Capítulo 67: Que tipo de relação pura entre homem e mulher poderia existir?
Alice Guimarães realmente parou de sentir medo.
Parecia que, contanto que estivesse nos braços desse homem, mesmo que o avião caísse, não haveria nada a temer.
A turbulência logo passou.
As roupas de Alice estavam encharcadas de suor frio.
Felizmente, ela superou o pavor de agora pouco com estabilidade.
Bernardo Fontes a soltou e voltou para o seu assento.
Alice lançou-lhe um olhar, querendo dizer um "obrigada", mas ao lembrar de tudo o que passara na vida passada, mudou de ideia.
— Intrometido. — Ela desviou o olhar com rispidez.
Bernardo ficou teso. Essa mulher... o quanto ela o odiava afinal?
Ele claramente não tinha feito nada.
Assim que o avião pousou, Alice saiu apressada, recusando-se a ter qualquer contato com Bernardo.
A esquiva dela fez com que a irritação inicial de Bernardo se transformasse em algo diferente.
Pelo menos, ela ainda demonstrava emoções reais em relação a ele.
Se ela o tratasse como um completo estranho, esse sim seria o pior dos cenários.
Henrique observou Alice durante todo o trajeto: — Você está pálida, ficou assustada com a turbulência do avião?
— Sua irmã aqui é forte o suficiente para não se assustar com pouco.
— Então os negócios deram errado? Quem era aquele grande empresário afinal? Eu tentei ver, mas não consegui enxergar ninguém.
Alice manteve o silêncio. "Se você visse, não teríamos um escândalo monumental?".
Eles se hospedaram no Hotel InterContinental de Huanan; ela e Henrique ficaram em suítes separadas.
Henrique encarava aquela viagem de negócios como uma despedida romântica entre ele e Alice. Exceto pelo tempo que ela passava em reuniões, ele planejou atividades para todo o restante do tempo.
Ele pretendia arrastar Alice para um barzinho tranquilo à beira-rio para tomar um drink e conversar sobre a vida.
Alice recusou na hora.
— Tenho um cliente para encontrar.
— Alice querida, não precisa ser tão viciada em trabalho.
— Senhor Henrique Yuri, quando você assumir o Grupo Yuri, será mais dedicado que eu.
Henrique desesperou-se: — Então eu vou com você. Afinal, vim como seu assistente, e meu pai disse para eu aprender com você.
Alice lançou-lhe um olhar de desdém: — Não vai.
Henrique tentou segui-la secretamente, mas ela o despistou.
Esse moleque achava que as corridas de carro que ela fazia no exterior eram brincadeira de criança?
Alice dirigiu até um bar reservado.
O dono, ao vê-la, levou-a imediatamente por uma passagem especial até um lounge subterrâneo.
Ao abrir a porta, deparou-se com um homem de cabelos loiros, aparência atraente e diabólica, que exalava uma aura de quem vive a vida intensamente.
— Senhora Guimarães, é uma honra conhecê-la.
Alice sorriu: — Senhor Real (Huangfu Chuan), espero que não tenha esperado muito.
Real disse de forma enigmática: — Sabendo que você vinha para Huanan, cheguei cedo no meu jato particular.
— Fique tranquilo, Senhor Real. Não sairá no prejuízo ao colaborar comigo.
— Com uma beldade como você, eu aceitaria o prejuízo de bom grado.
Alice travou por um instante.
Esse Real estivera em São Paulo negociando com Bernardo Fontes recentemente; Bernardo até temia que o divórcio afetasse a parceria entre as duas famílias.
O fato de ele ter aceitado se aliar a ela para derrubar Lin Hua a surpreendera, afinal, a família Real é a mais rica de Hong Kong e, com uma parceria prestes a começar com Bernardo, ele não parecia alguém que ajudaria a ex-esposa do sócio.
Antes de vir, ela pesquisara: Real tratava os negócios da família como um jogo.
Mas ele era talentoso, tinha muitos contatos e era o herdeiro da família mais poderosa de Hong Kong. Por isso, era conhecido como o "Príncipe de Hong Kong".
Esse "Príncipe" fazia amigos baseando-se puramente em seu humor.
Após alguns drinks, ele já se tornara amigo de Alice.
— Daqui para frente, não me chame mais de Senhor Real, me chame de Juan (Xiaochuan). E eu gostaria de poder te chamar de Alice.
