Capítulo 77: A fofura desaparece; um desejo de morte
— Os olhos dela sofreram danos gravíssimos. Mesmo que se recupere, ela não poderá mais enxergar.
Leo desesperou-se e agarrou o colarinho do médico: — Você não disse que um transplante de córnea seria possível no futuro?
— Precisamos esperar por uma doação compatível e também observar a recuperação do próprio organismo dela. Pela minha experiência clínica de anos, mesmo que haja um doador, a taxa de sucesso da cirurgia...
Bernardo Fontes respirou fundo: — Ela vai ficar bem. Eu encontrarei córneas compatíveis para ela!
Após dizer isso, ele virou-se e partiu imediatamente.
Alice segurou Leo, impedindo-o de ser rude com o médico. Após ouvir as recomendações pós-operatórias, ela o levou para um lado para consolá-lo.
Alice sabia que Bernardo certamente estava contatando instituições de doação de órgãos; ele usaria toda a influência da família Fontes para encontrar o que Paola precisava.
Quando Leo se acalmou, Alice foi até a escada de emergência, fechou a porta e encostou-se na parede sozinha, fechando os olhos.
Lágrimas começaram a transbordar.
Ela manteve a calma durante todo o tempo, mas agora, sozinha, ela queria chorar.
Às vezes, ser forte é difícil demais.
Paola tem apenas dezoito anos. Tão jovem e perdendo a visão... como ela aceitaria isso?
Sendo tão orgulhosa e pura, como enfrentaria a escuridão infinita?
Rangido.
Alguém abriu a porta e aproximou-se.
Alice virou-se de costas imediatamente, limpando as lágrimas do rosto de qualquer jeito.
— Obrigado por se preocupar tanto com a Paola.
A voz dele estava rouca, transbordando uma dor indescritível.
E também escondia a fera de ódio e vingança que rugia dentro dele.
— Você está bem?
— Eu nunca cuidei dela direito. Ela mal voltou ao país e eu permiti que passasse por esse sofrimento.
Bernardo pressionou as têmporas com força.
— Alice, você tem razão. Eu sou um homem inútil.
Alice sentiu um sobressalto inexplicável.
Seus lábios se moveram, ela quis consolá-lo, mas conteve-se.
Ela e Bernardo Fontes já não tinham mais uma relação de consolo mútuo.
— Vai ficar tudo bem.
Alice disse calmamente e saiu pela porta.
Nos dias seguintes, Alice visitava Paola no hospital diariamente.
O estranho era que, em todas as vezes, Bernardo não estava lá. Ao perguntar a Rafael sobre o paradeiro dele, Rafael apenas desconversava.
Ela temia que Bernardo, num impulso, cometesse algo ilegal.
Embora estivessem divorciados e devessem ser estranhos, ela gostava genuinamente de Paola; a menina era dependente dela e se dava bem com o seu irmão. Fazia sentido, por tabela, preocupar-se minimamente com o irmão dela.
Leo, vendo que Paola adormecera, puxou a roupa de Alice.
— Mana, eu decidi. Vou trancar a faculdade.
Alice arregalou os olhos: — Você está brincando comigo?
— Não estou brincando. Vou trancar o curso para acompanhar a Paola no tratamento no exterior. O Bernardo já encontrou os melhores médicos, e a busca por doadores está em andamento. Acredito que logo haverá uma solução.
Alice respirou fundo: — Você pensou nos nossos pais? No seu futuro?
— Mana, quando a Paola acordou e soube que não podia enxergar, ela tentou se matar! Ela disse que, desde pequena, vivia sozinha e o que mais temia era o escuro; ela só conseguia dormir com as luzes acesas.
— A Paola é digna de pena. Mal teve a chance de um futuro brilhante e isso acontece. Eu sinto muita compaixão por ela.
— Mana, você também não gosta da Paola? Ela não quer ver ninguém ultimamente e se recusa a comer; ela só me escuta um pouco.
— O Rafael disse que, se eu acompanhar a Paola na reabilitação, as chances de sucesso do transplante aumentam. Eu não quero que ela viva na escuridão para sempre. Eu quero ajudá-la!
Alice olhou para a pálida Paola.
Aqueles olhos grandes e fofos estavam cobertos por grossas bandagens.
