Capítulo 59: Pessoas da cidade, desejos carnais
A notícia de que a família Yuri, do Leste, solicitara uma parceria com o Grupo Guimarães logo abalou os círculos de elite de São Paulo.
Imediatamente, os funcionários dos Guimarães voltaram a andar de cabeça erguida.
As pessoas lá fora também não ousavam mais escrever qualquer notícia negativa sobre a empresa.
Alice estava sentada em seu escritório, observando com resignação o belo rapaz de rosto angelical jogado em seu sofá: — Você mal foi libertado pelo Bernardo e já vem com esse golpe? Não tem medo de que ele continue te perseguindo?
— Fique tranquila. A condição para o meu velho aceitar a parceria com os Guimarães foi eu desistir da perfumaria e voltar para assumir os negócios da família.
Henrique falava com tom descontraído, emanando uma aura de indiferença.
Alice disse seriamente: — Mas eu sei que a perfumaria é sua paixão. Você não quer estar no mundo corporativo.
Henrique sorriu: — Você é a minha maior paixão! Percebeu minha sinceridade agora? Se você quiser, nossas famílias podem se unir em matrimônio a qualquer momento!
Alice o fuzilou com o olhar: — Pare com essas piadinhas. Eu não tenho cabeça para namoro agora, muito menos para pular em outro túmulo matrimonial.
Henrique soltou um lamento dramático: — Alice querida, você é tão cruel. Não pode desistir de milhares de homens maravilhosos só por causa de um traste.
Batidas soaram à porta.
A secretária entrou com dificuldade, carregando um buquê de rosas champanhe maior que ela e uma cesta térmica de comida.
— Senhora Alice, suas flores!
Ao ver as rosas, Henrique se animou instantaneamente: — Quem mandou?
Alice mal anunciara o divórcio e ele já tinha um novo rival?
Henrique abriu o cartão e, ao ler a assinatura, questionou Alice com mágoa: — Alice, desde quando você tem envolvimento com gente do entretenimento?
Alice franziu a testa. Entretenimento?
Victor?
Após a secretária sair discretamente, Henrique abriu a cesta e sentiu o aroma delicioso de uma canja de galinha bem temperada. Ele ficou ainda mais deprimido: — Esse sujeito sabe mesmo como conquistar uma mulher. Até canja ele preparou!
Alice pigarreou: — Com tudo o que aconteceu, eu realmente perdi o apetite. Vou tomar um pouco para recuperar as forças.
— Alice!
— Você quer? É seu — disse Alice.
Henrique ficou radiante na hora.
Alice sabia que a proposta repentina da família Yuri era mérito de Henrique.
Esse homem abrira mão da própria liberdade para ajudá-la a superar a crise.
Ela não tinha sentimentos românticos por ele, mas não podia ignorar esse gesto.
Henrique tomava a canja com satisfação e ainda tirou uma selfie proposital, postando com a legenda: 【A canja da Deusa é a melhor, doce até o fundo do coração! (
^▽^
)】
Bernardo, que estava monitorando o Weibo de Alice, recebeu uma notificação de marcação. Ao abrir, seu rosto bonito foi tomado por uma camada espessa de gelo.
Certo ator premiado, que aproveitava o intervalo para checar as redes, viu a cesta familiar e as rosas ao fundo; seu rosto galã escureceu completamente.
Henrique, nessa rodada, venceu de lavada.
Alice não tinha tempo para os joguinhos de Henrique; ela estava ocupada recebendo a responsável pela família Yuri: Clara.
Essa mulher de negócios, de idade próxima à dela, era prima de Henrique. Linda, eficiente e de estilo impetuoso, possuía uma competência excepcional.
O pai de Henrique a enviara especificamente para as negociações, com a intenção de que Henrique aprendesse com ela, mas como o rapaz só pensava em conquistar Alice, Clara estava em uma posição difícil.
