Capítulo 84: Ódio de vidas passadas; ele agora sabe
— Senhor Bernardo? — Beatriz exclamou ao reconhecer o recém-chegado.
Bernardo Fontes vestia uma camisa preta; seu rosto estava coberto por uma camada de gelo e seus olhos negros brilhavam com uma frieza cortante.
Fora ele quem acabara de dar a lição em Samuel.
Samuel, segurando a mão ferida, olhou aterrorizado: — Senhor... Senhor Bernardo? Eu errei, nunca mais faço isso, por favor, me perdoe!
Alice ergueu a sobrancelha.
Como aquele playboy de quinta tinha tanto medo de Bernardo?
Acaso o traste o punira secretamente antes?
— Suma. — Bernardo não desperdiçou palavras; sua aura assassina foi suficiente para fazer Samuel fugir em pânico.
Beatriz olhou preocupada para Alice; Alice sinalizou para que ela saísse primeiro.
— O Senhor Fontes está me seguindo? — Alice questionou o homem.
Bernardo disse irritado: — Um vagabundo inútil como o Samuel te assediando e você nem tenta se esquivar?
— E por que eu deveria me esquivar?
— Alice Guimarães!
— Ohhh~~ está com medo que o Samuel faça algo comigo e a sua "piranhazinha" fique triste? Ela não é mestre em fingir? Certamente sabe como manipular um galinha como o Samuel.
— Isso não tem nada a ver com a Isadora — Bernardo disse em tom grave. — Eu estava preocupado com VOCÊ!
Seria necessário ele ser tão direto assim?
— Ha ha ha! Preocupado comigo? Em que qualidade, de ex-marido? O Senhor Fontes esqueceu que o nosso anúncio de divórcio foi publicado faz tempo? Divórcio amigável; toda a cidade sabe que somos estranhos. Pare de falar bobagens.
Alice massageava as têmporas com irritação; lidar com essas pessoas consumia todo o seu estoque de paciência.
Bernardo viu que ela cambaleou ao tentar sair e a seguiu.
Ao notar que ele continuava atrás dela na saída da boate, Alice fechou a cara: — Bernardo, você está doente?
— Mesmo divorciados, isso não me impede de me importar com você, ex-esposa.
— Você...
— Eu te expliquei que não tenho nada com a Isadora. Já te contei toda a história com o Caio. Alice, por que você continua remoendo isso? Se você me odeia, me diga o motivo real de uma vez.
— Te odiar? Eu não te amo mais; como poderia haver ódio?
O olhar de Alice era de uma clareza gélida.
Bernardo não suportava ser visto por ela daquela maneira.
Antigamente, os olhos dela transbordavam amor por ele. Mesmo quando ele não correspondia, ele sabia que Alice seria a mulher ao seu lado até a velhice.
Por que, agora que o coração dele despertara, ela se afastava e demonstrava repulsa?
— Alice, o que foi que eu fiz afinal para você me tratar assim? — O tom do homem estava perdendo o controle.
Alice achou graça ao ver Bernardo tão desesperado e "inocente". Ela riu: — Bernardo Fontes, você está tentando se fazer de coitado na minha frente?
Bernardo ficou sem palavras.
— Sabe por que eu te detesto? Porque você é presunçoso em tempo integral. Você acha que ser bom para a Isadora é pagar a dívida com o irmão dela; acha que me dando dignidade e status eu deveria ser eternamente grata. Não. Isso é o que VOCÊ pensa. Nada do que você me deu me interessa mais!
Enquanto você protegia as maldades e caprichos da Isadora sem limites, eu e minha família éramos destruídos por ela até o ponto de preferir a morte.
— Bernardo, ser cego não é sua culpa, mas vir aqui me causar náuseas o tempo todo, aí o erro é seu.
Alice proferiu as palavras definitivas e, ao virar as costas, sentiu o coração dar uma pontada.
