Capítulo 97: Rebelde por natureza
Ao sair do hospital, o semblante de Alice Guimarães não estava nada bom.
Red (Hongling) permaneceu no hospital para realizar exames e tratamentos adicionais em Lin Hua, enquanto Alice partia primeiro.
Red, a princípio, não queria prolongar a vida de Lin Hua, mas o Mestre Policarpo (Baolu) ligou pessoalmente para monitorá-la. Quando o velho dava uma ordem fatal, Red, por mais contrariada que estivesse, tinha que ceder.
E assim, ela começou seu trabalho com dedicação.
Alice fora ao hospital atrás de Lin Hua justamente por causa daquele objeto, mas agora que o tinha em mãos, não se sentia tão feliz.
Cruel como era, Lin Hua podia odiar a própria filha e manipular o marido sem escrúpulos; Alice realmente não entendia por que, à beira da morte, ela escolhera trocar seu segredo mais importante pela paz futura de Isadora Matos.
— Senhorita Guimarães.
Lina (Dai Lin) viu Alice sair e apressou-se ao seu encontro.
— Podemos conversar?
Alice disse calmamente: — Estava me esperando aqui de propósito?
— Sim, há coisas que eu gostaria de tratar com você, mas não encontrei uma boa oportunidade. Eu sabia que, assim que viesse a Hong Kong, viria ver minha mãe.
Lina era uma mulher muito inteligente e suas feições lembravam muito as de Lin Hua, porém ela tinha muito mais autoconhecimento que a mãe.
Sentadas em um coreto sob uma grande árvore atrás do hospital, Alice observava Lina em silêncio.
Lina mantinha um sorriso elegante o tempo todo, sem qualquer hostilidade, como se fosse apenas uma velha amiga de Alice em uma conversa íntima.
— Minha mãe está morrendo. Talvez os pecados dela possam se dissipar com a partida dela.
— Eu achei que você quisesse falar sobre o Real (Huangfu Chuan).
Estando entre pessoas que jogam xadrez mental com centenas de intenções, não havia necessidade de tanta sutileza.
Lina hesitou por um segundo. — Sim. Eu quero falar dele.
— Os boatos de que a família Dai quer se aliar à família Real estão por toda parte, eu ouvi bastante. — Alice mexia no pingente de seu celular com uma expressão indiferente, parecendo uma fada que não se mistura com os assuntos mundanos.
Aquele pingente fora Bernardo Fontes quem a obrigara a usar.
Era uma versão em cristal do cachorro Arroz Doce (Fanfan).
O cão já morrera, e ela não entendia por que Bernardo lhe dera tal presente.
Mas como aquele homem agia sem lógica aparente, ela não se dava ao trabalho de remoer o assunto.
Apenas esperaria uma chance para jogá-lo fora.
A distração de Alice incomodou Lina levemente.
Contudo, ela era mestre em esconder suas reais emoções.
Ela disse gentilmente: — O Real me disse que quer casar com você. Gostaria de saber se você está disposta a aceitá-lo.
— Você tem a família Dai por trás, e o status da sua família em Hong Kong é insubstituível para os Guimarães. Além disso, os anciãos da família Real preferem você, a herdeira dos Dai. Até agora, eu não tenho vantagem nenhuma, não é?
Lina franziu as sobrancelhas delicadas.
Alice não respondera diretamente à pergunta.
— O Real gosta de você.
— Ele já gostou de muitas garotas antes — retrucou Alice em tom enigmático.
Lina sabia disso, obviamente.
Mas as mulheres do passado de Real não significavam nada; fossem diversão ou paixões passageiras, nenhuma abalara o status da aliança matrimonial.
Mas Alice Guimarães era diferente.
Ela tinha aparência e talento de primeira linha, um histórico familiar que não podia ser subestimado e uma ligação com Real que superava a de qualquer outra mulher.
Alice era sua maior ameaça.
Especialmente porque Real era rebelde por natureza e declarara diante dela que só casaria com Alice.
Esse era o maior desafio.
