Capítulo 80: Bernardo Fontes, matar a ex-mulher é crime
Alice foi colocada bruscamente no carro por ele, que subiu logo em seguida. Uma pressão esmagadora tomou conta do veículo. Alice prendeu a respiração: — Onde você está me levando?
Ele ordenou pesadamente que o motorista seguisse e sentou-se ao lado dela, encarando-a com um olhar profundo.
Não se sabe por que, mas o olhar dele era tão triste que Alice perdeu a vontade de xingá-lo.
Ela resmungou um "que estranho", virou o rosto para o lado e garantiu que não olharia mais para ele.
— O que você acha do seu irmão com a minha irmã?
O tom do homem tinha uma mágoa que Alice não conseguia decifrar.
— Acho normal.
— Alice, colabore.
Alice virou-se: — Eu já não estou colaborando o suficiente?
O carro deu um solavanco repentino. Como ela estava perto dele, o movimento a fez encostar os lábios no canto da boca de Bernardo.
Cacete!
What the fuck!
Esse motorista maldito fez de propósito?!
Alice afastou-se rapidamente, mas o calor do homem ainda permanecia em seus lábios.
Ela o encarou com fúria: — O que você quer afinal?
Bernardo ergueu a mão, roçando com os dedos longos o lugar onde ela acabara de beijar; o gesto foi tão íntimo que ela quis morrer.
Alice rangeu os dentes: — Se quer cobrar justiça pela "piranha", me processe logo. Não precisa desses joguinhos; eu não aceito ameaças, subornos ou conciliações.
O olhar de Bernardo escureceu. Essa mulher sabia mesmo como estragar o clima.
— Não tem nada a ver com a Isadora.
— Oh-ho, então não temos mais nada para conversar.
Alice tentou empurrá-lo, mas ele era como uma rocha. Ela apelou para a fala: — Pare o carro, eu quero descer.
O motorista dos Fontes era teimoso; sem a ordem de Bernardo, manteve a velocidade constante.
Alice tentou outra tática.
— Pelo menos diga para onde estamos indo. Caso você queira me matar, eu posso tentar ligar para a polícia.
Várias linhas de irritação passaram pela testa do homem. O clima, curiosamente, relaxou um pouco.
— Eu não vou te matar. Você tem a língua afiada demais e ainda me será útil.
— ... — Esse canalha não tinha o menor respeito.
— Sobre a Paola... eu queria te agradecer.
— Eu ajudei a pequena por mim, não por você. Se fosse por sua causa, eu provavelmente teria dado mais duas facadas. Então não agradeça; agradecer é me ofender.
Bernardo cerrou os punhos: — Quer tanto assim se desligar de mim?
— O Senhor Bernardo me vê com cara de quem tem um parafuso a menos? Eu tive um surto antes e insisti em te perseguir, o que já foi uma tragédia. Jamais me rebaixaria de novo para ser sua serva. Por favor, tenha a bondade de me deixar em paz.
Ela começou a usar termos rebuscados, o que deixou Bernardo desconfiado.
Mas o golpe final veio em seguida:
— Eu não sou de reciclar lixo. Espero que o Senhor Bernardo tenha um pouco de sim-ancol.
— A-LI-CE GUI-MA-RÃ-ES!
Essa mulher o chamou de lixo?
Alice rebateu na hora: — Pegar de volta o que já foi descartado é ser idiota, é ser desavergonhada, é pedir para sofrer. Entendeu ou quer que eu desenhe?
Bernardo tinha preparado um monte de palavras de gratidão, mas foram todas desperdiçadas.
O carro parou no cemitério mais caro de São Paulo.
O dia chuvoso combinado com o clima fúnebre do lugar deu a Alice a sensação desagradável de que seria enterrada ali mesmo.
— Você quer mesmo me matar? — Alice rangeu os dentes. Não seria para tanto, seria?
O homem, sem dizer uma palavra, agarrou a mão dela e a puxou para dentro.
Alice tentava resistir: — Matar é crime!
— Bernardo Fontes, eu sou sua ex-mulher! Me matar é prova de falta de caráter!
Alice fechou os olhos. Que fosse.
Bernardo subitamente abaixou-se e a pegou no colo.
Seu semblante era calmo, mas as sobrancelhas franzidas carregavam um peso profundo.