Sem saída, após tratarem dos negócios, ela foi direta com Alice: — Para ser sincera, Senhora Alice, nossas empresas só estão colaborando por causa do Henrique. O desejo do meu tio é que o Henrique foque no trabalho. Ele não vai interferir nos assuntos privados de vocês, mas se o privado atrapalhar o corporativo, então...
Ela hesitou, mas Alice entendeu perfeitamente a insinuação.
— Henrique e eu temos uma amizade de infância. Independentemente do que ele sente por mim, eu sempre o verei como um melhor amigo. Jamais o trairia e muito menos o magoaria. Peço que a Senhora Clara transmita isso ao Senhor Yuri.
Clara surpreendeu-se: — Você e o Henrique...
— Como pode ver, acabei de me divorciar e estou cercada de boatos. Qualquer homem próximo a mim agora será afetado. Espero que o Henrique possa voltar para o Leste. Sobre a parceria, podemos...
— Eu não vou voltar!
Henrique, que descobrira não se sabe como que elas estavam almoçando no
Hua Ding Xuan
, invadiu o camarote.
Clara ficou constrangida; Alice manteve a calma: — Senhor Henrique, quer almoçar conosco?
— Alice, não me chame assim, me chame de Henrique. E eu não vou voltar; se eu for, aquele ator falso vai tomar o meu lugar? Não sou tão burro.
Ele esperara tanto pelo divórcio de Alice que não daria chance a ninguém.
Alice olhou para Clara, impotente: — Senhora Clara?
Clara sorriu: — O desejo do meu tio é que o Henrique ganhe experiência em São Paulo. Quanto aos seus assuntos privados, contanto que não afetem o trabalho, eu não interferirei.
Henrique olhou vitorioso para Alice: — Viu? Minha prima já disse. Você não tem mais desculpas para me mandar embora.
Vitória também estava almoçando ali com colegas de faculdade. Ao sair, viu um vulto passar correndo; ela travou por um instante e reconheceu quem era.
Ela o seguiu e acabou ouvindo cada palavra.
Observando de longe como ele bajulava sua melhor amiga, e como ele a olhava com adoração constante, Vitória sentiu que ela mesma era uma piada.
Seu sentimento por Henrique começara com curiosidade e fofoca, evoluindo gradualmente para algo mais.
Naquela vez em que ele a defendera do irmão e dissera que ela deveria viver por si mesma, ela se apaixonara de vez.
Ela não ousava deixar ninguém perceber esse segredinho; tinha medo.
Medo de que a amiga a desprezasse e medo de que Henrique se afastasse.
E para piorar, Henrique, bêbado na festa de Alice e provocado por Bernardo, a confundira com a amiga e aquilo aconteceu.
Ele era um homem adulto; mesmo sem experiência anterior, era impossível não ter sentido nada, a menos que...
Ele não quisesse admitir.
E ela não queria forçá-lo.
Dois adultos.
No máximo, ela trataria aquilo como um sonho. Pessoas da cidade, desejos carnais. Se ela ficasse insistindo, acabaria manchando o nome da família Vitória.
Vitória engoliu a mágoa e partiu solitária.
A janela de outro camarote dava exatamente para aquele lado.
Um olhar negro e profundo varria as pessoas, captando a reação de cada um.
Ele curvou os lábios finos: — Aquela é a melhor amiga da Alice, a herdeira dos Vitória.
Rafael aproximou-se curioso: — Você está olhando para ela faz tempo. O que tem a herdeira dos Vitória?
— O que você acha dela?
Rafael não entendeu: — Como assim? A Vitória é a princesa protegida do Rodrigo Vitória, quase como a nossa Paola. Ela estudou pintura e design e, depois de formada, abriu uma empresinha por hobby. Não deixa o irmão interferir e vive discretamente.
Dito isso, ele viu que Vitória já havia partido, mas o amigo continuava fixo ali. — Por que o interesse nela do nada? O Rodrigo arrumou vários pretendentes para ela, mas no nosso círculo, quem tem má fama ou não é bonito e generoso o suficiente, nem tem chance.