Alice?
Os belos olhos de Alice se estreitaram levemente.
Esse tratamento era único e íntimo.
— Eu sou a ex-mulher de Bernardo Fontes, tem certeza de que quer ser tão...
— Você é Alice Guimarães, e não tem mais nada a ver com o Bernardo Fontes.
Alice sentiu uma certa inquietação.
Será que esse excêntrico herdeiro de Hong Kong queria cortejá-la?
Não seria para tanto.
Ele já vira tantas mulheres, por que se interessaria por uma recém-divorciada?
Ela tinha beleza e linhagem, mas mulheres assim não faltavam; ela não era presunçosa a ponto de se achar a beleza suprema do mundo.
Alice não queria se precipitar em seus julgamentos.
Ela atribuiu a facilidade das negociações ao fato de seus pais terem passado todo o poder dos Guimarães para ela, o que aumentara consideravelmente o seu valor de mercado.
— Eu detendo a maioria das ações da Perfumaria Âncor, mas a Lin Hua ainda tem uma parte. Se eu quiser fundir a Âncor com a linha
Memória
, ela certamente se unirá a outras pessoas para resistir.
Real disse: — Então vamos deixá-la ocupada demais para pensar em fusão.
— Penso o mesmo, por isso espero que o Senhor possa me dar uma mãozinha.
— Diante do convite de uma bela mulher, é claro que estou disposto a agir.
— Assim que concluirmos, expandirei todas as marcas de perfume dos Guimarães para o mercado de Hong Kong.
Colaborar com a família Real de Hong Kong era o próximo passo no plano de Alice.
Real olhou para ela com admiração: — Negócio fechado.
Para certas mulheres, métodos comuns não funcionam.
Alice aceitou acompanhar Real nos drinks e não saiu. Henrique estava vigiando o local secretamente, temendo que alguém fizesse mal ao seu amor.
Ao avistar Isadora Matos no local, Henrique ficou chocado e enviou rapidamente uma mensagem para Alice.
Alice não viu o celular, que estava no silencioso, enquanto discutia as reformas internas dos Guimarães com Real.
— Alice Guimarães, abra essa porta agora! Como você pode aproveitar que estou grávida para seduzir o meu Bernardo? Vocês não já se divorciaram? Você é uma repudiada desavergonhada!
Real curvou os lábios com um sorriso malicioso; Alice franziu as sobrancelhas.
Essa piranha onipresente!
Ela já se divorciara de Bernardo Fontes, como ela ainda tinha coragem de vir atrás dela para apanhar?
— Precisa de ajuda?
Alice balançou a cabeça: — Não precisa. Convido o Senhor Real para assistir a um bom show.
— Oh?
Alice soltou os cabelos que estavam presos e tirou o blazer, ficando apenas com uma blusa de seda; desabotoou alguns botões do peito, e seu olhar assumiu uma sedução provocante.
Aquela sensualidade parecia alimentada pelo desejo.
Ao abrir a porta, Alice bloqueou propositalmente a visão de Real.
Isadora Matos vestia um vestido de gestante branco puro. Embora estivesse no início da gravidez e não tivesse barriga nenhuma, ela sempre se vestia assim quando via Alice.
Como se... quisesse lembrar Alice a todo momento que carregava o filho de Bernardo Fontes.
O olhar de Alice subiu do ventre propositalmente estufado de Isadora.
Isadora estava com uma maquiagem pesada que não combinava nada com seu vestido branco.
Ela tentava espiar ansiosamente por trás de Alice.
— Bernardo, apareça logo!
— Essa mulher certamente não aceitou o divórcio e quer te dopar.
— Bernardo, me escute, por favor!
Alice a empurrou: — Isadora Matos, dá para não ser tão desesperada? Vir de São Paulo até o Sul atrás dele... não tem vergonha?
— Por que eu teria vergonha? Eu amo o Bernardo, o mundo inteiro sabe, e vocês já se divorciaram.
— Sim, você não precisa mais ser amante, pode subir de cargo. Parabéns.
— Por que você está vestida assim? — Isadora notou a "sensualidade e sedução" de Alice e entrou em alerta total.
Alice deu um sorriso sedutor: — Ora, pela noite de prazer, é claro. Em um bar como este, que tipo de relação pura entre homem e mulher poderia existir?