— ALICE GUI-MÃ-RÃ-ES! — Bernardo gritou o nome dela.
Subitamente, ele estendeu o braço e a puxou para um abraço apertado.
— O que eu preciso fazer para você perdoar os meus erros passados?
Alice lembrou-se vagamente do sonho.
No sonho, ela via Bernardo em uma banheira cheia de sangue...
Ela não entendia por que tinha aquele sonho; as imagens pareciam tão reais quanto a tragédia de sua vida passada.
Ela balançou a cabeça.
O Bernardo da vida passada jamais teria gostado dela.
Mesmo nesta vida, foi só porque ela parou de amá-lo e insistiu no divórcio que ele percebeu o valor dela.
O arrependimento dele agora era apenas instinto de posse masculino.
Homens são assim: não valorizam o que têm, mas querem de volta o que perderam.
Ela não cairia no golpe desse canalha!
— Me solta! — Alice desvencilhou-se dele e avisou: — Bernardo, hoje você não pode se dar ao luxo de ofender os Guimarães.
Se ele não quisesse ficar cercado de inimigos, melhor não se opor a ela.
Bernardo observou-a subir em um esportivo vermelho vibrante. Seu coração parecia ter sido esmagado pelas mãos dela e depois solto, em carne viva.
— Bernardo, como você pode ser tão submisso? — atrás dele, veio o comentário de Rafael.
Bernardo fechou os olhos e, após um longo silêncio, sussurrou: — Não deveria ser assim.
— Não deveria ser como?
— Eu tive um sonho. Um sonho muito real e cruel. A Alice naquele sonho... não deveria ser assim.
Rafael coçou o nariz. Bernardo realmente tivera um deslize emocional e agora estava ficando místico.
Realmente, homens poderosos não servem para namorar; quando se apaixonam, o QI cai para negativo.
— No sonho vocês se amavam?
— Não sei.
— Er... aí você quebra a firma, Bernardo. Se você sonhou que ela era diferente, e hoje ela não te ama, então no sonho ela devia amar, né? O quanto a Alice te amava antes, todo mundo em São Paulo sabia. Esqueceu?
O olhar de Bernardo tornou-se sombrio.
Nesse meio mês, ele tivera sonhos estranhos recorrentes. Fragmentos que, ao serem unidos, mostravam a falência dos Guimarães e o fim trágico dela saltando de um prédio.
A mudança repentina dela, a insistência no divórcio e o fato de ela não dedicar mais nem um pensamento a ele... seria porque ela tivera o mesmo sonho?
Exceto por essa explicação, Bernardo não via outra possibilidade.
A mudança dela era abismal, e o ódio dela por ele era de uma determinação inexplicável.
— Bernardo, no que está pensando?
— Rafael, você acredita em vidas passadas? — Bernardo olhou seriamente para o amigo, com uma expressão tão solene que Rafael achou que ele mesmo estava sonhando.
Bernardo perguntando algo tão infantil e esotérico?
Teria enlouquecido de vez por causa da Alice?
— Esqueça. Você não entenderia.
Bernardo decidiu voltar para a Mansão do Horizonte e dormir; talvez no sonho encontrasse as respostas que buscava.
Rafael ficou estático, em choque.
O que estava acontecendo?
O Bernardo não ia virar monge e se isolar do mundo, ia?
Ultimamente ele nem saía com os amigos, dizendo que precisava de "paz espiritual".
Putz grila!
Não vá virar santo agora.
Alice estava no banco do passageiro, com o semblante fechado.
Real (Huangfu Chuan) estava confuso: — Eu disse que vinha te buscar e você aceitou, mas por que essa cara de arrependimento logo que entrou no carro?
Alice inclinou a cabeça, observando a paisagem passar rápido pela janela: — Juan, o Grupo Fontes está realmente passando por uma reestruturação drástica?
— No fim das contas, você ainda se preocupa com o Bernardo Fontes.