— A Lin Hua está morrendo, você não se preocupa com ela?
— Eu soube que ela morreria quando eu ainda era criança. No dia em que ela decidiu me entregar a terroristas como refém, o último vestígio de amor filial que eu sentia por ela acabou.
Com poucas palavras, Lina estilhaçou a relação mãe e filha.
Ela continuou: — O que busco agora é apenas a família Dai e o casamento.
— Contanto que você convença os anciãos da família Real, seu casamento não terá problemas.
— Mas ele gosta de você — Lina repetiu o ponto inicial.
Alice rebateu: — Você quer casar com o Real por uma aliança garantida ou por amor verdadeiro?
Diante do silêncio de Lina, Alice ironizou: — Se quer uma aliança, não busque o amor. Não se pode ter tudo ao mesmo tempo.
...era a lógica dos fatos.
Mas ela sentia uma pontada de insatisfação.
— Ouvi dizer que o Senhor Bernardo está te perseguindo e quer reatar o casamento.
Lina mudou de tática para sondar a rival.
Pena que subestimou Alice.
— Quando a Lin Hua se for, não terei mais pendências com os Dai. Mas se alguém insistir em pular na minha frente para me irritar, o resultado será outro.
Alice levantou-se lentamente, fixando o olhar em Lina de forma significativa.
— Pessoas inteligentes geralmente sabem fazer a escolha certa.
Assim que ela saiu, Lina não conseguiu esconder o olhar de rancor e cálculo.
Que osso duro de roer.
Alice saiu pelos portões do hospital e deparou-se justamente com o protagonista dos boatos.
Real abriu a porta do carro com toda a presteza de um lacaio subordinado.
Pensando em seu status de herdeiro do Império Real e príncipe de Hong Kong, vê-lo se rebaixar por uma mulher...
Alice achou a cena surreal.
— Alice, você ainda não jantou, certo? Vou te levar ao restaurante mais icônico de Hong Kong.
Alice ia recusar, mas notou Lina saindo logo atrás.
A hostilidade daquela mulher, por mais que tentasse esconder, não escapava aos seus olhos.
Se ela fizesse questão de atacá-la, Alice não se importaria em declarar guerra abertamente.
Jantar com Real era uma excelente forma de testar a situação.
— Tudo bem.
Alice subiu no carro.
Real estava radiante, sem saber que acabara de ser usado como peão de tabuleiro por duas mulheres.
— Alice, você veio a Hong Kong por causa da Lin Hua?
— Ela está morrendo.
— Então você quer ver ela morrer com os próprios olhos? — perguntou ele curioso.
— Eu não sou tão perversa assim.
— Hahaha.
Real notou que um Land Rover preto os seguia. Ele mudou de tom: — Alice, segure-se firme.
Alice estranhou e, no segundo seguinte, o carro acelerou bruscamente, quase a jogando para frente.
Seu instinto foi proteger o ventre.
Real fora criado em pistas de corrida; despistar o Land Rover era apenas questão de tempo, mas ele notou algo errado com Alice.
— Alice, o que houve?
Alice agarrou-se à alça de segurança.
— Vá devagar!
— Tem alguém nos seguindo.
— Deixe que sigam — resmungou ela.
Real, incerto sobre o que acontecia, viu o rosto pálido dela e o tom irritado, então reduziu a velocidade.
O estranho foi que o Land Rover, após a tentativa de Real de despistá-lo, mudou de faixa e seguiu por outra rota.
Será que ele se enganara? O carro não os estava seguindo afinal?
Real compartilhou a dúvida com Alice, que pensou consigo mesma: "Pelo menos ele teve bom senso".
O jantar foi em um restaurante suspenso em Hong Kong. Real era cliente assíduo e o chef veio cumprimentá-los assim que chegaram.
Alice não ligava para a comida; seu objetivo era apenas provocar Lina.
No meio da refeição, Lina apareceu acompanhada de alguns amigos.
Alice superestimara o desapego dela; Lina não aguentara nem uma noite.