava agindo como uma boba, eu tinha que te dar um choque de realidade.
Alice rangeu os dentes: — O que ele te deu de tão bom para o senhor estar defendendo ele agora?!
Ela não acreditava que o mestre estivesse subitamente do lado de Bernardo apenas por querer que ela remariasse.
Policarpo tossiu secamente: — Nada demais, ele apenas me presenteou com uma pintura.
— Então... por causa de uma pintura, o senhor resolveu me vender?
— Não fale dessa forma tão feia. O rapaz não te ama? O mestre está apenas te aconselhando a dar uma chance. Qual homem não comete erros? O erro dele nem foi tão grande; você já o puniu, agora não precisa ser tão implacável.
Na verdade, Policarpo não estava vendendo Alice.
Ele desejava que ela vivesse conforme o seu coração.
Ele percebia que sua pequena pupila ainda gostava bastante de Bernardo, mas guardava um rancor profundo e não conseguia desapegar de certas mágoas.
Lin Hua já havia contado a ele sobre os planos contra os Guimarães, que eram de fato cruéis.
Se Bernardo não a tivesse ajudado secretamente, como ela teria revertido uma situação tão crítica sozinha?
A garota encontrara alguém que realmente podia protegê-la, mas ainda não se dera conta.
Alice ficou emburrada com Policarpo e não disse mais uma palavra durante o trajeto.
Ao chegarem ao aeroporto, Song Yuan segurou a mão de Alice e recomendou com doçura: — Cuide bem do seu corpo e não seja tão teimosa.
Nos anos em que viveu no Leste, Song Yuan fora como uma segunda mãe para Alice.
Ela não tinha como ignorar o pedido: — Eu entendo. Tia Song Yuan, a senhora também cuide da saúde. Quando puder, vá me visitar em São Paulo. Meus pais ficarão muito felizes.
— Sim, eu irei. Minha nora é de São Paulo, agora com certeza irei para lá com frequência.
— Com certeza!
Após a despedida, Henrique e Vitória ficaram parados perto da porta de vidro, conversando sobre algo.
Bernardo aproximou-se e segurou o pulso de Alice.
Alice não conseguia competir com a força dele e, com as bochechas infladas de raiva, questionou: — Quando foi que você subornou meu mestre?
— Não houve suborno.
— Não acredito.
Alice avisou seriamente: — Bernardo, não importa o que você pretenda, eu jamais me casarei com você de novo. Se continuar me pressionando, eu não terei coragem de manter esta criança. Não permitirei que um filho se torne uma ferramenta de manipulação contra mim ou contra as pessoas ao meu redor.
Ela não podia manter uma "bomba" que fugisse ao seu controle.
Alice amava este bebê, mas amava ainda mais sua família viva.
Ela não deixaria as tragédias da vida passada se repetirem.
Se essa criança se tornasse o instrumento de controle de Bernardo, fazendo-a ser sua marionete novamente, negligenciando seus entes queridos em nome de um "amor" ou "casamento" de fachada, então qual seria o sentido de ter renascido?
Bernardo olhou para os olhos avermelhados dela: — Como você pode dizer algo tão cruel? Este também é o seu filho!
— Eu sou exatamente esse tipo de mulher egoísta. Se não fosse pela minha dificuldade natural de engravidar e pelo conselho da minha veterana, eu sequer consideraria mantê-lo.
Alice encarava o rosto pálido e bonito de Bernardo. A paciência e a calma que ele mantivera até então pareciam ter sido destruídas pela crueldade dela naquele momento.
Ele apertou o queixo de Alice com brusquidão, forçando-a a olhá-lo nos olhos: — Alice Guimarães, "insensível" é o adjetivo perfeito para mulheres como você!
— Sim, eu sou insensível! Quem tenta me controlar ou me manipular é meu inimigo!
O tom de Alice tornava-se cada vez mais afiado: — Lembre-se, Bernardo: um filho não será um vínculo entre nós. Nem pense que ouvirei mais uma única palavra de sedução vinda de você.
Bernardo perguntou profundamente: — Então, você se recusa terminantemente a remariar?
— Jamais!
— Ótimo! Ótimo! Ótimo!
Talvez pela fúria cega, ele repetiu a palavra três vezes, deu meia-volta e partiu.
O coração de Alice sentiu um aperto súbito, como se uma grande parte dele tivesse sido arrancada.
A sensação de vazio lembrava muito as madrugadas em que ela ficava sozinha na Mansão do Horizonte na vida passada.
Ela se xingou internamente por ser tão fraca.
Como podia esquecer tudo o que ele fizera só porque ele cuidara dela por alguns dias?
Vitória entrou correndo: — Vi o Chefão saindo furioso. Vocês brigaram?
Henrique também entrou: — É verdade que você está grávida? Vai reatar o casamento?
Vitória fuzilou Henrique com o olhar.
Dava para não tocar na ferida aberta?
Alice não tinha forças para lidar com as sondagens de Henrique. Sentindo ondas de frio pelo corpo, ela encolheu o pescoço e disse: — Quero voltar para descansar.
Vitória imediatamente a amparou: — Vamos.
Henrique ainda queria perguntar sobre o novo casamento, mas foi impedido pelo olhar de Vitória.
Pensando bem, mesmo que Alice não voltasse para Bernardo, ele agora era um homem casado e não teria mais chances.
Comparado a outros homens, ele... preferia perder para o Bernardo.
Pelo menos Bernardo era mais forte que ele; quando queria algo, conseguia a qualquer custo.
Diferente dele, que cometera um erro por impulso e agora vivia uma sucessão de escolhas erradas.
Ao chegarem ao hotel, a Dra. Luana já estava à espera.
Após um exame básico em Alice, Luana disse: — Ainda voltaremos para São Paulo amanhã às nove?
— Sim, por quê?
— É que vi o assistente do Senhor Bernardo arrumando as malas, parecia que iam partir agora. Achei que nós também adiantaríamos a viagem.
Ao ouvir isso, Alice sentiu um aperto inexplicável no peito por alguns segundos.
— Nós iremos amanhã. Se você tiver algo no hospital, pode...
— Eu estou aqui exclusivamente para atendê-la. Irei no mesmo horário que a senhorita.
Alice foi tomar banho e deitou-se, mas não conseguia dormir.
Ela dissera a verdade, mas por que sentia uma pontada de culpa ao saber que Bernardo ficara furioso e voltaria para São Paulo durante a noite?
Ela não fizera nada de errado.
Por que a culpa?
Após várias tentativas de se convencer psicologicamente, Alice finalmente sentiu sono.
Contudo, o descanso foi interrompido por uma ligação internacional.
— Voltar para o país? — O celular de Alice quase caiu no colo. — Leo, fale direito. A Paola também vai voltar?