Capítulo 76: A Princesa do Ballet é ferida
— Saia!
Um aviso carregado de fúria foi lançado sem qualquer cortesia.
Alice e Victor olharam simultaneamente para o recém-chegado.
O olhar de Bernardo Fontes, afiado como uma faca, fixou-se na mão direita de Victor.
Naquele momento, a mão dele ainda segurava a cintura de Alice.
Aquela cintura esguia era dele.
Outro homem ousar tocar? Queria perder a mão?
Bernardo puxou Alice bruscamente para perto de si.
— Vestida de forma tão chamativa, quer atrair moscas?
O tom era péssimo, e as palavras, piores ainda.
Alice ficou indignada.
— Bernardo Fontes, cadê o seu cérebro?
Ela empurrou o traste com desprezo.
— Eu vim torcer pela pequena, não sabe o que é uma torcida organizada?
— Realmente, você está ficando velho e não acompanha mais as tendências dos jovens.
— Por fora não parece velho, mas é tão ranzinza que parece uma múmia de mil anos saindo do caixão.
Cada frase de Alice o chamava de velho.
Bernardo quase explodiu de raiva.
— Alice Guimarães, você sabe que veio torcer pela Paola, mas está aqui de gracinha com esse rostinho bonito. Se os paparazzi filmarem, sabe quais serão as consequências?
Alice sabia que a posição de Victor era delicada e que deviam manter distância em público.
Ela não queria escândalos nem atrapalhar a competição de Paola.
Ela já estava convencendo Victor a ir embora quando esse traste apareceu para causar confusão.
— Meus assuntos não dizem respeito a você, e eu arco com as consequências. Agora, por favor, saia daqui IMEDIATAMENTE!
Bernardo rangeu os dentes.
Essa mulher era toda educada com os outros, mas com ele agia como uma fera.
Ele devia algo a ela por acaso?
Ele estava extremamente irritado.
Alice notou que as pessoas começavam a olhar. Sua torcida já era chamativa por si só; se a envolvessem com o ator premiado, seria o fim.
Ela apressou Victor para ir embora.
Victor não queria, mas ao ouvir que ela aceitaria tomar um café com ele à noite, partiu na hora.
Se soubesse que a Deusa tinha medo da fama, ele teria mudado de estratégia antes.
Após despachar os intrometidos, Alice aplicou um spray analgésico no tornozelo, que estava avermelhado.
Bernardo, ao sair, notou o tornozelo dela pelo canto do olho, e seu olhar oscilou.
— A competição começou, vejam!
Alice olhou animada para a "Princesa do Ballet", que parecia um anjo no palco.
Era preciso admitir: Paola era uma bailarina nata. Cada movimento era uma obra de arte; ela era a protegida da musa inspiradora.
Todos os olhares estavam nela.
Alice ficou fascinada pela sensação de liberdade que ela emanava.
Liberdade era o que ela mais desejava nesta vida.
De repente, as luzes piscaram algumas vezes, e Alice sentiu um aperto no peito.
Tum-tum, tum-tum.
As luzes acima do palco explodiram simultaneamente.
— Paola! —
Alice quis pular no palco para proteger a menina, mas estava longe demais.
O ambiente mergulhou no caos e no pânico.
— Ah, meus olhos! Meus olhos doem muito!
— Irmã Alice, dói...
A voz de Paola perfurou os ouvidos de Alice.
A pequena fora ferida!
Entre as luzes que falhavam, a situação no palco era confusa. Funcionários tentavam manter a ordem e consertar a eletricidade.
Sob a luz das lanternas dos celulares, uma silhueta passou voando por Alice: era o Leo!
Leo subiu ao palco e pegou a Paola, que chorava de dor, nos braços: — Mana! Os olhos da Paola foram atingidos, precisamos ir para o hospital agora!
— Eu vou pegar o carro! — gritou Vitória.
Alice tentou manter a calma, segurando a mão de Paola: — Eu abro caminho para vocês.