No pulso dela, também havia uma gaze, cobrindo o ferimento da tentativa de suicídio de ontem.
Alice conhecia a gravidade da situação, mas os estudos de Leo...
— Mana, fique tranquila. Mesmo trancando o curso, não pararei de estudar. Garanto que cumprirei as metas que você me deu.
Alice baixou o tom de voz: — Se você quer acompanhar a Paola no exterior para o tratamento, eu não me oponho, posso até convencer o papai e a mamãe. Mas tenho uma pergunta que você deve responder com honestidade.
Leo assentiu firmemente.
— Você gosta da Paola?
Uma expressão de constrangimento surgiu no rosto bonito de Leo.
— Eu... não. — Ele hesitou por um momento antes de responder seriamente.
— Se não gosta dela, por que abandonaria tudo para ir ao exterior? Esse tratamento pode levar meses ou até anos.
— É apenas compaixão pura, mana. Não entenda errado.
Alice balançou a cabeça, impotente. Ia insistir no assunto, mas recebeu uma ligação da empresa e teve que partir.
Leo ofereceu-se para acompanhá-la até a saída, e ela aceitou.
Os dois irmãos não viram que Paola, na cama, tremia enquanto seu rosto pálido demonstrava um estado de dor e repressão.
Naquela noite, Paola desapareceu.
A enfermeira foi buscar comida e os guardas foram dispensados por ela sob a desculpa de acompanharem Leo até em casa; ela aproveitou para fugir.
Sem a visão, ela nem sabia para onde poderia ir.
Bernardo, que não aparecia há dias, surgiu no terraço do hospital.
Alice viu o estado exausto e abatido do homem e desviou o olhar inconscientemente.
É apenas um ex-marido.
Por que se preocupar?
— Se ela não está no terraço, talvez esteja escondida em algum depósito?
— Já revisamos as câmeras. Ela não saiu do hospital. — Bernardo assentiu. — Continuem procurando.
Os guardas prosseguiram com as buscas.
O celular de Alice vibrou com uma mensagem de Leo: 【Encontrei ela.】
Alice disse apressada: — O Leo a encontrou. Vamos para lá.
Paola não conseguira deixar o hospital; ela estava encolhida em um canto do almoxarifado de medicamentos.
Ela não queria ver ninguém, especialmente Leo.
Quando Alice e Bernardo chegaram, ouviram o choro dilacerante de Paola: — Eu não quero a piedade de vocês! Mesmo que eu morra, não serei um estorvo que não enxerga nada.
— Paola. — Bernardo entrou, mas Paola apontou na direção dele: — Não chegue perto!
— Paola, sou eu, seu irmão.
— Irmão, eu ouvi tudo. As pessoas que me feriram são da família Matos, não são? Eu também ouvi a Isadora te ligar implorando para você poupar a família dela, e você aceitou, não aceitou?
A voz de Paola era embargada e amarga: — Podemos ter o mesmo sangue, mas quem você realmente se importa nunca fui eu. Não sei por que você é tão bom para a Isadora Matos; por causa dela, você desafiou o vovô, se divorciou da Irmã Alice e ainda aceitou retirar a queixa para não mandar aquele canalha do Jorge Jr. para a cadeia.
O rosto de Bernardo empalideceu instantaneamente. — Paola, não é assim.
— É SIM! — Paola gritou. — No seu coração, a Isadora é a prioridade!
As bandagens nos olhos de Paola começaram a ficar manchadas de vermelho.
Alice lembrou-se das ordens médicas e tentou consolar: — Fofura, seus olhos podem ser curados. Se você fizer a reabilitação direitinho, faremos a cirurgia e você voltará a ver. Você precisa manter a calma, não pode se exaltar nem chorar, entendeu?
Leo também disse preocupado: — Paola, ainda há esperança. Não desista, por favor.
— Irmã Alice, eu gosto muito de você. Tão livre, tão talentosa e tão boa para mim... infelizmente meu irmão não merece a sua bondade.
Tateando, Paola segurou a mão de Leo: — Leo, você também é uma pessoa boa. Obrigada por cuidar de mim desde que voltei, por me salvar e me dar alegria. Obrigada.
Alice já morrera uma vez.
Ela conseguia sentir perfeitamente a intenção de morte naquelas palavras de Paola.
O que Paola tinha feito?