Alice pensou que ele provavelmente não ia matá-la. No máximo queria assustá-la ou dar um aviso.
Decidida, ela deixou que ele a carregasse para as profundezas do cemitério.
E, para ser honesta, o lugar era bem sinistro.
Finalmente chegaram ao fundo do cemitério. Ele a colocou no chão diante de uma lápide à esquerda.
Alice aproximou-se em silêncio, analisando a foto, o nome e a biografia da pessoa.
Seu olhar tornou-se cada vez mais grave.
O homem na foto parecia muito jovem e suas feições eram idênticas às de Isadora Matos.
Caio (Jiang Chen).
Ela respirou fundo, com a voz trêmula: — O... irmão da Isadora?
— Ele e a Isadora eram gêmeos.
Alice prendeu a respiração e ouviu uma história aterradora.
Caio e Isadora perderam a mãe cedo e não sabiam quem era o pai; viviam um para o outro.
Caio entrou para o exército e, em uma missão, conheceu Bernardo.
Tornaram-se como irmãos.
Bernardo os ajudou a encontrar o pai biológico, mas Jorge Matos já tinha um filho e detestava a ideia de ter dois bastardos, pois a mãe deles usara métodos escusos para engravidar na época.
Jorge recusou-se a reconhecê-los.
Pouco depois, Bernardo foi perseguido por inimigos, e Caio deu a vida para salvá-lo. Antes de morrer, implorou que Bernardo cuidasse de sua única irmã.
Bernardo prometeu, e esse cuidado já durava sete anos.
Isadora quis voltar para os Matos como uma herdeira oficial; Bernardo conseguiu isso para ela.
Mas ela passou a ambicionar o título de Senhora Fontes, querendo ser a mulher mais invejada da elite; ele nunca aceitou.
Aproveitando-se da gratidão de Bernardo por Caio, Isadora exigia cada vez mais e cometia erro após erro, esperando que ele resolvesse tudo.
Bernardo, embora sentisse repulsa, mantinha sua promessa.
Até que ele se casou com Alice, e tudo começou a mudar.
— Eu não sei por que você me odeia tanto, mas preciso te dizer: eu vejo a Isadora apenas como uma irmã. Desta vez ela cometeu um erro grave; eu não posso mandá-la para a cadeia, mas tirarei dela qualquer chance de continuar fazendo o mal. Eu a manterei confinada até que ela se arrependa.
Ela enviara o irmão para o exterior para acompanhar Paola no momento mais difícil.
Como retribuição, ele estava sendo honesto com ela e a ajudaria a concluir as reformas nos Guimarães.
Alice não esperava que Bernardo contasse isso.
Ao ouvir sobre a origem e as dificuldades de Caio e Isadora, ela sentiu um abalo, mas as atrocidades de Isadora eram imperdoáveis.
Na vida passada, antes de ser empurrada do prédio, Isadora dissera pessoalmente:
— Alice, seu amor para o Bernardo vale menos que a poeira no chão. Sua vida é um desperdício de oxigênio; morta, será um desperdício de terra.
— Você é um azar na vida de todos, destruiu seus pais e seu irmão. Melhor acabar com tudo logo.
— Fique tranquila, eu cuidarei bem do Bernardo. Pode morrer em paz agora!
Alice não conseguia esquecer o desespero da queda, nem perdoar quem a levara à morte.
Bernardo tolerava Isadora apenas para pagar a dívida de vida com Caio.
Mas acaso ela merecia morrer? Leo merecia morrer? Os Guimarães mereciam falir e seus pais mereciam perder tudo e morrer na solidão?
Ao enxergar seu próprio coração, Alice abandonou certas obsessões.
Ela olhou para Bernardo com clareza: — Você nunca entenderá o que eu realmente quero. Bernardo, talvez você não tenha sido tão cruel comigo, mas sua tolerância com a Isadora me privou da liberdade a vida inteira.
— Eu...
— Eu entendo o seu dilema, mas não posso perdoar. Quanto à Isadora Matos, eu não vou deixá-la em paz. Cadeia? Isso seria barato demais para ela.
O rancor no olhar de Alice e a frieza em suas palavras fizeram Bernardo sentir um calafrio.
Ele realmente não entendia a intensidade daquele ódio para fazê-la falar assim.
— Eu, Alice Guimarães, jamais envolverei inocentes, mas quem deve pagar, não escapará de minhas mãos!