O rosto e os olhos de Paola estavam cobertos de sangue.
Alice presumiu que, quando as luzes explodiram, os estilhaços de vidro caíram nos olhos dela enquanto ela olhava para cima na dança.
Bernardo, vindo do segundo andar, tentou pegar Paola, mas ela preferiu que o Leo a carregasse.
O olhar de Bernardo vacilou.
Alice também achou estranho: desde quando Paola dependia tanto do Leo?
Mas não era hora para fofocas; primeiro, o hospital.
Rafael também era médico; durante o trajeto, ele ligou para especialistas em oftalmologia, deixando tudo pronto para a cirurgia.
O grupo correu para a emergência.
Paola foi levada para o centro cirúrgico.
— O local foi isolado. Todos os equipamentos foram verificados e não poderiam falhar, a menos que alguém tenha sabotado as luzes do palco antes da competição.
Zeca relatava a situação para Bernardo, com Alice ao lado.
Alice estivera inquieta nos últimos dias achando que seria o alvo, mas quem sofreu foi a pequena Paola.
— Investiguem a fundo a família Matos — disse Alice em tom grave.
Bernardo olhou para ela e assentiu: — Façam o que ela disse.
— Isso não foi acidente — Alice enfatizou.
Uma aura assassina emanou de Bernardo. Sua voz era fria como gelo: — Eu não deixarei a Paola sofrer em vão.
A mãe de Bernardo morrera no parto de Paola, e ele praticamente criara a irmã. Mais tarde, com tantos inimigos em São Paulo, ele a enviara ao exterior por segurança.
Após assumir o poder total, ele pensara em trazê-la de volta, mas ela recusara por não gostar das disputas da elite.
Desta vez ela pedira para voltar e se transferir para a USP; Bernardo planejava dedicar mais tempo a ela, e agora acontecia isso.
Sua culpa e remorso eram visíveis.
Alice não o provocou.
No lugar dele, ela também não conseguiria manter a calma.
Alice virou-se e viu seu irmão burro sentado no chão, em frente à porta da cirurgia, com o rosto escondido nas mãos, totalmente abalado.
— Ela vai ficar bem, não se preocupe.
— Mana, quando eu a carreguei, senti ela tremendo inteira de dor. Vidro no olho... deve doer demais.
— Da última vez que fui na casa dos Fontes xingar ela, ela chorou. Ela sempre teve tanto medo de dor, mas hoje... hoje ela não chorou.
Alice ficou abalada.
Era verdade: Paola não chorara durante todo o trajeto.
A forma como ela suportou a dor extrema deixou Alice impressionada. Aquela garota parecia tão frágil e chorona.
— Mana, ela estava mordendo a língua com tanta força que quase sangrou para não gritar. Ela deve estar sofrendo muito!
Alice não sabia como consolar o irmão, apenas tocou seu ombro.
Vitória e Beatriz, que presenciaram a cena terrível, também estavam em choque.
Alice pediu para Vitória levar as outras amigas de Paola para casa; Beatriz ofereceu ajuda. Em frente à cirurgia, ficaram os dois irmãos Guimarães e um Bernardo Fontes prestes a desmoronar.
A cirurgia demorou horas.
Quando as portas se abriram, Leo correu para dentro, com a voz embargada: — Doutor, como ela está?
Bernardo comprimiu os lábios, fixando o olhar no médico.
O médico explicou: — Fizemos o nosso melhor. A córnea foi perfurada por estilhaços e houve um trauma ocular externo grave. Felizmente, o globo ocular não se rompeu. Se a recuperação for boa, poderemos realizar um transplante de córnea no futuro.
— Ela vai conseguir enxergar de novo? — perguntou Leo.
Alice olhou para Bernardo e viu que o homem, sempre frio e controlado, estava com os lábios trêmulos.
Ele também queria perguntar, mas tinha medo de ouvir a pior resposta.